<
>

Torcedor encarou quase 60 horas e 4 mil km para ver Portuguesa subir com vaquinha de jogadores e amigos em grupo de WhatsApp

O torcedor Edson Borges dos Santos saiu da pequena São José dos Quatro Marcos para acompanhar o jogo que valeu o acesso à Série A1 do Paulista para a Portuguesa após 8 anos de espera, sofrimento e quase falência.


Foi ao descobrir, por meio de uma televisão a cores, que o famoso uniforme listrado da Portuguesa era vermelho e verde que Edson Borges do Santos, 35, sentiu uma paixão súbita pelo time do Canindé, abandonando de vez o Corinthians.

Isso ocorreu em 1994, quando ele ainda era um garoto de sete anos, simples e humilde, nascido e criado em um sítio na pequena cidade de São José dos Quatro Marcos, no sul do Mato Grosso, quase sem acesso à mundo exterior.

“No Brasil é muito mais fácil ser Corinthians, Flamengo. Eu era corintiano porque tinha um tio corintiano. Aí fui assistir pela televisão Corinthians x Portuguesa, acho que pelo Campeonato Paulista daquele ano, e, quando vi aquele uniforme, aí aconteceu minha transformação. Comecei a falar ‘Sou Lusa, sou Lusa’, e pronto. Hoje, toda a cidade conhece a Lusa por minha causa”, disse à ESPN.

Desde aquele jogo a cores, Edson se converteu em um verdadeiro fanático, descobrindo tudo que podia consumir com as fontes de informação que conseguia. Hoje, sabe a história do clube, o nome de ídolos, a data de grandes jogos, escalações...

Mas os quase 2.000 quilômetros que separam a cidade natal dele de São Paulo e a falta de recursos financeiros para viajar soavam como barreiras intransponíveis para ele pensar em curtir a Portuguesa de perto. Um sonho praticamente inalcançável.

Tudo mudou no último dia 9 de abril, quando uma iniciativa de amigos, jornalistas e jogadores em um grupo de WhatsApp financiou a viagem do jovem torcedor, que deixou São José dos Quatro Marcos e veio ao Canindé pela primeira vez.

Edson foi um dos 12.968 pagantes que testemunharam o empate lusitano com o Rio Claro por 1 a 1, no jogo que marcou também o retorno da Portuguesa à elite do futebol paulista após oito anos de sofrimento na Série A2.

Ele acompanhou a partida das cabines de transmissção, ao lado do locutor esportivo Paulo Sodate, um dos responsáveis pela vinda dele para São Paulo. Depois do jogo, entrou no vestiário e também no gramado, onde festejou o acesso com os jogadores.

“Foi um dia inesquecível. Já passou quase uma semana e até agora estou ouvindo claramente os sons do Canindé, o grito da torcida, o grito de gol. Tenho três palavras para definir esse momento: Deus, gratidão e Portuguesa”, disse Edson.

Uma viagem inesperada

Já são quase 30 anos que Edson virou torcedor da Portuguesa, mas a ideia de viajar quase 2.000 quilômetros parecia realmente impossível para ele, que atualmente divide o trabalho como professor de geografia e vereador.

“Eu trabalho em duas escolas, uma na cidade e outra na zona rural, mas no Brasil professor ganha pouco e eu tenho uma família, com minha mulher e três meninas. Ser vereador em cidade pequena também não é luxo. O que você ganha você acaba ajudando pessoas que precisam, com cesta básica e outras coisas. Não enriquece. Eu não tinha recursos para viajar”, disse o torcedor.

O mais perto que Edson chegou de vir para São Paulo foi em 2017. Naquele ano, a história dele como torcedor fanático da Portuguesa no Mato Grosso ficou conhecida em São Paulo entre outros torcedores e diretores do clube.

“Eu usava muito a internet para interagir com os programas que eu ouvia, principalmente com Paulo Sodate e o Antônio Quintal, que foi o primeiro a me entrevistar. Sempre falava o nome da minha cidade e mandava uma saudação. E aí eles foram ficando curiosos. Depois que contei minha história para o Quintal, pronto, todo mundo começou a me procurar”, disse.

Na época, Edson relembrou que após entrou em cena um figurão da Portuguesa disposto a trazer o matogrossense para São Paulo. Era Joaquim Justo dos Santos, benemérito da Lusa e conhecido por toda a comunidade lusitana, mas que morreu em 2020.

“Naquela época, mesmo com ele oferecendo doar as passagens para eu viajar, não foi possível. Minha vida é muito simples e cheia de compromissos. Não podia abandonar tudo”, disse.

A campanha da Portuguesa na Série A2 do Paulista deste ano acabou mudando a história. Toda a comunidade lusitana ficou animada porque o time liderou a primeira fase e chegou ao jogo com o Rio Claro precisando de apenas um empate para subir.

Aí entrou em cena novamente Paulo Sodate. Dessa vez perguntando a Edson se ele toparia vir ao Canindé para acompanhar o jogo do dia 9 de abril. A resposta do torcedor foi simples: “Como?”.

“Por ser fanático, eu criei o costume de mandar mensagens aos jogadores pelas redes sociais e no elenco da Portuguesa tem dois matogrossenses: o Geovani, de Cuiabá, e o Danilo Pereira, de Nova Olímpia. Então, eu fiquei conhecido pelo elenco", disse.

"No sábado 2 de abril, dia do primeiro jogo pela semifinal da Série A2 contra o Rio Claro, começou uma corrente de várias pessoas me convidando para o jogo, entre eles o Sodate, que perguntou o que me impedia de estar no Canindé no dia 9. Os jogadores também queriam saber. Eu fui sincero: o que me impedia era a questão do dinheiro”, continuou Edson.

“Aí o Geovani e o Sodate começaram a fazer um esforço para me ajudar. Criaram o grupo de WhatsApp ‘A vinda de Edson Borges’ com várias pessoas e fizeram uma vaquinha. Foi tudo muito rápido, insperado e a viagem aconteceu. Foi até engraçado que eles queriam me colocar num avião, mas eu tenho medo. Nunca voei”, completou.

A viagem foi de ônibus, mas não foi nada simples. Por residir em uma cidade pequena, com menos de 20 mil habitantes, Edson teve de pegar um ônibus até a rodovia e, de lá, outro até Cuiabá, onde embarcou rumo ao bairro da Barra Funda, em São Paulo.

O torcedor saiu da cidade dele na quarta-feira, dia 6. Chegou em Cuiabá no mesmo dia, mas teve de esperar até o dia seguinte para embarcar no ônibus para São Paulo. Então, no dia 7, às 13h, ele começou o trajeto final, chegando em São Paulo apenas no dia 8, às 18h. Sodate o aguardava na Barra Funda. Primeiro o levou para jantar. Depois o hospedou na própria casa.

Foi pouco mais de 30 horas dentro dos ônibus, somando os dois trajetos, com custo total de viagem de pouco mais de R$ 700.

No dia do jogo, Edson chegou ao Canindé 10h e fez um verdadeiro tour. Visitou a loja, o museu, o ginásio, o estádio e até no gramado ele pisou. Tirou muitas fotos, chorou e ficou aguardando até o horário da partida, de onde acompanhou das tribunas com Sodate.

“Meu Deus do céu, eu andei tudo no Canindé. No gramado eu contei até quantos passos tinha de comprimento para matar a minha curiosidade. Já dentro do estádio algumas pessoas me reconheceram e falaram ‘Você é o torcedor do Mato Grosso? Vamos tirar uma foto’. Isso foi algo inimaginável. Olha, vou te dizer que o acesso foi a coroação desse dia tão marcante na minha vida”, disse.

A volta para casa

Depois do jogo e de curtir com os jogadores o acesso no gramado, Edson foi presenteado por Geovani com uma camisa da Portuguesa autografada pelo elenco. Tomou parte na festa que foi organizada na antiga área das piscinas do clube rubroverde e terminou a noite numa churrascaria com Sodate e outros amigos que o ajudaram a viajar.

No domingo, ele embarcou para retornar à terra natal às 13h, encarando dessa vez um trajeto mais longo, com passagem por Campinas, Limeira, Araçatuba etc. Chegou em Cuiabá na segunda-feira, dia 11, às 23h. Acabou tomando um ônibus para uma cidade próxima a onde ele mora, onde a esposa dele o aguardava de carro para finalmente levá-lo para casa, às 5h.

Dessa vez, ele recordou que foram mais de 30 horas para regressar para casa, com custo perto de R$ 600.

“E meu dia na terça foi cheio. Fui para a escola na zona rural onde dou aula no período da manhã. Fica a 18 km da minha casa. À tarde, dei aula até 17h na outra escola, no centro. Já à noite participei de uma sessão na câmara dos vereadores”, disse Edson.

Toda essa saga para ver a Portuguesa de perto, ainda mais no dia em que o acesso foi concretizado, deixaram Edson com um gostinho de quero mais.

“Cara, quero curtir mais vezes essa sensação, o gosto de estar presente no Canindé. Quero acompanhar o jogo da arquibancada com o torcedor, a festa da torcida. Só posso agradecer tudo que vivi a Deus, e a pessoas como Quintal, que não pude encontrar porque está doente, Sodate, Geovani e tantos outros que me abriram portas. Eu realizei meu sonho", finalizou Edson.