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Por que vaias da torcida do PSG a Neymar, Messi, Mbappé e cia. vão muito além de decepção na Champions

Ultras do PSG têm longa história de pressão e cobranças sobre elenco e diretoria; nem mesmo um dos maiores de todos os tempos escapou das vaias


Pela primeira vez desde que chegou ao clube em agosto do ano passado, Lionel Messi conheceu bem os ultras do Paris Saint-Germain. No último domingo (13), contra o Bordeaux, no Parc des Princes, ele foi vaiado durante todo o jogo. Não importava que o PSG estivesse vencendo por 3 a 0; Messi preferia ter evitado a ira deles, mas aconteceu, e isso chocou um pouco o mundo do futebol. Eis aqui o melhor jogador do mundo, talvez o melhor de todos os tempos, sendo pressionado por torcedores que antes haviam lotado as ruas da capital francesa para recebê-lo.

Ainda não está claro se o astro argentino sabia o que estava por vir, ou se ele tinha sido avisado de que as coisas iriam ficar feias e ele seria vaiado por seus próprios torcedores. Mas ele rapidamente descobriu. Ele não parecia muito perturbado com isso, enquanto seus companheiros também não parecem muito aborrecidos com isso. Mas para o público esportivo mais amplo, o fato de os torcedores do PSG vaiarem um dos maiores jogadores de todos os tempos cada vez que ele tocava na bola era algo que parece ser um exagero.

Primeiro, vamos lembrar a todos que está longe de ser a primeira vez que ele experimentou essa situação. No passado, jogando com a seleção da Argentina, seu relacionamento às vezes complicado com os torcedores levou a algumas demonstrações públicas de frustração. Mas ele certamente ficou surpreso com a intensidade do protesto e com o fato de que as vaias aconteceram o jogo inteiro.

A reação do Collectif Ultras Paris (CUP), que é o grupo de torcedores do qual fazem parte os Ultras do PSG, foi significativa. Para a CUP, sua raiva refletia a humilhação de perder para o Real Madrid na semana passada e mais uma eliminação da Champions League.

Não é segredo que a principal competição de clubes da Europa é o maior objetivo do clube, mas a última eliminação claramente machucou muito (nos últimos 10 torneios, o PSG só passou das quartas-de-final em duas ocasiões, perdendo na final em 2019-20 e na semifinal de 2020-21).

Estes torcedores são apaixonados; igualmente, estavam insatisfeitos com o clube antes da derrota em Madri. Eles sentem que a direção que o clube está tomando no momento é mais focada no marketing do que nas partidas em campo, mais preocupados em vender camisas ou contratar jogadores ‘bancáveis’ do que em ganhar grandes jogos ou construir um time forte e equilibrado. Eles protestaram no início da temporada contra a hierarquia do clube porque sentem que o PSG está perdendo sua identidade. Eles também destacaram essa parte em um forte comunicado nesta sexta-feira (18).

Na cultura dos ultras, você sinaliza sua insatisfação com faixas, vaias, insultos ou manifestações. Às vezes, eles vão longe demais, embora o que vimos no domingo não seja novidade.

Se lembra da temporada 2007-08, quando o PSG lutou contra o rebaixamento até o último dia da temporada e teve um grande jogo no Sochaux? No início dessa campanha, os Ultras invadiram o campo de treinamento depois de uma série de resultados ruins e ameaçaram os jogadores e a equipe. Foi assustador presenciar como os jogadores foram impedidos de deixar o campo de treinamento e seus carros foram vandalizados.

Em 2017, após a virada contra Messi e Neymar em Barcelona, os Ultras invadiram o aeroporto de Bourget, bloqueando os carros dos jogadores os xingando. Thiago Motta até derrubou um torcedor que estava no seu caminho.

Em 2019, após outro fracasso na Champions League, desta vez contra o Manchester United, os Ultras forçaram sua entrada no Parc des Princes para assistir a um treino, vaiaram e insultaram os jogadores.

O PSG tem uma longa história de tensão em suas relações com os Ultras, que foram proibidos de assistir aos jogos em casa entre 2010 e 2014 após algumas cenas de muita violência que levaram à morte de dois torcedores em 2006 e 2010 ao redor do Parc des Princes, um dos muitos incidentes em casa e fora também nesse período.

Por fim, a derrota no Santiago Bernabéu, na qual eles perderam uma vantagem de 2 a 0 no meio do segundo tempo, foi a gota d’água. Eles queriam protestar e tornar sua insatisfação pública, e além de Kylian Mbappe e Keylor Navas, nenhum jogador do PSG foi poupado. Neymar foi xingado, embora isso não seja novidade para o atacante brasileiro.

Quando perguntado sobre toda a situação, Kimpembe disse: "entendemos a decepção dos torcedores, sua raiva e seus gritos. Neymar e Messi vaiados? Todos temos culpa. Somos uma equipe nos momentos bons e ruins. Somos todos nós. Está na hora de todos mostrarem caráter".

As vaias não se dirigiram a indivíduos, mas a todo o clube. Poderia ter sido Pelé, Emmanuel Macron ou Michael Jordan jogando – eles também teriam sido alvos de vaias. E poderia ter sido pior. No passado, ocorreram episódios quando os ultras invadiram o treinamento e ameaçaram fisicamente os jogadores.

A maioria dos torcedores que protestaram no domingo estava em Madri na quarta-feira. Alguns foram de Paris até a capital espanhola para ver pessoalmente a derrota, e eles acreditam que têm o direito de mostrar que estão decepcionados.

Eles foram acusados por alguns de ter uma memória curta quando se trata de Messi. Por quê? Porque ele ganhou uma Champions League em 2015? Porque ele é um dos maiores? Ele perdeu como os outros no Bernabéu, e eles sentiram que a culpa também era dele – para os torcedores, ele merecia como qualquer outro jogador. Mas é melhor Messi se acostumar, porque parece que os Ultras vão continuar protestando por mais alguns jogos em casa, já que esse clima não vai acabar.

O que vai acontecer no futuro, e como isto pode ser resolvido?

Em declaração nesta sexta-feira, os Ultras pediram a Nasser Al-Khelaifi para deixar seu cargo de presidente. "Sabemos o que lhe devemos, mas está claro que ele é não é mais o homem certo para o cargo. O clube precisa se reorganizar completamente em todos os níveis e da presença diária de um presidente", diz o comunicado. Eles protestam tanto contra a primeira direção de marketing – e contra o diretor esportivo Leonardo, que foi alvo com bandeiras nas arquibancadas – do clube, quanto sobre a derrota do Real Madrid.

Para os jogadores, eles terão que trabalhar duro e redobrar seus esforços para restabelecer a relação com os torcedores. O melhor que eles podem fazer nesta temporada é continuar a campanha até o título da Ligue 1o PSG está 15 pontos à frente do segundo colocado Olympique de Marselha com 10 jogos restantes – dado que eles também foram eliminados da Copa da França nas oitavas-de-final pelo Nice no final de janeiro.

Curiosamente, quem não é alvo das frustrações é o técnico Mauricio Pochettino: os torcedores nunca sentiram que ele realmente se firmou em Paris ou que ele realmente queria estar lá, especialmente com as constantes ligações com o Manchester United nesta temporada. Mas eles também reconhecem que este é um vestiário/clube difícil de gerenciar.

As coisas devem melhorar com o tempo. Eles sempre fazem isso com o clube, pelo menos até a fase de mata-mata da Champions League começar mais uma vez.