O plano da Fórmula 1 de voltar às atividades em julho depende de uma série de corridas com portões fechados na Europa.
A F1 espera começar a temporada com o Grande Prêmio da Áustria sem torcida em 5 de julho, onde apenas funcionários essenciais participarão da corrida para que ela aconteça e seja transmitida de maneira eficaz. Se isso ocorrer sem problemas, eventos semelhantes no Reino Unido e na Hungria poderão receber a luz verde.
Embora seja difícil obter um número exato, imaginamos que uma corrida com portões fechados tenha de 1.200 a 1.500 pessoas, destacando a escala de operação da F1.
Mas como esse número se traduz entre as equipes e os estafes do próprio circuito? O que acontece se uma dessas pessoas testar positivo para o coronavírus, como acabou de acontecer, impedindo a bandeirada para o GP da Austrália?
Aqui, detalhamos tudo o que você precisa saber sobre o tipo de corrida de Fórmula 1 que você, provavelmente, estará assistindo...
Criando uma "biosfera"
Para que as corridas sejam retomadas, a Fórmula 1 terá que apresentar um plano para que os membros do paddock sejam testados e autorizados a viajar apenas se apresentarem resultados negativos e, em seguida, mantidos em segurança durante a viagem. Com o número de viagens internacionais reduzido em todo mundo, isso só poderia acontecer quando os bloqueios fossem diminuídos, e é por isso que a F1 tem como objetivo retomar em julho.
O diretor esportivo Ross Brawn falou sobre a criação da "biosfera" na qual os membros do paddock podem estar seguros. O plano é que os participantes da corrida sejam testados para COVID-19 antes de deixarem seu país e, posteriormente, examinados a cada dois dias para garantir que estejam bem.
Uma vez liberados para viajar, eles iriam em voos fretados, ficariam em hotéis dedicados aos funcionários de equipes e da F1 e depois voltariam para casa com o mínimo de contato com a população local. O Red Bull Ring, circuito na Áustria, se coloca à disposição, já que fica em uma localização remota nas montanhas da Estíria e possui um aeroporto militar nas proximidades. Um grande refeitório embaixo do centro de mídia poderia atender pelo menos metade do paddock, enquanto a outra metade poderia fazer uso das instalações do Paddock Club, que geralmente está reservado para convidados VIP.
Brawn deixou claro, também, que as equipes seriam mantidas separadas umas das outras e as que trabalham entre elas, como montadores de pneus ou membros da FIA, passariam por procedimentos diferenciados para garantir que eles e os membros da equipe com quem trabalham permaneçam seguros.
"Teremos restrições sobre como as pessoas se movimentam dentro do paddock", disse Brawn à Sky Sports. "Precisamos criar um ambiente que funcione como uma pequena bolha de isolamento. As equipes permanecerão juntas. Elas não vão se misturar com outras equipes e ficarão em seus próprios hotéis. Não teremos motorhomes".
Duas corridas seriam disputadas em finais de semana consecutivos em locais fechados. Supondo que todos cumpram as regras, os participantes dos eventos devem ter um risco muito limitado de infecção, embora a equipe que trabalha nos hotéis da equipe e locais que trabalham no circuito possam contaminar acidentalmente a "biosfera".
Quantos membros da equipe são necessários para que dois carros consigam correr?
Em um fim de semana normal de corrida, a equipe inteira pode ser dividida em dois grupos.
Estafe operacional
Esse é o núcleo de uma equipe de corrida e inclui qualquer pessoa cujo trabalho afeta diretamente o desempenho de um carro.
Isso inclui:
- Gerenciamento sênior: chefes de equipe, engenheiros-chefe, estrategistas - basicamente aqueles que você veria no pit durante uma sessão ao vivo.
- Mecânica / equipe de pit: aqueles que fazem o trabalho manual no carro durante um fim de semana de corrida.
- Motor: a fabricante fornecerá mecânicos que trabalharão na garagem durante um fim de semana de corrida, especificamente em questões envolvendo os motores.
- Pirelli: o fornecedor de pneus da Fórmula 1 tem uma equipe dedicada para cada uma das 10 equipes.
- Outros técnicos: trabalham em componentes como freios e comunicação por rádio.
Várias equipes disseram à ESPN que a divisão é geralmente de 40 a 45 de gerência sênior e mecânicos, com 10 a 15 pessoas que formam técnicos de motor, pneus e outros componentes. As regras da Fórmula 1 limitam a equipe operacional da corrida a 60 pessoas.
Estafe não-operacional
Esse é o núcleo da equipe que trabalha nos bastidores do paddock. São geralmente divididos entre equipes de comunicação, marketing e hospitalidade.
Esse número varia dependendo da equipe e do local em que a corrida será disputada. As equipes menores geralmente têm números limitados onde quer que estejam, embora algumas das equipes maiores possam quase dobrar o tamanho de toda a sua operação em alguns dos eventos mais populares do calendário da F1. Uma equipe disse à ESPN que leva mais de 120 funcionários para eventos mais populares, como Cingapura, Estados Unidos ou Abu Dhabi, devido à quantidade extra de funcionários não-operacionais que eles trazem para atender à demanda de um número maior de convidados VIPs.
Independentemente da equipe, esta é a parte mais fácil de ser diminuída - são estas as pessoas que a F1 procura limitar em uma corrida de portões fechados. Sem patrocinadores, convidados VIP e meios de comunicação além das equipes de produção extremamente necessárias, o número poderia ser facilmente reduzido, e a ausência de motorhomes significa que uma equipe estabelecida pela própria F1 poderia ajudar a preencher o estafe de cada equipe.
Os times conseguem operar com uma equipe reduzida ao máximo?
É fácil olhar para um pit stop de F1 e sugerir que o número de mecânicos possa ser reduzido pela metade. Cada pneu precisa de três mecânicos para ser mudado; então, por que não ter apenas um por pneu, como na IndyCar? Claro que o pit stop seria mais lento, mas seria o mesmo para todos, então não haveria perda, certo?
O único problema é que o pit stop representa apenas uma fração do trabalho que cada um desses membros realiza todo fim de semana de corrida - eles não são simplesmente uma "equipe de pit". Cada um deles tem um papel importante no carro durante o fim de semana e, dada a complexidade dos carros da F1, reduzir o número dificultaria o funcionamento dos dois carros em um fim de semana de corrida, sem mencionar reparos, caso haja um acidente.
As equipes de F1 continuarão levando a equipe operacional permitida para todos os eventos. Com um número mínimo de funcionários não-operacionais de cerca de 20 pessoas fazendo a viagem, você pode pensar em 80 pessoas multiplicadas por 10 equipes e terá um número de 800 pessoas viajando para as corridas.
Quem mais precisaria estar lá?
Para que uma corrida justa e segura seja realizada, a equipe médica, policiais, inspetores, equipes técnicas e de segurança da FIA precisariam estar presentes.
O maior número dentre esses são os policiais, com mais de 350 participando das corridas prévias que aconteceram no Red Bull Ring. Pode ser possível reduzir esse número, mas não de maneira significativa, dada a importância deles em garantir a segurança do circuito durante qualquer uma das sessões do fim de semana de corrida.
Uma equipe médica completa também precisa estar presente em caso de acidente.
A F1 ainda está discutindo com seus vários parceiros de transmissão sobre as equipes enviadas, mas, ao que parece, todas as equipes de transmissão, incluindo a própria equipe da F1, terão que operar com o mínimo de membros possível.
Alguns narradores e comentaristas já trabalham remotamente, e parece provável que todas as emissoras de TV precisem fazer o mesmo se houver corrida. Também é provável que a mídia escrita seja mantida afastada enquanto as corridas permanecerem com portões fechados. Algumas já fizeram coletivas de imprensa online, então é possível imaginar uma logística onde pilotos respondam perguntas pós-corrida.
E se alguém testar positivo?
É muito provável que o Grande Prêmio da Austrália teria ocorrido como planejado se um membro da equipe da McLaren não tivesse testado positivo para COVID-19 na quinta-feira antes da corrida. Essa precipitação assombrou o esporte por várias semanas, pois seus organizadores pareciam completamente despreparados e, às vezes, desconheciam a gravidade da situação. É só lembrar que a ideia, inicialmente, era que o esporte continuasse normalmente.
Mesmo com regimes rigorosos de testes, ainda existe a possibilidade de que eles sejam feitos novamente quando as corridas voltarem a acontecer. O esporte sofreria muito se um teste positivo inviabilizasse seus planos, mas o chefe da comissão médica da FIA, Gérard Saillant, disse que esse não seria necessariamente o caso.
"A situação evoluiu desde a Austrália", disse Saillant ao L'Equipe. "Fornecemos um dispositivo de resposta rápida para confirmar o diagnóstico, isolar e testar pessoas que estiveram em contato com o caso positivo. Para mim, o GP não seria cancelado. É a mesma coisa que dizer que o metrô será fechado porque alguém que andou nele testou positivo."
Ele reiterou os pontos levantados por Ross Brawn em relação ao distanciamento social e revelou que a FIA também procuraria implementar aplicativos de rastreamento semelhantes aos considerados por governos de vários países ao redor do globo.
"Com um Grande Prêmio com portões fechadas, não há necessidade de hospitalidade", acrescentou Saillant. "Os presentes estarão em um espaço ventilado e não confinado e terão sido selecionados a dedo. Se eles saírem do circuito, repetiremos os testes a uma taxa que ainda será definida pelas autoridades locais e pela Organização Mundial de Saúde. Dentro dessa 'bolha', estamos trabalhando com o departamento jurídico para estabelecer, de forma voluntária, um aplicativo que permita saber se um contato foi feito a menos de um metro de distância com alguém que testou positivo”.
Como ficaria o calendário da corrida?
Além do plano básico arquitetado pela F1 para começar com o GP da Áustria e depois se mudar para Ásia, América do Norte e Oriente Médio, nada foi definido. Discussões em andamento com promotores, equipes e governos decidirão o que será possível fazer, mas a F1 tem como alvo duas corridas com portões fechados na Áustria, duas corridas com portões fechados em Silverstone, no Reino Unido, e outra corrida com portões fechados em Budapeste, na Hungria.
Embora nada tenha sido descartado, é evidente que as corridas de rua como o GP de Cingapura e o GP do Vietnã exigiriam mais precauções.
"Cada país tem regulamentações diferentes, e a situação do circuito e dos hotéis também influenciará em tudo", afirmou Sallient. "Se a pista estiver localizada no interior, as coisas serão diferentes do que se estivesse em uma cidade. Cingapura e Vietnã teriam uma organização médica completamente diferente se precisassem organizar um Grande Prêmio agora. O governo de Cingapura já pode obrigar todo o paddock a ficar isolado por 14 dias antes de poder acessar a pista. Na Áustria, é diferente. O país está emergindo da crise que tem sido relativamente moderada. Nesse país seguro, a regra seria fazer algo no ainda mais seguro paddock".
O CEO da F1, Chase Carey, admitiu que o campeonato está em discussões com locais que não estavam originalmente no calendário de 2020 para ver se eles poderiam sediar uma corrida - Carey falou depois que a F1 revelou uma queda de 84% nas receitas no primeiro trimestre do ano.
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