Ayrton Senna venceu de forma épica o Grande Prêmio do Brasil de 1991, que será reprisado na íntegra pela TV Globo neste domingo a partir das 10h (de Brasília). Mas aquela temporada da Fórmula 1 teve muito mais do que isto e marcou momentos importantes na história da categoria.
Foi, por exemplo, o ano do tricampeonato de Senna, que aumentou ali para sete o número do seleto grupo de pilotos com três títulos ou mais.
Teve o francês Alain Prost, então dono de três Mundiais, demitido pela segunda vez na carreira, e logo por uma equipe gigante.
E ainda as estreias de uma futura lenda e de um futuro bicampeão, além do adeus do primeiro brasileiro a vencer por três vezes o campeonato: Nelson Piquet.
O ESPN.com.br, então, conta (ou relembra) abaixo a Fórmula 1 de 1991 em sete tópicos. Aproveite!
1 - A vitória épica de Senna no Brasil
Já bicampeão (1988 e 1990), Senna chegou para o Grande Prêmio do Brasil, segunda prova de 1991, tendo feito pole e ganho a corrida de abertura, nos Estados Unidos. Repetiu a pole com sua McLaren em Interlagos (que voltou a ser sede da prova no país em 1990 após 12 anos de disputa no Rio), em São Paulo, naquele 24 de março, largou bem e abriu vantagem confortável.
Mas com dois terços de prova disputados, a dupla da Williams formada pelo inglês Nigel Mansell e o italiano Ricardo Patrese começou a voar baixo e se aproximar. O primeiro vinha babando para tentar o bote no brasileiro, mas errou no giro 60, rodou logo no S do Senna e teve de abandonar.
Restavam 11 voltas, e o que já era dramático por conta da pressão que fizera o inglês e da possibilidade de ser a primeira vitória do piloto em casa ficou ainda pior: a chuva caía, Patrese era mais rápido e Senna, que já não tinha terceira e quinta marchas, ficou também sem a quarta, com o câmbio travado na sexta.
Senna, de novo, mostrou porque era diferente. Com extrema dificuldade, levou seu carro até o fim, finalmente ganhou em seu país (apenas em sua oitava temporada), com menos de três segundos de vantagem para o italiano, deixou seu monoposto apagar por duas vezes após cruzar a linha de chegada e precisou ser atendido ainda na pista, dentro do cockpit. A imagem de um dos fiscais enlouquecido com uma pequena bandeira do Brasil é marcante.
O público invadiu a pista, e Senna, no topo do pódio, teve que tentar duas vezes para, só então, conseguir levantar o troféu. Depois, estourou e se deu um banho de champanhe. "Memorável", disse o piloto em entrevista à TV Globo. Foi mesmo!
2 - A estreia de um futuro bicampeão
Foi a primeira temporada de Mika Hakkinen na Fórmula 1. Então com 20 anos, o piloto vencera o campeonato de Fórmula 3 em 1990 e acabou contratado pela Lotus, que para 1991 trocou seus doois pilotos. Saíram o inglês Darek Warwick e o norte-irlandês Martin Donnelly e entraram Hakkinen e, primeiro, o inglês Julian Bailey, substituído depois pelo alemão Michael Bartels.
O finlandês conseguiu se classificar para 15 das 16 provas naquele ano, teve como melhor posição um quinto lugar, em San Marino, e fechou o Mundial em 16º, com 2 pontos.
Hakkinen mudou-se para a McLaren em 1993, só ganhou a primeira corrida na categoria em outubro de 1997 (GP da Europa, na Espanha) e passou 11 anos na Fórmula 1 (até 2001). Tornou-se bicampeão correndo pela equipe inglesa na 'era Schumacher', em 1998 e 1999, e aposentou-se com 160 GPs, 20 triunfos, 52 pódios e 26 poles.
3 - Um tricampeão brasileiro dá adeus
Nelson Piquet participou da Fórmula 1 por três décadas diferentes: 70, 80 e 90. Estreou no GP da Alemanha em 30 de junho de 1978 em um carro alugado da equipe Ensign e aposentou-se em 3 de novembro de 1991, em corrida na Austrália. Foram 14 temporadas.
E o brasileiro foi sensacional! Logo em seu terceiro ano, 1980, sagrou-se campeão guiando pela Brabham, de Bernie Ecclestone, que depois viria a ser o todo-poderoso da categoria. Em 1983, foi bi, de novo com a Brabham; e em 1987, entrou para o então seletíssimo grupo de tricampeões composto pelo australiano Jack Brabham (1959, 1960 e 1966), pelo inglês Jackie Stewart (1969, 1971 e 1973) e pelo austríaco Niki Lauda (1975, 1977 e 1984) - o argentino Juan Manuel Fangio era o rei, com cinco títulos (1951, 1954, 1955, 1956 e 1957).
Piquet correu de Benneton em 1991, fechou o campeonato em sexto lugar, com 26,5 pontos, e venceu uma corrida, a do Canadá, quinta do calendário, além de outros dois pódios - dois terceiros lugares (Estados Unidos e Bélgica). Na prova do adeus, já com 39 anos, foi quarto na Austrália.
Em recente e rara entrevista, já na quarentena e por live, disse que Senna não sabia acertar carro, chamou Mansell de "idiota" e Briatore de "bandido".
4 - Equipe com até 5 pilotos
Em 1991, a Fórmula era outra, muito diferente da atual, no formato e no regulamento. Para se ter uma ideia, naquele ano foram 18 equipes e 41 pilotos inscritos (apenas 37 disputaram ao menos uma prova). Um tempo em que era comum a troca de nomes durante a disputa.
E há 29 anos, a campeã foi a Jordan, com cinco diferentes. A equipe irlandesa começou o ano com o italiano Andrea de Cesaris e o belga Bertrand Gachot, este preso no meio do campeonato por disparar spray de pimenta em um taxista em Londres, na Inglaterra.
Um tal alemão Michael Schumacher assume seu lugar por apenas um GP, o da Bélgica, e dá lugar a Roberto Pupo Moreno. O brasileiro só guia pelo time de Eddie Jordan em duas provas (Itália e Portugal) e acaba trocado pelo italiano Alessandro Zanardi.
5 - A estreia de uma lenda
Michael Schumacher tinha 22 anos quando estreou na Fórmula 1. E este debute foi pago. A Mercedes-Benz, que tinha ele em seu programa de formação de jovens pilotos desde 1990, desembolsou 300 mil dólares à Jordan pela vaga de Gachot no GP da Bélgica, 11ª prova do calendário e disputada em 25 de agosto de 1991.
Bastou para o alemão mostrar que deveria estar ali de vez. Fez o sétimo melhor tempo do grid, largou bem e pulou logo para o quarto lugar, mas um problema na embreagem o forçou a abandonar. Tudo bem, foi o suficiente para que Flávio Briatore visse seu talento.
O italiano não pensou duas vezes: demitiu o brasileiro Roberto Pupo Moreno e contratou Schumacher para a Benneton, pela qual disputou ao lado de Piquet as últimas cinco corridas do ano - Itália, Portugal, Espanha, Japão e Austrália. Conseguiu dois quintos lugares, um sexto e não terminou duas, fechando a temporada em 13º lugar com quatro pontos.
Na mesma Benneton, o alemão ganhou os dois primeiros (1994 e 1995) de seus sete títulos na categoria - os demais foram com a Ferrari, em 2000, 2001, 2002, 2003 e 2004. É o maior campeão, uma lenda da F1 e do esporte! Desde dezembro de 2013, vive à base de aparelhos após sofrer um acidente enquanto esquiava no qual bateu a cabeça e teve sérias lesões no cérebro.
6 - Prost demitido pela segunda vez
É verdade! Talvez poucos saibam ou se lembrem, mas Alain Prost foi demitido duas vezes na Fórmula 1. A primeira foi em 1983, quando a Renault, após três anos com o piloto, o dispensou mesmo depois do o vice-campeonato (a briga ponto a ponto foi com Nelson Piquet, que acabou campeão). Eram várias as divergências entre a escuderia francesa e o futuro tetracampeão.
Ele, então, retornou ao time em que estreara na categoria, em 1991, a McLaren. Em 1984, perdeu o título por meio ponto - o ESPN.com.br relembrou esta história aqui; mas depois levou os de 1985, 1986 e 1989 com a equipe inglesa. O quarto e último veio com a Williams, em 1993 - após um ano sabático em 1992.
Mas em 1991, Prost já estava em seu segundo ano na Ferrari e a expectativa era alta, uma vez que o já dono de três títulos chegou para acabar com o jejum da escuderia, que já durava desde 1979, quando o sul-africano Jody Scheckter levou. E mais: em 1990, ele fora segundo no campeonato, somando cinco vitórias contra seis de Senna e só ficando sete pontos atrás do brasileiro (78 a 71), que acabou campeão.
A expecativa era que a evolução do carro do ano anterior o levasse à briga pela taça de novo, mas carro e francês foram um desastre! Prost não ganhou um GP sequer, não finalizou seis das 15 provas que disputou, esteve no pódio só em cinco oportunidades (três segundos lugares e dois terceiros), marcou 34 pontos e foi o quinto colocado.
E a gota d'água foi no Japão. No penúltimo GP da temporada, ele foi apenas o quarto, com quase uma volta de desvantagem para o vencedor, o austríaco Gerhard Berger, da McLaren, e saiu atirando. Chamou o carro de "caminhão", e a Ferrari não suportou aquilo, era demais para o orgulho italiano. Demitiu o francês antes mesmo do fim do campeonato, e o italiano Gianni Morbidelli foi quem guiou um dos carros vermelhos na última prova, na Austrália.
7 - Senna é tri e entra em galeria seleta
Oito pole-positions, sete vitórias e 12 pódios em 16 corridas; 96 pontos contra 72 de Mansell, o vice. Foi uma temporada espetacular de Senna!
Ali, ele alcançou o tricampeonato e, com isto, igualou Prost, seu maior rival, e entrou para a galeria restrita de pilotos com três títulos ou mais.
Naquele momento, a mesma era composta pelo australiano Jack Brabham (1959, 1960 e 1966), pelo inglês Jackie Stewart (1969, 1971 e 1973), pelo austríaco Niki Lauda (1975, 1977 e 1984), pelo compatriota Nelson Piquet (1980, 1983 e 1987) e por Prost (1985, 1986 e 1989) - o argentino Juan Manuel Fangio era o rei e alcançá-lo ou até superá-lo era a meta de Ayrton, com cinco títulos (1951, 1954, 1955, 1956 e 1957).
Senna seguiu na McLaren em 1992 e 1993 e mudou-se para a Williams em 1994. Já na terceira corrida, no GP de San Marino, um acidente lhe tirou a vida - Michael Schumacher, que estreara três anos antes, foi o campeão naquela temporada.
