Fittipaldi conta como foi de mecânico a campeão na Fórmula 1 e recusa a Ferrari após quase morte de Lauda

Como Galvão Bueno costuma dizer, Emerson Fittipaldi é "o pai de todos nós". O "nós", claro, se refere aos fãs de automobilismo. Foi com seus títulos em 1972 e 1974 que o Brasil começou a sua vitoriosa trajetória no mundo da Fórmula 1. E depois nas décadas de 80 e 90 nos Estados Unidos na Indy.

Em entrevista ao ESPN.com.br, o ex-piloto relembrou o início da carreira no kart em Santo André, São Paulo, e até as dificuldades que passou para ir atrás do sonho de ser piloto. Dentre elas, quando ele fabricava e vendia karts para se "autopatrocinar" nas corridas no Brasil.

Depois, a venda de bens para comprar um Fórmula Ford na Europa, carro esse que era o único para ele competir lá. Como bem lembrou Emerson, "se quebrasse, voltava para o Brasil".

Fittipaldi também relembrou da época mais perigosa da Fórmula 1 como esporte, com diversas mortes na pista. No fatídico acidente de Niki Lauda, em Nurburgring, o brasileiro chegou a ser convidado por Enzo Ferrari para guiar na escuderia italiana. Porém, em respeito ao amigo, rejeitou.

Veja a terceira parte da entrevista com Emerson Fittipaldi:

ESPN - Como foi sua primeira vitória no kart?
Fittipaldi - Foi uma corrida de kart em Santo André que teve no Trevo Novo, perto da Anchieta, minha primeira vitória de kart. Tinha uns 17 anos porque era o mínimo na época para correr de kart. Corri de moto dos 14 aos 16. Depois comecei logo em seguida no kart.

ESPN - Você teve um período como jornalista na Europa. Como foi?
Fittipaldi -
O Luiz Carlos Secco, jornalista do Estado de S.Paulo sempre me ligava e falava comigo, me perguntava as notícias da minha corrida lá e obviamente a Jovem Pan, que meu pai trabalhava, dava as notícias. Eu comecei de Fórmula Ford em 1969 e no fim do ano fui pra Fórmula 3. No começo do outro ano Fórmula 2 e Fórmula 1 praticamente em um ano. Tudo aconteceu muito rápido. Foi um momento muito especial. Antes de mim teve o Chico Landi, Fritz D'Oreye, que chegou a correr de Fórmula 1, e o Cristiam Hain. Tiveram alguns pilotos de nível Fórmula 1. O Fangio e o Chico, que era amigo do meu pai, eram os meus ídolos.

ESPN - Como era o cenário no Brasil?
Fittipaldi -
Aqui no Brasil tinha uma turma muito boa correndo. Meu irmão (Wilson), José Carlos Pace, uma turma que corria que foi uma transição dos carros importados pra indústria nacional. DKV, de Simca, a maioria fabricados em São Bernardo, São Caetano. O Renault Alpine...Então quando a indústria nacional entrou em cena no Brasil, abriu porta pra um monte de gente poder correr porque custava muito menos que o carro importado.

ESPN - Como foi sua trajetória até chegar à Fórmula 1?
Fittipaldi -
Comecei a correr e eu fabricava meu kart no Brasil para me patrocinar. Fabricava kart e vendia. Também fabricava com o meu irmão Fórmula Vee e vendia para outros pilotos para poder me patrocinar. Tinha uma fábrica de equipamentos Volkswagen. Rodas especiais, câmbio, equipamento de carburador especial, que eu já vendia no mercado e isso me ajudou. E quando eu fui para lá eu vendi o Fórmula Vee que eu tinha, uma picape, um fusquinha e tive dinheiro para comprar o Fórmula Ford lá. E lá eu era mecânico em uma oficina em Wimbledon, preparava o motor de rua, e o dono do lugar, chamado Dennis Rowland, preparava o motor de corrida do meu Fórmula Ford. Fazia outras coisas. Era tudo muito difícil, tinha que saber arrumar patrocínio.

ESPN - E se o carro quebrasse?
Fittipaldi - Voltava paro Brasil (risos). Se batesse, voltava, não tinha dinheiro. Tinha que andar rápido e não podia bater. Nem sei quanto custava para reparar o carro. Morei numa pensão em Wimbledon. Foi muito legal. Mr. e a Ms. Bates cuidavam muito de mim. Morei lá quase 4 meses. Depois quando o Jim Russell me convidou para guiar Fórmula 3 com a Lotus, era uma equipe semioficial da fábrica aí foi para Norwich, que era o norte da Inglaterra. Aí já comecei a virar um piloto semiprofissional.

ESPN - Você ainda trabalhava como mecânico?
Fittipaldi -
Aí já não trabalhava mais. Ele ofereceu a equipe dele, entrei em julho no campeonato e deu para ganhar o Campeonato Inglês de Fórmula 3 mesmo fazendo só metade do campeonato. E aí no fim do ano eu recebi convite do Frank Williams e do Colin Chapman para guiar na Fórmula 1 em 1970. Lá eu conhecia os mecânicos, ainda mais quando eu comecei a ganhar corridas com carros que não venciam. Nisso, conheci o Chapman.

ESPN - Como foi sua primeira vitória na Formula 1 em 1970? Ela teve um componente diferente porque deu o título mundial ao seu companheiro, Jochen Rindt, que havia morrido pouco antes em uma prova...

Fittipaldi - Era um momento muito difícil na Fórmula 1 porque tinha muito acidente fatal, o risco era muito grande, então eu senti na pele o fim de semana que foi uma tragédia. Bernie Ecclestone era o manager da equipe do Jochen (Rindt). Nós tomamos café no hotel em Monza e ele (Rindt) falou 'Emerson, estou cansado de guiar Fórmula 2 e Fórmula 1. Ano que vem quero que você guie na minha equipe e do Bernie'. Eu falei 'lógico, é uma honra'. Apertamos as mãos, estava fechado. E três horas depois ele morreu. Isso mexeu muito comigo. Ia ser meu quarto Grand Prix. Corri Inglaterra, Alemanha e Áustria. Não corri em Monza por causa da tragédia, corremos no Canadá e fui direto para Watkins Glen. Chegamos lá com um clima pesado, primeira corrida depois que o Jochen morreu. Muita pressão para tentar levantar o campeonato para ele. E no fim deu tudo certo, ganhei a corrida e ele foi campeão.

ESPN - Como estava a família do Rindt?
Fittipaldi -
Todas as famílias de piloto na época sabiam que o risco era muito grande. Cada amigo, colega, que você perdia era um choque. Existia um clima de muita camaradagem entre os pilotos fora do cockpit. Nós sabíamos que corria o risco de não estar lá amanhã. E esse alto risco criava um laço muito forte.

ESPN - Você foi um dos primeiros a socorrer o Niki Lauda naquele grave acidente em 1976, na Alemanha. Como foi?
Fittipaldi -
Eu achei que ele (Niki Lauda) estava com o rosto muito queimado, o pé dele também estava muito estranho. E à noite ele quase morreu por intoxicação de gases. A inalação praticamente queimou uma parte do pulmão. Quando era mais ou menos meia-noite no hospital perto de Nurburgring, a quantidade de oxigênio que ele tinha no sangue era muito baixa. Ele estava quase perdendo a função dos órgãos e ia morrer. Tem algumas coisas que são ingratas na Fórmula 1. O chefe de equipe da Ferrari veio até mim e falou: 'O comendador (Enzo) Ferrari quer falar com você pelo telefone'. Eu achei que ele ia falar alguma coisa para mim do Niki. Ele falou: 'Emerson, quero que você guie para mim no lugar do Niki'. E o Niki morrendo no quarto do lado. Eu respondi: 'Comendatore, grazie. Parliamo dopo, ciao (Comendador, obrigado. Falamos depois, tchau)'. É o mundo ingrato do esporte que era na época...

Nota: o argentino Carlos Reutemann ficou com a vaga recusada por Fittipaldi. Lauda voltou às corridas menos de um mês depois do acidente, mas perdeu o título mundial para James Hunt, da McLaren.

ESPN - Por causa das mortes, como era o relacionamento entre os donos de equipe e os pilotos?
Fittipaldi -
Cada um é diferente. Depois de dois anos que eu estava na Lotus, em 73, no Grande Prêmio do Brasil, o Colin (Chapman, dono da equipe), falou para mim: 'Eu não quero mais ficar tão amigo de você. Porque eu estou sentindo uma amizade muito grande e tenho medo de te perder'. Choca, né? Então naquela época o risco era muito grande. Como ele já tinha perdido três, quatro pilotos, ele sofria. Todo mundo acha que inglês é frio, mas ele tinha um relacionamento humano muito forte.

ESPN - De todos esses acidentes qual foi o mais chocante?
Fittipaldi -
O pior acidente que eu vi foi do Jo Siffert, em Brands Hatch, com a BRM. O carro dele virou de cabeça para baixo. Eu parei para ajudar ele, estava inteiro, não tinha acontecido nada fisicamente, ele estava mexendo o capacete. Aí eu vi uma chama pequena atrás do capacete. E eu gritando para os fiscais: 'Vamos virar o carro, vamos virar o carro!'. A hora que eu cheguei perto explodiu o carro. Isso para mim foi a pior cena que eu vi até hoje. Você vê seu amigo morrer e não poder fazer nada.

ESPN - E como você vê a evolução da segurança na categoria?
Fittipaldi -
Graças a Deus o automobilismo melhorou tanto em segurança hoje. Sempre tem o risco, é um esporte de alto risco. Mas melhorou muito. Meus netos correndo, meu filho, eu estou muito mais sossegado.

ESPN - Relembre sobre seu primeiro título, em 1972. Você foi o campeão mais jovem da história da Fórmula 1...
Fittipaldi -
Foi um momento muito especial na minha vida. Saindo do Brasil eu não tinha ideia que seria campeão mundial. Meu sonho era sentar num Fórmula 1 e largar, já estaria feliz. Nunca imaginei que poderia ganhar um Mundial. Por isso que eu falo nas palestras que eu faço 'nunca se limite ao seu sonho'. A gente pode ir muito mais longe do que você imaginou. Eu sou uma pessoa de muita fé também.

ESPN - Você veio de uma temporada bem difícil antes do titulo...
Fittipaldi -
Em 71 o carro estava muito difícil. Foi o primeiro ano do carro com pneu slick, a Lotus tinha uma suspensão muito forte, aumentou muito a aderência. 71 foi o ano mais difícil que tive na Fórmula 1 fora os anos de Copersucar. Aí no fim do ano a gente acertou o carro. Nessa corrida que o Siffert morreu eu estava muito rápido, em Brands Hatch. Já deu uma previsão boa para 72. E aí já começamos andando muito rápido. O carro estava muito bom. E aí tem o gênio do Colin Chapman. A intuição que ele tinha em acertar o carro, na época era muito pessoal. Não tinha ainda computador, só veio em 74 com a McLaren. Até então era o que o piloto falava e o que o engenheiro falava com você.

ESPN - Quem foi seu grande rival naquele ano?
Fittipaldi -
Eu tive vários rivais. Era uma época de pilotos excelentes. Eu corri com três gerações diferentes e encarei muita gente difícil naquele ano que ganhei. O mais difícil era o Jackie Stewart. Ele foi campeão em 71 e 73 e eu ganhei 72 e 74. Nos anos de 72 e 73 era só eu ele o tempo todo, foi meu maior rival. Jack era muito bom, um piloto fantástico na história. Ele era de uma geração antes de minha, tinha quase 10 anos a mais do que eu, já era estabelecido e campeão mundial.

ESPN - Você montou sua equipe em 1976. Sente que teria ganhado mais títulos se tivesse ficado na McLaren?
Fittipaldi -
'Se, se, se...' não ganha corrida. Pode ser que tivesse mais chances de ganhar, mas era um desafio nosso fazer um carro brasileiro junto com a Embraer. Foi muito mal entendido pela imprensa brasileira não especializada. Reginaldo Leme, Castilho de Andrade, pessoal que entendia de automobilismo sabia que uma equipe de Fórmula 1 demora três, quatro, cinco anos para chegar num nível competitivo. Mas a imprensa não especializada começou a detonar a gente, aí desmoralizou. A gente estava junto com a Embraer. Eles fizeram toda a parte aerodinâmica, fabricavam todas as asas. Foi uma parceria muito legal.

ESPN - Vocês chegaram a comprar a equipe Wolf e ter vários nomes de renome...
Fittipaldi -
No último ano nós tínhamos o Adrian Newey como engenheiro, que é um gênio da Fórmula 1, e o Keke Rosberg. E era o patrocínio da Skol. E o diretor de marketing da Skol me ligou e falou: 'A imprensa está detonando tanto a gente que não justifica a gente investir dinheiro'. E aí acabou a equipe. O Brasil é muito ingrato em todos os sentidos.

ESPN - Desde a sua estreia, em 1970, a Fórmula 1 nunca tinha ficado sem brasileiros até este ano. O que aconteceu?
Fittipaldi -
Acho que isso é a falta de incentivo do automobilismo, das pessoas que poderiam incentivar. Por exemplo a Petrobras, que durante 10 anos patrocinou a Williams e nunca teve um brasileiro pilotando. É um absurdo. Agora está na McLaren. Eu acho ótimo que a Petrobras patrocine, mas que dê oportunidade para um brasileiro. Falta isso. Os empresários, as empresas grandes, não ajudam a base aqui. Deve ter muito piloto com talento, mas não tem um meio de chegar à F-1. Meu neto por exemplo teve muita sorte de entrar na escuderia Telmex (mexicana) e está perto da Fórmula 1. Esse tipo de apoio o México teve como exemplo, colocou dois pilotos na Fórmula 1. Investir no esporte representando o Brasil.

ESPN - O que acha do uso do halo nesta temporada?
Fittipaldi -
Como proteção é muito boa. Mas eu acho que eles deviam ir mais para o caminho americano de usar uma nacele de avião, que é muito forte, à prova de bala. Seria totalmente transparente, você veria muito mais a cabeça do piloto, e o piloto teria mais chances de proteção até. E não quiseram usar, fizeram um sistema diferente, que para proteção eu acho muito bom. Esteticamente você se acostuma.