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Ele quase desistiu de ser jogador profissional e hoje vive um sonho: A história de Chelo

Chelo quase desistiu de ser jogador profissional após uma perda traumática HLTV

Trazer o elenco da Boom, que vinha tendo muito sucesso no Brasil, foi a jogada executada pela MIBR durante a troca de anos para substituir o quinteto que fez sucesso nos últimos meses de 2020. Entre os jogadores promissores que passaram a vestir o manto da lendária tag de CS:GO, Chelo é um dos que mais vem se destacando durante a árdua jornada da equipe neste primeiro semestre.

A ideia era fazer uma entrevista simples falando sobre a trajetória do mesmo como jogador profissional, mas a história de Chelo é tão interessante, cheia de detalhes e de momentos que nunca foram contados anteriormente (segundo o próprio jogador) que ficaríamos muito tristes em cortar qualquer parte que não faça jûs a essa grandiosa caminhada de um menino que saiu da Zona Leste de São Paulo com o objetivo de conquistar o mundo. Então dividimos o conteúdo em três capítulos.

LEIA A HISTÓRIA DE CHELO

CAPÍTULO 1: ‘É ISSO O QUE EU QUERO PARA A MINHA VIDA’

Quem nunca foi criança e sonhou em ganhar dinheiro jogando videogame que atire a primeira pedra. Mas é aquela coisa, sonhar em alcançar algo é fácil, difícil mesmo é fazer acontecer para tornar esse sonho em realidade.

“Eu lembro até hoje: em 2006, estava conversando com meu irmão e ele abriu o Counter-Strike 1.6. Conectou em um servidor para ver uma partida, pois não havia stream e comecei a perguntar sobre. Eu tinha 7 ou 8 anos. Por coincidência, vi a MIBR sendo campeã da SWC e foi quando vi eles ganhando que pensei: ‘É isso o que eu quero para a minha vida’”, relembra Marcelo “Chelo” Cespedes em entrevista ao ESPN Esports Brasil quando perguntado sobre como se aproximou do título que viria a mudar toda sua vida.

“Minha infância foi bem pobre. Poucas pessoas sabem disso, mas tive casos de passar fome, infelizmente. Minha mãe por muito tempo comprou as coisas parceladas em 12 vezes, 20 vezes... Foi bem difícil, mas comecei a jogar”. Se já é difícil correr atrás desse sonho que muitas crianças nutrem durante sua infância tendo condições, mais difícil ainda é chegar onde Chelo chegou sem ter contar com essa condição.

Hoje, o jogador que começou sua difícil caminhada em meio aos bairros da Zona Leste de São Paulo pode dizer que realizou um sonho; tem seu rosto estampado em imagens e representa aquela organização que fez com que o sonho de se tornar jogador profissional se aflorasse e também uma das maiores de Counter-Strike que já existiu no cenário brasileiro: a MIBR.

Não bastasse não poder aproveitar das mesmas condições que poucos brasileiros têm o prazer de desfrutar, a história de como chegou até a organização que se tornou um sonho é longa e cheia de obstáculos. Existe todo aquele pensamento de que para chegar em seu objetivo, principalmente se esse for o topo, sacrifícios têm de ser feitos.

Para Chelo, foi exatamente assim que as coisas seguiram.

Horas de estudos, treino e muita dedicação são fatores essenciais para o crescimento de um jogador profissional (ou para aqueles que aspiram em chegar a esse patamar um dia) e já são práticas intrínsecas dos mesmos. A paixão desenfreada e determinação de Marcelo para tornar em realidade a frase “é isso que quero para minha vida", fez com que algumas amizades e oportunidades se perdessem no meio do caminho.

“Você sempre tem um sacrifício para chegar ao topo. Eu não me arrependo”, comenta sem remorso.

A verdade é que isso já está no passado e ficar pensando no que poderia ter acontecido de diferente não mudará nada. Independente das oportunidades que escorreram entre seus dedos ou das amizades que não puderam acompanhar a caminhada do jogador, manteve a cabeça erguida e enfrentou todos os obstáculos que a vida impôs em sua jornada, toda a negatividade e falta de apoio de sua família - com exceção de seu irmão e sua mãe, que sempre estiveram a seu lado.

Seguiu forte e novas portas se abriram!

“Em 2015, fui chamado para o Army5 Gaming, de CS:GO, e comecei a jogar de forma semi profissional”. Na primeira equipe que o acolheu e que deu ao jogador a oportunidade de participar de seu primeiro campeonato presencial, Chelo não conseguiu alcançar grandes resultados (e nem com a equipe seguinte).

Último lugar tanto na r1seCup representando a Army5 quanto na MAX5 Invitational ao lado da GATHERS Esports, e logo em seguida cinco meses com a Team Innova durante 2016 também sem muitos brilhos. Os resultados não foram animadores, mas foi ali que realmente começou a entender melhor o jogo e a dar seus primeiros passos.

Como se já não fosse suficiente crescer com poucas amizades, não ter a melhor das condições e ainda não contar com o apoio de sua própria família, Chelo passou por uma situação que mudou sua vida e fez com que seu objetivo fosse colocado de lado: em 2016 perdeu uma das pessoas mais importantes de sua vida, sua avó.

“Era uma pessoa muito importante para mim. Parei de jogar e entrei em estado de depressão profunda. Foi bem tenso”, conta. A perda abalou o mundo de Marcelo; virou tudo de cabeça para baixo. Juntou todo um período de insucessos com um acontecimento traumático que colocaram Chelo fora de seus trilhos.

Havia conseguido uma bolsa em uma das universidades mais prestigiadas da capital paulista, o Mackenzie, em que teria que pagar “muito pouco” para cursar Análise e Desenvolvimento de Sistemas, e repentinamente decidiu largar o Counter-Strike para começar a estudar. Era hora de dar um tempo.

A pausa durou pouco: marcou presença em apenas três dias e nunca mais voltou. A verdade é que Chelo tinha largado o Counter-Strike, mas o CS não tinha deixado suas veias. Amigo de delboNi, deixou o desgosto pelo resto dos jogadores da Big Gods de lado e se aproximou dos mesmos em uma festa de ano novo em 2016, quando o time insistiu para que ele voltasse ao competitivo.

“Eu falei ‘ah, não vou largar a faculdade por enquanto, pois quero estudar’. Só que me mantive ativo no jogo. Passou nem uma semana, os caras me chamaram para o time que foi o TEAMMATE na época. Era eu, NEKIZ, dzt, land1n e tatazin”, conta em meio de breves pausas buscando as informações do passado.

E que decisão boa foi a de voltar a competir em? Tudo se alinhou para que a equipe dominasse o cenário brasileiro durante os três meses seguintes tanto como TEAMMATE quanto como Cyclone (nome adotado pelo quinteto posteriormente). O domínio dos jogadores rendeu uma passagem de ida para uma das mais tradicionais organizações brasileiras, a paiN Gaming, onde continuaram alcançando títulos com grande facilidade.

Manteram a sequência de sucesso nos campeonatos seguintes em solo brasileiro e agarram a vitória no qualificatório sul-americano Americas Minor Championship 2017 Cracóvia contra a Merciless Gaming. Foi o encaixe perfeito das peças. A verdade é que as terras tupiniquins tinham se tornado pequenas demais para a equipe, era hora de buscar um desafio maior.

“Fomos para a paiN, ganhamos o Minor e fomos para a gringa”, foi exatamente assim que contou como a equipe saiu do Brasil. Com a maior naturalidade, como se fosse algo simples de se conquistar.

Passagem de ida comprada. Embarque feito. Destino: Inglaterra.