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Suuhgetsu: A tradutora de libras que leva os esports para os deficientes auditivos

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Nyvi Estephan comenta representatividade feminina e brasileira nos esports (6:13)

Apresentadora de esports foi reconhecida internacionalmente nos Esports Awards em 2019 (6:13)

O primeiro contato de Jéssyka “Suuhgetsu” Maia com pessoas com deficiência auditiva foi em 2014, quando o tio apresentou a nova namorada - que tinha surdez - para a família, que, na época, não entendia nada sobre o assunto. Hoje, interprete de libras no cenário de esports, trabalhando com nomes como Nyvi Estephan, Daniels e organizações como a Rensga Esports, ela conta que seu objetivo é trazer a acessibilidade aos esportes eletrônicos.

“A gente não entendia nada, e minha vó queria falar com ela, mas ficava brigando com meu tio, pois a garota não respondia… Foi aí que a gente entendeu que ela era surda”, comenta Jéssyka. “Aí, eu sentei com ela e pedi para me ensinar algumas coisas, mostrar alguns sinais”.

No começo de 2015, Jéssyka prestou vestibular para bacharel em Letras (Libras na UFSC) e foi aprovada - enquanto terminava a faculdade de Direito. Sem saber muito bem o que fazer para o trabalho de conclusão de curso de Direito, ela resolveu unir as duas coisas e apresentou um TCC sobre o direito à educação da pessoa surda.

“Quando entrei na faculdade de Letras - Libras foi quando minha vida mudou. Eu comecei a gostar da parte profissional disso, de ser intérprete, tradutora”, explica.

JOGOS & LIBRAS

Unir uma paixão que nutre desde pequena à nova que surgiu na faculdade aconteceu em 2017, quando, ao jogar League of Legends com seu professor da faculdade (que é surdo), começaram a surgir algumas dúvidas.

“Eu pensei: tem alguns efeitos sonoros dentro do LoL que são muito importantes, essenciais e podem realmente mudar uma teamfight, por exemplo. Aí, perguntei para ele como conseguia saber que o Sion tinha ‘ultado’, como ele sabia que o Corki tinha pegado a caixa na base… E ele disse que não sabia quando isso acontecia. O professor não sabia que tinham efeitos sonoros nessas ações”, ela comenta.

“Fiquei com isso na cabeça e comecei a pesquisar sobre o assunto… Também precisava fazer um TCC no curso de Letras - Libras, e achei que seria uma ideia legal puxar para a área de games. Comecei a pesquisar sobre quais efeitos sonoros importantes do jogo também tinham efeitos visuais, por que o flash, por exemplo, você ouve o barulho, mas também tem um quesito visual”, completa Jéssyka.

Apesar estar mais conectada ao League of Legends, Jéssyka também se interessou em pesquisar sobre outros jogos, afinal, “jogar LoL é muito diferente de jogar um FPS, e a maioria das pessoas acredita não ser possível jogar um jogo de tiro sem o som, sem conseguir ouvir os passos”, conta.

Ainda na época, a intérprete havia terminado 7 Days to Die, um jogo de zumbi que, como mecânica, aumenta o barulho dos passos do zumbi ao chegar perto do jogador. Ela se questionou como seria para surdos, porque não havia nada equivalente em questão visual.

“Foi aí que eu resolvi ingressar na área de games com toda essa questão da acessibilidade. Eu entrei em um grupo do Facebook com alguns surdos gamers e, na minha ignorância, achei que ia encontrar umas 200 ou 300 pessoas lá”, comenta, divertida. “Mas tinha mais de 5 mil integrantes e eu fiquei chocada. É muito conteúdo, e o pessoal lá conversa sobre tudo: falam sobre placas de vídeo, sobre os sinais...”.

STREAMER, NARRADORA E INTÉRPRETE

Ainda em 2017, Jessyka teve a chance de conhecer um grupo chamado “LoL Surdos Brasil”, onde teve maior contato com a comunidade de surdos de League of Legends. Sentindo falta de conteúdo acessível, foi atrás fez suas pesquisas para colocar tudo na prática.

“Estava rolando um campeonato só para surdos de LoL e fui conversar com eles. Disse que era intérprete e que queria ver o campeonato para saber como era, porque estava estudando sobre, sabe? ”, relembra. “Aí, eles me convidaram para fazer uma parceria, já que não tinham ninguém para transmitir o campeonato e nem narrar. Foi quando comecei a ser streamer, porque tinha um computador bom para fazer a live e transmitir os torneios, enquanto fazia a narração”.

Jéssyka relembra que o começo como streamer foi difícil, por não entender muito bem sobre as plataformas e tudo o que envolve o mundo das lives. Ela conta que usava o celular como webcam, por que a intenção era apenas transmitir e narrar os campeonatos.

“Coloquei como meta o valor de uma webcam e os próprios espectadores me doaram o valor. Comprei o acessório para melhorar a qualidade da imagem e fiz minha primeira narração em libras”, declara.

“Nossa, foi super cansativo”, assume. “E foi na narração que eu percebi que não existem alguns sinais para o LoL em libras. Você faz com as mãos “BOT” para bot, letra por letra. Eles não tinham nenhum sinal específico para isso, então imagina fazer 4 horas de campeonato sinalizando letra por letra?”

Pronta para mudar a realidade da falta de sinais para o game, Jéssyka procurou o pessoal da organização e organizou lives periódicas com os deficientes auditivos para criar um sinalário (conjunto de expressões que compõe o léxico de uma determinada língua de sinais) para o LoL. Ela abria as lives, colocava as fotos dos personagens, itens, entre outros e fazia os sinais. Rodo mundo opinava, se gostavam ou não, se funcionava, e foram criando juntos os sinais.

“Meu canal no YouTube surgiu daí, por que a gente precisava de um lugar para deixar esse sinalário, algum lugar que fosse mais acessível e rápido de encontrar”, revela. “Mas infelizmente a organização se encerrou por problemas pessoais e tivemos que deixar o sinalário em stand-by, mas continuei com o meu canal para criar conteúdo.

CONTEÚDO ACESSÍVEL EM LIBRAS

Seu primeiro vídeo viralizado foi a tradução em libras do vídeo oficial da Riot Games do evento “Acampamento Yordle”. “A Academia de Piltover entrou em contato comigo para continuar a fazer conteúdos acessíveis. Com o apoio deles, a própria Riot entendeu que era é um conteúdo que faltava, sabe? Porque para entrar na Academia de Piltover não é para qualquer um que entra, então fiquei muito feliz de estar ali”, confessa Jessyka.

Hoje, a interprete produz conteúdo em libras e utiliza legendas e áudio. “Gosto de deixar isso bem claro e explicar que o meu conteúdo é acessível também para ouvintes. Ele não é acessível para surdos, porque ele é para surdos. Assim consigo abrir o leque do público que atinjo e provocar outras pessoas para a importância disso”, explica. “A luta por legenda na Twitch é uma coisa que estou sempre tentando, sabe? Já cheguei em streamers muito grandes que falam ‘aí, mas a legenda automática não é 100%, então eu prefiro não colocar uma coisa malfeita’. Só que 80% de algo para alguém que não tem nenhum auxílio é muita coisa. É necessário”.

Com transmissões constantes, ela conta que quando termina sua live, gosta de “dar gank” (hospedar canais parceiros em seu perfil) em canais que não tem legenda para que possa apresentar essa funcionalidade e levar esse fato para o máximo possível de pessoas. “Eu chego na stream das pessoas e falo que eu sou a Suuhgetsu e faço conteúdo acessível em libras, que meus viewers são surdos e se a pessoa (que está streamando) gostaria de colocar legenda na stream”, diz. “Alguns streamers param o que tão fazendo na hora para colocar e eu acho isso muito bacana. Só que também tem aqueles que dizem ‘ah, depois eu coloco’ e não rola depois…”.

CONQUISTANDO ESPAÇO NO CENÁRIO

Em 2019, ela foi convidada para ser intérprete na Liga dos Surdos. Hoje, Jéssyka faz parte da diretoria da organização, com uma bagagem de diversos jogos como LoL, Fortnite, Teamfight Tactics e Counter-Strike interpretados em libras pela Liga. Ela também menciona a necessidade de especialização para os intérpretes de libras e sua importância.

“Eu sempre fui gamer, desde pequena, então tenho conhecimento nessa área. Isso tudo me faz capaz de ser intérprete e tradutora aqui, assim como, se quisesse, fazer a mesma coisa na área jurídica, porque eu sou formada em Direito”, ressalta. “Hoje, posso dizer que sou intérprete especializada em esports porque tenho esse conhecimento e fui me desenvolvendo com os trabalhos que fiz. É muito diferente você narrar uma partida de LoL e uma de CS, as coisas acontecem em tempos diferentes, existem coisas em ambos os jogos que uma pessoa leiga não vai ser capaz de sinalizar. Eu posso te falar o que é um gank, por exemplo, algo que uma pessoa que não sabe da área não vai conseguir explicar”.

O ano de 2019 teve muitas realizações - pessoais e profissionais - para a intérprete, além da participação na Liga dos Surdos, a organização de esports Rensga Esports também contratou a jovem para fazer um vídeo especial para o Dia do Surdo (26 de setembro). Atualmente, ela continua trabalhando com eles: “quem me conhece desde sempre sabe que isso é um sonho para mim, sério, ter um time que me contratasse. Uma organização que se preocupa com a acessibilidade é muito bacana, e também é uma conquista para mim, como gamer”, completa.

Em 2020, mais uma surpresa para Jéssyka: Nyvi Estephan, influenciadora, streamer e apresentadora, respondeu um de seus tweets - que a intérprete achou que não daria em nada - e a contratou para fazer alguns vídeos acessíveis.

“Cara, estava no Twitter às 3h da manhã, quando vi uma mensagem da Nyvi falando que ela iria apresentar o Prêmio Esports Brasil. Tweetei para ela me levar e interpretar sua participação no prêmio ao público surdo”, recorda Jéssyka. “Achei que seria só mais um tweet que ela não veria, mas, do nada, vi a notificação de que ela havia curtido minha mensagem e me seguido por tabela. Fiquei em choque só queria gritar, mas não podia, por que meu marido estava dormindo do lado. Ela falou comigo e a gente se acertou. Dali em diante me tornei intérprete de libras dos vídeos da Nyvi”.

A influenciadora, que desde sempre luta com a toxicidade na comunidade gamer, acredita que a inclusão é uma forma de combate. Tanto Jéssyka quanto Nyvi acreditam que, quanto mais streamers/influenciadores ajudarem na inclusão, maior será a repercussão na comunidade.

“A Nyvi tem toda uma imagem, né? Ela é o que eu quero ser no esports: um mulherão, linda, competente, batalhadora e bem-sucedida. Reconhecer a luta pela inclusão foi muito bom. Eu sei que tenho muito que aprender com ela”, comenta Jéssyka.

PROJETOS PESSOAIS

Como criadora de conteúdo acessível em libras, Jéssyka tem alguns projetos pessoais e uma ambição: quer trazer o CBLoL em Libras para o público surdo. “Esse é um projeto distante, mas quero muito que isso aconteça. Vou continuar trazendo conteúdo e mostrando para todo mundo que é necessário sim essa inclusão. ”, afirma.

A intérprete também começou um projeto que chama de “Dicionário de Esports em Libras”, onde pega todos os termos utilizados no cenário, jogos, transmissões e explica seus significados.

“As pessoas me questionaram ‘como você vai fazer o dicionário se não tem sinais para isso? ’”. Como resposta, explicou que Libras é um negócio tão mágico que não preciso ter um sinal para explicar uma palavra e nem toda palavra tem um sinal. A Liga dos Surdos está com um projeto de sinalário e a gente vai se ajudando e se apoiando nisso”, ressalta.

Sobre as aulas, Jéssyka comenta que a ideia inicial era que apenas ela desse as aulas, mas percebeu que seria melhor chamar quem realmente entende do assunto. Sendo assim, chamou algumas pessoas do cenário, como Ken Harusame, jUc e Sougagago para falar sobre termos dos esports, como estratégia, farm, etc. “Isso enriquece muito o conteúdo e trago pessoas que, dentro do cenário, não tem contato com acessibilidade, e mostro para elas que é necessário e que existe um público-alvo”, alerta Jéssyka.

Julia Macalossi é apaixonada por games e esports e colunista no ESPN Esports Brasil. Siga-a no Twitter e Instagram.