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Nyvi de verdade: Os 29 anos da maior apresentadora de esports do Brasil

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Nyvi Estephan comenta representatividade feminina e brasileira nos esports (6:13)

Apresentadora de esports foi reconhecida internacionalmente nos Esports Awards em 2019 (6:13)

No último dia 3 de agosto, Nyvi Estephan completou 29 anos. Mais de seis destes foram dedicados aos esportes eletrônicos — de eventos locais a mundiais, de sua conta no YouTube aos principais canais de televisão e streaming do Brasil e do mundo.

Pioneira como mulher nos esports, Nyvi aliou seu crescimento ao do cenário de games, tomando como missão pessoal tornar o meio reconhecido e respeitado nas mídias tradicionais. E deu certo: a profissional chega a 2020 com espaço privilegiado em grandes programas esportivos nacionais, além do título de terceira maior apresentadora do mundo nos Esports Awards.

Mas a jornada continua, e os vôos são cada vez mais altos.

No dia seguinte às comemorações de aniversário em meio à pandemia, Nyvi aceitou minha videochamada, arrumando rapidamente o chroma-key de sua webcam. “Ninguém deveria aniversariar na pandemia”, brincou a apresentadora, depois de me cumprimentar.

O roteiro não foi seguido à risca. Expliquei que, durante a conversa, abordaríamos alguns assuntos de sua vida pessoal — a relação com o corpo, a reação invasiva do público sobre seu novo namoro e as divisões entre vida pessoal e profissional. Nyvi não se retraiu.

Introspectiva pelo isolamento social da pandemia, ela confidenciou pensamentos e despiu-se da persona de figura pública para comentar o que tem acontecido em sua vida — de onde veio, o que se tornou, o que quer ser. Com os pés na cadeira e os joelhos visíveis à câmera, Nyvi Estephan mostrou o que há por trás da figura que têm sua história ligada diretamente à dos esports. Era a Nyvi de verdade.

FIGURA PÚBLICA

Não que Nyvi use uma persona diferente de si mesma para comunicar-se com seu público — ela nega no ato. “A gente tem filtro”, diz. “A gente pode fazer uma brincadeira entre a gente, em que a gente zoa um ao outro. Mas quando a gente transforma aquilo em algo público, a gente tá influenciando pessoas”, crava a apresentadora.

Ela discorre sobre a responsabilidade que cerca o seu trabalho e o de outras pessoas que têm grande alcance em suas falas. Limite nas brincadeiras, cuidado em não ofender e atingir negativamente parte de quem a acompanha: “quando a sua piada tira a liberdade da pessoa de ser o que ela quer, acaba o limite”, opina.

Em 2020, Nyvi sabe que não é mais uma figura exclusiva do mundo dos games. Do Big Brother Brasil, passando pelo Rock in Rio e chegando aos Esports Awards, seu trabalho transcendeu o nicho. Questiono se ela se entende como “famosa”, a este ponto.

“Engraçado… eu não gosto muito dessa palavra, famosa. Fã. Eu prefiro falar seguidores, figura pública, pessoas que me acompanham. Eu tenho um pouco de medo, essa palavra me assusta”, confessa.

Nyvi afirma que compreende as reações do público sobre sua vida pela relação próxima que há entre a vida pessoal de um influenciador e a profissional. Mas a apresentadora mantém o foco no trabalho: “Eu tenho o ego muito baixo em relação a isso, porque eu sempre tive na minha cabeça que o show é o jogo, é o campeonato, são as estrelas, os jogadores, e não eu. Eu sou uma mera condutora”, afirma.

“Mas, nas minhas redes sociais, eu mostro minha vida, mostro parte de mim. As redes sociais exploram a intimidade das pessoas, então você mostra sua vida. Quando eu faço live, eu mostro minha casa, eu tô dentro da minha casa. (...) Então eu sinto que devo uma satisfação”, diz.

Sobre vida pessoal e profissional, Nyvi confessa que não sente nenhuma divisão entre as duas esferas, por não ter horário e pela mistura entre os dois mundos. “Tudo que eu faço de forma pessoal, eu acabo dividindo publicamente”, afirma, citando passeios, amizades, trabalhos e novidades.

“Sempre que alguém pergunta da minha vida, eu falo do profissional”, conta, aos risos. “Pra ajudar, meu nome artístico é meu nome de verdade. Pra quem não sabe, meu nome é Nyvi Estephan. Então eu sou a mesma pessoa profissionalmente e pessoalmente o tempo todo, não vejo diferença”, diz.

ÍCONE FEMININO

A conversa chegou ao assunto “machismo” naturalmente. Enquanto Nyvi discorria sobre o cuidado que comunicadores precisam ter para não ultrapassar limites para com seu público, ela citou polêmicas relacionadas a seu novo relacionamento. Mas os ataques que a apresentadora sofreu após assumir na internet um novo namoro foram apenas um capítulo diante das incontáveis situações passadas por ela desde o início da carreira.

“Eu passei por isso muito na pele esses tempos (...). E eu passo no mercado de games desde que comecei”, confessa. “Mas, hoje em dia, eu tenho uma relação diferente com isso. Eu conquistei meu espaço e sou respeitada por isso. Mas eu demorei muito tempo para conquistar esse respeito, muitos anos, e muitos homens não demorariam tanto”, argumenta.

Nyvi afirma compreender sua importância no meio dos games e esports como ícone feminino. “Quero deixar de ser diferente no cenário. Deixar de ser uma mulher em um ambiente masculino, para que cada vez haja mais mulheres, para que a gente seja menos estranha nesse universo. Para que as mulheres não precisem batalhar durante anos para conquistar seu respeito. Para que quando uma mulher decidir jogar um jogo, ela tenha respeito por ser um ser humano, independente do gênero”, crava.

RELAÇÃO COM O CORPO

Apesar de ter se tornado conhecida pelo trabalho como apresentadora, Nyvi nunca se privou de mostrar seu corpo em suas redes sociais — tendo, inclusive, sido capa da revista masculina Playboy em 2016. Ao comentar o assunto, ela brinca com o preconceito de que é impossível ser bonita e competente ao mesmo tempo, e diz que os estigmas sobre se mostrar apareceram em sua vida apenas com a chegada aos esports.

“A minha mãe é artista”, conta, mapeando sua história a fim de explicar sua liberdade com a própria imagem. “Ela foi atriz, fez novela, já fez filme. O pessoal de teatro e de arte tem uma relação diferente, é um meio muito menos conservador. Eu tenho uma foto linda da minha mãe fazendo teatro em que ela estava nua, vestida de anjo, dentro do túnel da [avenida] Nove de Julho”, relata, com um sorriso.

“Eu nunca tive essa relação moralista e conservadora em relação ao meu corpo, em relação a esse excesso de pudor”, diz. Designer de moda por formação, Nyvi também nunca teve amarras com relação a vestimentas no mercado de trabalho.

“Pra mim, foi muito maluco entrar no mercado de games e ver esse retrocesso, ver que tem tantas pessoas que realmente julgam esse tipo de coisa”, confessa. “Quando eu fui tirar minhas primeiras fotos, nunca vi problema. Sempre achei bonito, e pra mim é bonito e pronto. (...) Eu sempre tive uma relação muito livre em relação ao meu corpo”, confessa.

"Eu nunca tive essa relação moralista e conservadora em relação ao meu corpo. (...) Sempre achei bonito, e pra mim é bonito e pronto." Nyvi Estephan sobre relação com o corpo

Nyvi conta que, ocasionalmente, surgem preocupações sobre como algo pode afetar sua vida profissional ao tratar com pessoas mais conservadoras. “Mas eu também nunca vi problema, por tratar de uma forma artística e bonita, e não sexualizada”, conta.

“Às vezes, vejo comentários como ‘ah, só ficou famosa porque é gostosa’. E eu fico pensando: ‘nossa, tem tanta gente nesse planeta que é muito mais gostosa do que eu’. E eu trabalho nesse mercado faz 7 anos. Não tem como isso sustentar uma pessoa”, exclama, rindo. “Não existe a possibilidade da aparência de uma pessoa sustentá-la durante tantos anos”, diz.

“As pessoas batem o olho e é normal que elas tirem os preconceitos dela a partir daquilo. Mas esses preconceitos não me definem. Nunca me definiram. E não existiria forma de eu chegar onde eu cheguei, conquistar tudo o que eu conquistei, ser uma apresentadora reconhecida mundialmente, se tudo que eu tivesse a oferecer fosse minha aparência. Eu não deixo isso me definir”, crava.

VOOS MAIS ALTOS

Aos 29 anos, Nyvi Estephan reconhece seu progresso e importância no meio dos esports: para as mulheres, para os brasileiros, para si. E, apesar de traçar metas e querer ir mais longe, conta que não faz parte de sua essência dar “passos maiores que as pernas”.

“Eu nunca fui uma pessoa de estabelecer metas a longo prazo”, confessa. “Eu fui dando meus passos no ritmo que eu achava que deveria dar. Quando eu comecei a trabalhar com esporte eletrônico, comecei apresentando alguns jogos. Aí pensamos ‘hm, e se a gente fizesse mais jogos? E se a gente fosse atrás dessa publisher? E se a gente se juntasse com essa empresa”, relata, mapeando seu caminho.

Nyvi conta que nunca mirou trabalhar com todos os jogos possíveis, mas que, hoje, já apresentou campeonatos de quase 30 jogos competitivos diferentes. “Isso foi acontecendo aos poucos na minha vida”, conta.

Nos últimos anos, a apresentadora reconheceu que, talvez, o esporte eletrônico não cresça com tanta força no Brasil por conta de um possível receio ou preconceito de empresas não-endêmicas de entrarem em um mercado nichado. Com isso, trouxe como missão pessoal trazer os esports ao grande público através da televisão, a fim de legitimar os esportes eletrônicos.

Nyvi correu atrás para que nomes de fora da indústria entrassem nos games, e que fizessem isso através de nomes que já estivessem na comunidade. “Porque só fazendo parte da comunidade você entende ela”, opina. Assim, ela conquistou um quadro em um grande programa esportivo da TV aberta, cumprindo sua meta de expandir os esports além do nicho.

“Eu, como uma mulher que fui subestimada naturalmente no meio de esporte eletrônico, isso só me deu gás e gana. Só me deu força pra cada vez mais alçar voos maiores. Mas todos eles foram no meu tempo. Parece que não, porque foi muito rápido, mas foi tudo no meu tempo, no meu processo”, relata.

“Eu fui aos poucos vendo o que era possível. Eu fui atrás, eu bati na porta da publisher quando queria apresentar um campeonato daquele jogo. Eu comecei muito de baixo, muito aos poucos e sou assim até hoje. Quando quero fazer algo, dou a cara, vou atrás. Isso sempre aconteceu na minha carreira.”

"Tudo que eu consigo ver de mais forte em mim é o meu esforço e a minha vontade de conquistar e de ser melhor a cada dia." Nyvi Estephan

No sétimo ano de carreira, Nyvi sequer cogita parar. Sempre em frente, pensando em aventuras futuras, a apresentadora confidencia, solene, que pretende escrever um livro. “Não é uma biografia, nada a ver com isso, mas é um projeto, está nos meus planos. É algo que eu ainda não experienciei. Vai ser uma calmaria positiva, parar e escrever”, divaga.

No dia seguinte ao seu aniversário, ela comenta os 29 anos completos. “Não fico assustada com idade, porque eu acho que já conquistei mais coisa e já tenho mais história pra contar do que eu tenho de anos de vida”, brinca.

O retrospecto de sua carreira é positivo, e a responsabilidade com quem a acompanha e o orgulho de si são nítidos e recompensadores. “Quando eu olho para trás, tudo que eu consigo ver de mais forte em mim é o meu esforço e a minha vontade de conquistar e de ser melhor a cada dia. Quando eu vejo outras pessoas falando que eu fui uma inspiração de força, é porque realmente eu consegui passar isso para elas, que é a minha essência”, finaliza Nyvi Estephan.