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Coroado no Point Blank, destinado ao Valorant: Conheça Nyang

Campeão mundial de Point Blank, Nyang aposta todas as suas fichas no sucesso do Valorant Divulgação/MAX Arena/OnGame

Nyang demorou para responder minha mensagem. Solícito para entrevistas, mas enrolado com sua agenda, me retornou em alguns dias, pedindo desculpas. Me encaixaria entre o estágio em uma grande empresa, a aula na universidade federal e o treino diário na Gamelanders. “Fica tranquila, dá tempo”, assegurou.

A correria é cotidiana, mas os obstáculos não param Guilherme em seus objetivos. Não o pararam quando ele teve de conciliar provas da faculdade com a conquista de um Campeonato Mundial no Point Blank — não vão pará-lo agora, em que o caminho rumo ao topo é menos tortuoso.

Com mais de 10 anos de carreira no FPS, o jogador tem, pela primeira vez em sua vida, um manager para auxiliar em suas atividades no jogo. Um analista em sua comissão técnica, um assessor para aproximá-lo da imprensa. Culpa do Valorant, novo título da Riot Games que trouxe de volta o sonho de viver dos esports.

“Ou é agora ou não é nunca mais”, relata, após minutos de conversa, sobre a decisão de investir todas as suas fichas no game da Riot. Com os pés no chão e a cabeça no céu, Nyang, da Gamelanders, confidenciou sua trajetória e seus pensamentos em entrevista ao ESPN Esports Brasil.

Conheça Guilherme Coelho, do Point Blank ao Valorant.

RAIZ

Natural de São Caetano do Sul e hoje com 23 anos, Guilherme “Nyang” Coelho é um apaixonado por FPS. Apresentado cedo aos jogos online por seu tio, o garoto viveu a era áurea dos jogos de tiro gratuitos entre 2009 e 2013, começando no Combat Arms, em que conheceu o grupo que o levaria ao Point Blank.

“‘Lançou um jogo novo, o que vocês acham da gente jogar?’”, narra Nyang, repetindo a fala de seu amigo de infância sugerindo que o grupo experimentasse o game que o tornaria campeão mundial. “Começamos jogando juntos no PB, isso era lá pra 2010. Em 2011, eles já tinham parado de jogar, mas eu continuei. Como a gente foi em time, a gente jogava time contra time, coisa que eu não conhecia nos FPS que eu jogava sozinho”, conta.

Guilherme buscou novos companheiros de time e, eventualmente, surgiu a oportunidade de jogar campeonatos. O destaque e os ranks altos vieram cedo: aos 13 anos, ele jogava sua primeira seletiva para o Mundial. Os presenciais também apareceram apressadamente, e ele cita o apoio dos pais como crucial.

“Imagina: seu filho com 11, 12 anos e você tendo que deixar ele ir para São Paulo sozinho para jogar um campeonato com pessoas que você não faz ideia de quem sejam?” Nyang relembra enquanto conta que é de São Caetano do Sul, cidade vizinha à capital paulista.

“Nesse primeiro campeonato, meu pai foi comigo”, conta. A lan house onde o torneio aconteceria era “pequenininha”, segundo ele, e a dupla chegou cerca de 8 e meia da manhã, meia hora antes do início previsto. “Por atrasos da organização, meu primeiro jogo foi só às 7 da noite. Meu pai passou todo esse tempo comigo lá, das 8 às 7 da noite, e no primeiro jogo eu perdi. Perdi e fui pra casa, já”, Nyang relata, bem-humorado.

No entanto, o jogador define o momento como divisor de águas para a visão de seus pais sobre o Point Blank. “Ele viu as pessoas envolvidas no meio [do FPS] e viu que eu realmente gostava daquilo. Viu que as pessoas falavam de mim. Eles não sabiam que ele era meu pai, mas ele ouvia meu nick. ‘Você viu quem tá ali? É o Nyang! Que joga com a gente, que é gente boa, joga bem’”, descreve.

POINT BLANK

Ao longo do tempo, colegas passaram a deixar o Point Blank por outros jogos, como o Counter-Strike: Global Offensive, lançado na mesma época. A oportunidade de migrar para o FPS da Valve surgiu, mas não foi suficiente para tirá-lo do game gratuito.

“Alguma coisa me chamou pra continuar jogando PB”, confessa. “Eu não sei explicar de onde veio essa vontade. O pessoal fala que tem que ser muito apaixonado pelo jogo pra continuar passando o que a gente passou”, ele ri. “Já tinha passado pela minha cabeça várias vezes de jogar outros jogos, na época o CrossFire passou a ter premiação melhor, outros jogos foram lançados (...). Mas eu pensava: ‘eu quero viajar pro Mundial de Point Blank, quero ganhar o Mundial de Point Blank, é esse jogo que eu gosto de jogar. E eu fui, cara. Fica até difícil de falar o que foi, mas eu fiquei”, assume.

Em 2013, Nyang bateu na trave na seletiva para o Mundial. “Eu joguei muito bem, mas perdi na final. Ali deve ter sido o ponto em que me deu aquela cutucada. Algo me disse ‘mano, continua. Você não vai sair agora que você quase ganhou. Você vai ganhar uma hora, então continua’. Só que demorou”, ele comenta, com um riso alto.

O jogador foi vice por cerca de 4 anos a partir deste momento. “Foi muito chão”, assume Nyang sobre a trajetória até o título mundial. “Em 2015, aconteceu um dos piores campeonatos da minha vida, talvez o pior. Eu tive a oportunidade total de viajar pro Mundial e eu me culpei muito por a gente ter perdido aquela seletiva. Chorei muito, passei uma semana pensando no que eu tinha errado.”

“Foram muitos anos de dedicação, jogando das 22h às 2h da manhã de segunda a quinta-feira, domingo às vezes tinha campeonato, então a gente jogava todos os dias, fora o tempo que treinávamos individualmente. Foi muita derrota, muita vitória em campeonato pequeno e na hora da seletiva, que era o importante, a gente perdia. Em 2018, fui chamado para um time e conseguimos a vitória na seletiva e no Mundial, que também não foi fácil”, confessa.

Ao lado de 400kg, Doodlez, Rhz e Mlg, Nyang venceu a seletiva na primeira vez que podia perder — o Mundial seria no Brasil, então duas vagas foram destinadas a times nacionais. O torneio foi na Max Arena, em São Paulo, e os brasileiros conseguiram levantar o troféu com a torcida ao seu favor.

“Assim que a gente foi campeão mundial, na hora que caiu a ficha, comecei a pensar em tudo que a gente tinha passado. A gente ainda estava dentro da cabine e eu comecei a chorar igual uma criança pensando em todas as coisas”, confidencia, sem pesar.

“Por a gente estar no Brasil, a torcida estava muito insana. Todo mundo gritando… Teve uma hora que gritaram ‘eu acredito’ quando a gente estava quase perdendo. Foi uma sensação absurda”, conta.

“O pessoal que começou a jogar comigo em 2010 estava nesse dia me assistindo. Não só eles, mas amigos que eu fui criando ao longo dos anos puderam estar presencialmente me assistindo. Na hora que acabou a partida e eu olhei pra frente, só consegui pensar em todo o apoio que eles tinham me dado”, diz.

HORA DE PARAR

Questiono se após o título mundial, Nyang conseguiu, finalmente, viver do jogo. “A gente nunca conseguiu viver do Point Blank”, confessa. “A gente sempre cobrou muito investimento por parte da distribuidora aqui no Brasil, e imaginou que quando o primeiro time fosse campeão mundial tudo ia mudar, que iam perceber essas coisas… e, na verdade, o primeiro time foi campeão mundial em 2016 e não mudou nada. fomos campeões em 2018, não mudou nada. Vivemos de falsas esperanças, mas viver do point blank nunca foi uma possibilidade.

Na época que ganhou o Mundial, Guilherme já tinha 20 anos, e compreendia que não seria fácil seguir carreira no esport que amava. “Eu já fazia faculdade, e foi bem difícil conciliar. Na semana que meu time foi pro Mundial eu tinha prova na faculdade.” Graduando em Ciência da Computação na Universidade Federal do ABC, Nyang tinha dificuldade em ver uma carreira nos esports.

A desistência do jogo de sua vida — até então — aconteceu em 2019. “Falei ‘chega, não dá mais para me dedicar a uma coisa que vai ser em vão’”, desabafa. “E eu decidi parar de jogar, mas não fui atrás de jogar outros jogos. Fiquei fazendo faculdade, jogando por brincadeira”, conta.

Ao longo do tempo no Point Blank, um colega que também insistira no jogo até o limite fantasiava a ideia de trocar de título. “O Fzn, que hoje joga comigo. A gente sempre ficou pensando como seria se a gente fosse pra outro jogo ou algo do tipo. No começo de 2020, soubemos que o Valorant viria. (...) Eu virei pra ele e falei ‘cara, ou é agora ou não é nunca mais’”, relata.

VALORANT

A dupla viu no anúncio do Valorant o que não viu em nenhum jogo lançado anteriormente: a chance de se dedicar e viver do que sempre sonharam. O motivo era a desenvolvedora, Riot Games: “uma empresa que cresceu muito com o LoL, que a gente vê o esforço que eles têm com o competitivo de LoL”, divaga.

A decisão foi tomada — e tinha jeito de corrida contra o tempo. “Quando anunciaram que ia ter o lançamento do Valorant, a gente foi procurar como fazia pra jogar antes, porque queríamos ser alguns dos primeiros a começar a jogar, pra ver tudo que tava acontecendo no jogo e aprender desde o começo.”

Nyang e Fzn conseguiram, primeiro, chaves para o servidor europeu, onde jogaram desde o lançamento com cerca de 250 de latência. Depois, foram para o servidor norte-americano, também lidando com lag. Assim que o servidor brasileiro foi lançado, a dupla já conhecia o jogo e dominou o beta fechado.

A escolha por mergulhar no FPS desde o princípio não era apenas por interesse na mecânica do game. “Como a gente não pegou o começo do CS, se a gente fosse jogar em 2016, 2017, íamos ter que nos dedicar o dobro ou o triplo do que quem já estava se dedicava. Teríamos que pegar o jogo do início de aprender tudo, estaríamos sempre em uma corrida para tentar chegar no nível de quem sempre esteve lá. No Valorant, todo mundo ia começar do zero”, crava.

GAMELANDERS

Juntos desde antes do beta, Nyang e Fzn juntaram-se a Jow, John e mwzera como união entre útil e agradável. “A gente caía contra eles em toda partida, independente do horário, independente do dia, de tudo. A gente procurava [fila] e caía contra eles. Era difícil cair com outras pessoas”, ri. Eventualmente, a dupla abordou o trio e sugeriu que os cinco se tornassem um time.

Assim que as ranqueadas chegaram ao beta, os cinco jogadores conseguiram o rank mais alto do servidor, Radiante, na época Valorant. “A gente jogava em 5, conversando, se divertindo, e acabamos chegando a esse rank. Fizemos um post no Twitter contando, e isso talvez tenha sido o início pra que o pessoal conhecesse mais a gente”, mapeia Guilherme.

Pouco depois, os campeonatos surgiram — e, com eles, as grandes premiações. Em junho, o título da Copa Rakin concedeu 10 mil reais ao time, que já era conhecido como Gamelanders. Em julho, mais 10 mil do Gamers Club Ultimate, da Série Ignição. Em setembro, o time disputa o EVOlution, e pode embolsar 20 mil reais caso vença o torneio.

“Bizarro, né”, Nyang reage, em desabafo quase incrédulo, quando o fato de que as premiações vieram tão cedo em seu novo jogo, em comparação ao anterior. “Mas são tempos diferentes, também”, analisa, argumentando que o Point Blank teve auge no começo dos esports, enquanto Valorant chega em um cenário consolidado.

“Acredito que quando souberam da chegada do Valorant, as empresas começaram a rondar porque sabiam que poderia ser muito interessante pro esport esse jogo novo. Então acredito que faz parte, já ter essa premiação logo de começo, mas com certeza é bem mais animador, não só para a gente que já via o Valorant como oportunidade, mas também para qualquer pessoa que quer começar a ser jogador de esports”, diz.

TERRA DE OPORTUNIDADES

Não é segredo que o Valorant é visto como “luz no fim do túnel” para muitos atletas de outros games. O jogador diz que sabia que o cenário do FPS da Riot seria competitivo justamente por abrigar os melhores jogadores de “jogos que não tiveram tanta oportunidade”, como CrossFire, Combat Arms, Point Blank e outros.

“Por um lado é triste ser a luz no fim do túnel, porque quase todo cenário de FPS foi campeão mundial, então eles mereciam ter sido mais valorizados”, confessa. “Mas ainda assim é interessante, porque dá pra ver que o nível do valorant no brasil vai ser muito alto. Estamos no começo, falta muita coisa ainda, mas (...) muita gente boa está jogando e se esforçando para que o cenário se desenvolva também.”

Divagando, Nyang comenta que, apesar de não ser a favor de um cenário fechado para Valorant, um “CBLoL” do jogo faria com que a profissionalização chegasse rápido. Para ele, seria bom para o torcedor, que teria como acompanhar o torneio todo final de semana — mas sua voz muda de tom quando ele cita a preparação que os jogadores do CBLoL têm.

“Já pensou jogar em cima de um prédio, igual foi esse mês?”, sonha, referindo-se à última final do MOBA da Riot. O sorriso é audível quando o assunto se torna jogar com torcida, arena lotada, preparação, profissionalismo. Viver do jogo.

“Eu espero que o Valorant possa trazer isso pra a gente”, assume. “Eu gosto de jogar com torcida, falo brincando nas streams que gosto de subir no palco, estar no palco e ver o pessoal. Deve ser um sentimento único, estar com tanta gente num espaço tão bem preparado para isso”, idealiza.

O que Nyang sonha para si não é mais que a rotina de atletas de outras modalidades. Comissão técnica, preparação, dedicação da desenvolvedora. “A gente veio de um cenário que não tinha nada disso”, crava, sem pesar na voz. “Espero que a gente siga os caminhos do LoL e a gente confia na Riot pra isso”, diz.

“Agora, no Valorant, estamos tendo pela primeira vez contato com um manager, um analista. Com pessoas que não sejam só os cinco do time correndo pra que o rendimento e o sucesso do time seja cada vez maior e mais fácil. A gente tava brincando com o nosso analista, dizendo ‘cara, a gente nunca teve isso na nossa vida. A gente vai se conhecendo, entendendo junto a melhor forma da gente fazer’”, confessa o jogador.

Ele prossegue. “Faz 3, 4 meses que o jogo lançou, e a gente tá tendo isso agora. Coisa que a gente não teve em 10 anos. São coisas que fazem a gente se animar mais pra olhar pro futuro e pensar em coisas que ainda podemos alcançar”, projeta.

AMBIÇÃO INTERNACIONAL

“Todo FPS tem um time brasileiro que foi campeão mundial, ou que chegou na final e jogou muito bem. Todo FPS o Brasil se destaca e eu acho que no VALORANT vai acontecer a mesma coisa. Acredito sim que o Brasil é o país do FPS, acho que a gente mostrou na história e ainda tem muito pra mostrar.”

Questiono se Nyang almeja ser o representante brasileiro em um possível mundial do novo FPS. “Com certeza”, ele crava, de imediato. “Esse é o nosso principal objetivo. Os cinco do time têm a mentalidade de que o nosso foco é ser campeão mundial de Valorant. Assim que tiver a primeira oportunidade, pode ter certeza que esse vai ser nosso foco absoluto; já é agora, mas vai ser intensificado”, garante.

Ele cita que quatro dos jogadores da Gamelanders vieram do Point Blank, e os quatro foram campeões mundiais. “Depois que a gente tem essa experiência uma vez, a gente não se contenta com mais nada que não seja isso. É claro que todo campeonato é muito importante, mas a gente quer fazer com que o Brasil seja reconhecido lá fora e respeitado no Valorant”, afirma Nyang.

“Muita gente tá duvidando. Perguntam se a gente acha que o Brasil conseguiria jogar com o pessoal lá de fora, e, apesar de eu achar que o investimento de lá tá sendo muito maior do que tá aqui, o Brasil sempre foi o país do FPS. Eu acho que é só questão de tempo até chegar no campeonato mundial e mostrar o que é o Brasil, da onde a gente vem, como a gente joga, mostrar tudo que a gente faz.”

O jogador admite que os jogadores ex-Luminosity, tricampeões mundiais de CS:GO entre 2016 e 2017, são uma grande inspiração. “Ver o que eles alcançaram motiva muito a gente de alcançar também”, diz.

ESSÊNCIA

Aos 23 anos, Nyang explica seu carinho pelo Point Blank com a relação que o “Guilherme do passado” tem com o jogo. “Do Guilherme criança, que começou jogando com os amigos, para o Nyang, que é competitivo, profissional, eu diria que o Nyang se sente muito mais feliz com o estilo de jogo e com todas as coisas que envolvem o Valorant do que ele já pensou um dia em ser com o Point Blank”, diz.

“Mas também não tem como não ter aquele saudosismo com o PB, porque eu cresci com ele. Curti muito jogando com os amigos no Skype. Então sempre vai ter uma memória boa do Point Blank na cabeça, mas o Valorant é o preferido, sem dúvidas”, confirma, referindo-se ao antigo jogo como se fosse um velho amigo.

“Como esse Guilherme reagiria se você o contasse sobre sua vida hoje?” questiono. “Eu acho que ele não acreditaria, não”, confessa, aos risos.

“Porque tudo começou como uma diversão, que em pouco tempo ele começou a ver como as coisas funcionavam e começou a competir, mas sem ter esperança nenhuma. Imaginar que agora tá tendo essa oportunidade de se profissionalizar, em um jogo que só tende a crescer, que tá só no começo... Se tornar um profissional de uma coisa que ele realmente gosta de fazer”, divaga.

“Acho que no começo ele não ia acreditar, mas tenho certeza que ele ficaria muito feliz, e ia saber que todo esse caminho que ele ia trilhar levaria para um futuro que ele possa fazer virar brilhante.”

“O Point Blank te fez, mas o destino era o Valorant”, sugiro.

“Exatamente”, finaliza.