Antes do início do Brasileirão de Rainbow Six (BR6), no começo de junho, Psycho havia cravado a Ninjas in Pyjamas como o time a ser batido. Após o primeiro turno do campeonato, a equipe se classificou para o Six Major BR e conquistou o título.
Em nova conversa com o ESPN Esports Brasil, o capitão da NiP manteve o pensamento com relação ao seu time. “A gente provou isso”, respondeu sem pensar duas vezes quando questionado sobre o status.
“O Brasil tem times muito bons. Liquid, FaZe e Team oNe sempre batem de frente com a gente, mas vejo que eles batem de frente muito por causa dos formatos”, pontuou, relembrando o formato MD2 visto no BR6 e a MD1 dos tempos da extinta Pro League.
“Mas em MD3 a gente cresce muito, por isso a gente vai bem. A gente continua sendo o time a ser batido”, reafirmou. “Mas não é um nível discrepante, principalmente olhando pra Team oNe.”
Os Golden Boys, inclusive, são vistos como o principal adversário da NiP na opinião de Psycho. “É o time que mais incomoda quando jogamos contra. A gente costuma falar que um time é bom quando não tem ninguém que você tiraria. E a Team oNe se encaixa nisso. Os cinco ali são muito bons.”
O capitão, inclusive, acredita que a oNe será a equipe totalmente brasileira que irá “com certeza” tirar a hegemonia de organizações internacionais vista nos últimos anos. Desde 2018, Team Liquid, FaZe Clan e Immortals (que depois passou a ser MIBR), além da própria NiP, dominaram o cenário nacional de R6.
“Eles [Team oNe] perderam o Major porque ‘entregaram’ pra FaZe”, palpitou Psycho sobre a disputa do Six Major BR. “Eles tomaram seis clutches, nunca vi acontecer isso. Aí já contra a Liquid é que o adversário foi realmente superior. Mas um terceiro lugar eles conseguiriam pegar.”
De modo geral, porém, por mais que Psycho entenda que a NiP é o time a ser batido, ele reforçou que enxerga o nível do cenário bem parelho. Quer dizer, “os Top-4 claro”: Liquid, FaZe e oNe, além dos Ninjas. “Acho que estamos no mesmo degrau, mas tem alguns detalhes na nossa preparação que nos fazem ficar acima deles.”
“Mas se for um degrau, é um degrauzinho. Se a gente tivesse a chance de jogar um campeonato mundial hoje, tenho certeza de que o Brasil iria bem”, projetou.
Psycho entende que o diferencial da Nip é a autocrítica. “A gente é um time bem experiente. Temos uma facilidade muito boa de encontrar nossas falhas, coisa que os outros times não têm”, avaliou.
“Eles não têm esse olhar tão crítico pra identificar o que eles estão errando. Eu, julio e kami, principalmente, a gente se dá muito bem, e, dentro de jogo, a gente consegue identificar e corrigir. Os outros times erram coisas que a gente fica, tipo, 'Por que eles não arrumam isso?'. Eles não conseguem identificar.”
TÍTULO EM BOA HORA
Sobre o “Major brasileiro’, Psycho comentou que o título veio em boa hora. A line-up que também conta com kamikaze, JULIO, pino e Muzi estava há tempos atrás da consagração. Desde o segundo semestre do ano passado, quando o time despontou como favorita para a conquista da Pro League Japão, a NiP só bateu na trave.
A equipe enfrentou problemas com visto de alguns jogadores e precisou recorrer a dois pro players espanhóis para disputar aquele mundial. Depois, caiu nos playoffs do BR6. No início de 2020, vice-campeonato do Six Invitational. Em maio, o time perdeu o título da Pro League LATAM na última rodada para a Liquid.
“A gente estava com essa pressão por um título logo, sabe?”, respondeu à reportagem. “Meio que pra desencanar de uma vez. Isso foi muito bom pra gente. Agora passou a euforia. Estamos muito felizes principalmente porque foi o nosso primeiro título com essa line.”
Line que Psycho fez questão de ressaltar um nome em específico. Na avaliação dele, a NiP só atingiu a dominância do cenário brasileiro hoje em dia por causa da entrada de Muzi - que havia sido contratado em março do ano passado.
“Desde que o Muzi entrou no time, a gente passou a ter essa constância. Só que, quando ele entrou no time, teve aquele período de adaptação, funções e tudo, depois que a gente encaixou isso, tudo ficou muito bom.”
“A gente passou a jogar mais pra ele e para o pino. Depois que ele entrou, a gente passou a dominar. Tivemos o problema do visto naquela Pro League Japão, e também o corona [novo coronavírus (COVID-19)] em São Paulo. A gente poderia representar muito bem e poderia ter ganhado o título”, lamentou.
Inclusive, Psycho entende que a Ninjas in Pyjamas era “o melhor time do mundo” na época da PL no Japão, “mas, infelizmente, deu aquele problema dos vistos”.
MELHOR TIME DO MUNDO?
Até mesmo pela afirmação de Psycho, ele foi questionado pela reportagem se a NiP pode ser considerada, atualmente, a melhor equipe do mundo de R6.
De acordo com o ranking global do SiegeGG, a NiP ocupa a segunda colocação. Os brasileiros só estão atrás da norte-americana Spacestation, exatamente a campeã do Invitational em cima deles.
Psycho, por mais que entenda que seus capitaneados são os melhores “tecnicamente”, não se incomoda com o Top-2. “A nossa posição no ranking é bem justa. A gente ainda precisa ganhar da Spacestation para provar que estamos em primeiro lugar.”
“Querendo ou não, os caras mereceram. Tudo bem que o formato prejudicou a gente, já que tivemos que jogar MD3 e depois MD5 tudo no mesmo dia, mas, de qualquer forma, os caras ganharam o campeonato. Temos que bater eles”, ponderou.
“Seria hipócrita da minha parte dizer que a gente é melhor que eles”, disse. “E, querendo ou não, se for comparar os nossos dois times, é muito difícil porque as ligas são bem diferentes. Com certeza, jogar um Invitational, um Major... O nível do campeonato aumenta muito. Eles podem não estar tão bem [na liga norte-americana], mas eles chegam fortes. Só esperando o Invitational mesmo pra debater isso.”
Ainda assim, Psycho analisou a NiP de outra forma também. “Tecnicamente, se for comparar com outras lines, se a gente não for a melhor, chegamos bem perto sim - junto de SSG e G2.”
O capitão, inclusive, demonstrou muito respeito com a G2, que perdeu aquela soberania no cenário mundial de R6, passou por reformulações e está voltando a se reafirmar em solo europeu durante a pandemia.
“A G2, hoje em dia, é o time que a gente mais respeita no mundo. Já nos enfrentamos cinco vezes. Perdemos três. A gente, sempre que vai pra fora, tenta treinar com eles porque são os deuses do Siege. Os caras inventam muita coisa do meta, todos os times copiam eles. E é uma line muito técnica”, analisou.
“É difícil de bater eles, mesmo que você esteja estrategicamente preparado. E por mais que eles não estão em primeiro, eles estão logo atrás. E é melhor de um [o formato de disputa do Campeonato Europeu de R6]. Melhor de um no Rainbow Six não funciona. Eles estão muito bem.”
VOLTANDO PARA O BRASIL
De tanto conversar sobre o cenário internacional de R6, não teria como o papo deixar de voltar para os times brasileiros. O país é visto sempre com muito potencial para conquistar títulos mundiais, mas acumulou mais fracassos do que sucessos nos últimos tempos. Apenas a Team Liquid foi campeã do mundo, em 2018, pela Pro League.
Muito se fala na comunidade sobre o nível de treino praticado no Brasil, que poderia ser um dos motivos para essa disparidade com os times estrangeiros. Questionado se poderia ser uma questão de desleixo e seriedade, algo muito falado tempos atrás nos bastidores do cenário nacional, Psycho foi bem contundente.
“Eu concordaria se ainda não tivessem as gaming houses”, respondeu. “Mas depois que todo mundo passou a morar em GH, o cenário brasileiro amadureceu muito nesse sentido. Todo mundo consegue treinar bem.”
“O nosso principal problema, ainda mais em títulos de mundiais, é que ficamos muito presos em nossa região”, contextualizou. “A gente treina com os times que estão na Série A. O problema é: nesse formato atual [do novo competitivo no Brasil], você tem três jogos, logo, você não pode treinar com três times uma semana antes. Então você pode treinar só com seis.”
“Isso vai limitando muito o seu conhecimento de jogo. Isso é uma das coisas que fazem o nosso cenário ter aquele caso que os times grandes sempre ganhem”, concluiu.
Na visão do capitão da NiP, o novo competitivo estabelecido pela Ubisoft no Brasil só piora esse quadro. “O próximo campeonato que provavelmente iremos jogar por causa do corona é o Invitational - e que são classificados, basicamente, os quatro primeiros do Brasileirão. Só que se você for ver a tabela do Brasileirão, ela mantém a pontuação para o próximo split. A chance é muito alta desses mesmos quatro times continuarem no topo na temporada que vem.”
“Então é muito óbvio que esses quatro times vão viajar. Como será apenas uma viagem no ano, os times europeus chegarão bem mais fortes para o Invitational, com certeza. A menos que as organizações façam bootcamp”, ressaltou.
“O topo é sempre a gente, Liquid, FaZe e Team oNe. Por quê? Porque somos os únicos times que já viajaram pra fora. A gente sente muito isso. No Invitational, a gente fez um bootcamp. A melhora é absurda.”
“O melhor cenário para acontecer essa troca de informação entre os times é descentralizar os campeonatos”, refletiu Psycho.
Atualmente, o competitivo de R6 tem uma trajetória única que vai de regional para mundial - e que tem o BR6 como centralizador. “Seria melhor ter mais campeonatos com menos premiação do que um campeonato com um milhão de dólares, sabe? Porque só irão viajar quatro times, e esses quatro times não vão conseguir fazer bootcamp.”
“Se fossem vários campeonatos, teria mais gente viajando e uma troca de informação muito melhor. E acho que esse formato acaba sendo muito ruim porque os times da Série B, por exemplo, vão jogar apenas uma vez, sabe. Eles só terão uma chance de se classificar por ano. Vai ficar os mesmos times ali na elite. É como se fosse um sistema de franquias, né. Eu não gosto dessa ideia”, condenou.
E, dessa forma, o abismo do cenário brasileiro em comparação com o estrangeiro vai aumentando nas palavras de Psycho. “Os caras treinam com mais de 50 times. Time russo joga de um jeito, francês de outro. Cada país tem sua característica específica.”
“E quem mora na América do Norte dá pra jogar com os times europeus porque o ping fica ali nos 90 - o que é jogável. Então tem uma troca boa ali. E fora que NA tem mais times. Por isso que nós [LATAM] e APAC vamos sempre sair atrás”, fez o balanço.
“Mas como isso [mudança do formato nacional] não vai acontecer”, como o próprio Psycho desabafou para a reportagem, “o que resta são bootcamps”.
“As organizações precisam investir nisso, senão nada vai mudar: os times brasileiros vão lá pra fora e continuarão a levar pau”, admitiu. É muito difícil porque você chega lá como se estivesse atrasado no tempo. Os caras têm mais players, mais times bons, tem melhores informações. Quando a gente treina na Europa, a gente vê que é muita vantagem pra eles.”
Ainda assim, Psycho crava o Brasil como o país do R6 mesmo com essas críticas. “Se for pra ter um país no Rainbow Six Siege, ainda acho que é o Brasil. Por questão de números. A nossa transmissão dá a mesma audiência que a transmissão em inglês, que é o mundo inteiro assistindo. Os jogadores são muito bons também.”
“A gente joga bem. A gente é um país de sorte, não sei. Temos ótimos jogadores tecnicamente: nesk, Paluh, muzi, pino. Todo mundo joga muito bem, sabe.”
