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Brasileiras dos jogos de luta revelam vontade de ver mais mulheres jogando

Sarah (Shangraf) e Bealank (Beatrice) jogando no freeplay do Treta 2019 Daniela Rigon

Chun-Li. Mai Shiranui. Sonya Blade. Estas são apenas algumas das diversas personagens femininas que encontramos nos jogos de luta desde sua origem, na década de 80 e 90. No entanto, não é só dentro dos games que encontramos mulheres lutando. No meu texto da EVO 2019, eu elogiei a diversidade dos competidores — e encontrei a mesma diversidade, em uma escala menor, em minha ida ao Treta Championship 2019.

Na ‘Evo brasileira’, havia mulheres presentes nas competições, na organização e até mesmo na narração, e conversei com algumas delas para saber mais sobre a participação e a representatividade feminina no cenário nacional.

A primeira com quem conversei foi Beatrice, ou Bealank, com quem eu já trocava tweets há um tempo. Moradora de Curitiba, ela me contou sobre sua paixão por jogos de luta que vem desde a infância e seu sonho de ajudar mais meninas a entrarem no cenário competitivo.

“Comecei a jogar Street Fighter em 1992, no Super Nintendo”, lembra ela. “Eu basicamente pedi pros meus pais que me dessem um Super Nintendo e que tinha que vir com o Street Fighter. Na época, eu estava obcecada pelo que as revistas postavam. Comecei a jogar e foi amor à primeira vista com jogos de luta. Deste então, não consegui mais parar”. Bea recorda que dependia do irmão e dos amigos dele irem em casa para jogar, pois, como menina, não podia ir aos fliperamas. “Eu morava em uma cidade pequena, então não tinha campeonatos lá, era questão do arcade e o grupo de pessoas que ia jogar a tarde toda na minha casa.

Então nós ficávamos revezando, jogava quatro, seis, às vezes oito horas seguidas. Nas raras vezes que eu ia no fliperama, eu conseguia jogar bem e tirar várias fichas de meus oponentes”, diz orgulhosa. Ela conta, também, que foi fanática por King of Fighters e jogou até 2003, embora não soubesse de torneios na época. Entretanto, sua paixão pelo competitivo precisou ser deixada de lado por questões da vida, como faculdade e trabalho, e foi retomada recentemente, em 2017.

“Voltei a me interessar [pelo competitivo] em 2017 quando um amigo meu do Canadá disse que tava tendo um evento, o Canada Cup, e tinha um jogador de Zangief muito bom”, afirma. “Eu sempre joguei de Zangief e fiquei interessada. Peguei o Street Fighter V pra testar e comecei a jogar de Zangief”.

A volta, no entanto, não foi fácil. “Enferrujada”, Bea foi atrás de coaching (treinadores) para ajudá-la a tirar a poeira do controle e se animou quando começou a ter bons resultados em torneios online. Depois de mudar de personagem por motivos de meta — de Zangief para Falke —, ela começou a participar de torneios presenciais para testar as habilidades e melhorar. “O torneio offline é onde você consegue melhorar”, crava ela, que terminou com 1-2 no Treta.

Passando para o assunto do cenário feminino, Bea explica que ele é “incrivelmente bom”. “O chat da Twitch você não olha porque é tóxico, mas quando você chega na comunidade, ela é extremamente receptiva. Os jogadores não estão se importando muito com quem você é, eles querem saber que você está ali pra jogar. Então eles vão te receber bem, vão te tratar bem, vão respeitar se você conseguir ganhar e vão jogar no mesmo nível que você. Eles não pensam: ‘Ah, uma menina, eu vou pegar meu personagem secundário, vou jogar pior’. Não, eles vão jogar sério”, garante.

Pela ótima experiência que tem com a comunidade, Bea quer que outras meninas saibam disso e vivam o mesmo. “Eu quero dar um pouco mais de visibilidade [para a comunidade] para que mais meninas possam saber que essa opção de jogos de luta existe, porque pode existir meninas muito novas que podem ser muito boas em jogos de luta sem saber que eles existem”, afirma Bea.

Em seus planos para o futuro, Bea brinca dizendo que “já está na curva da velhice” e que seu objetivo é se aposentar em breve e criar um outro negócio para se dedicar aos jogos de luta e a ajudar a comunidade feminina a crescer. “Trazer mais mulheres, fazer coaching, fazer elas jogarem, fazer campeonatos só para mulheres. Trazer visibilidade para elas”, comenta.

Em minha busca por outras competidoras do Treta, acabei conhecendo outra Bia, mas esta com “i” e jogadora de Tekken. Beatriz Pires, a Rainbow, tem apenas 19 anos e garantiu o Top 48 com um 33º lugar (num total de 76 jogadores) na competição de Tekken 7 no Treta 2019.

Ela conta que também joga desde pequena e que seu primeiro jogo foi exatamente Tekken por influência da família. “Meus pais jogavam, minha irmã jogava, então eu meio que fui influenciada e jogo até hoje. Tanto que quando eu descobri que tinha uma cena de Tekken aqui em Curitiba, foi uma realização, sabe? Porque eu via campeonato assim, eu pensava: ‘ah, quero jogar’, aí quando eu descobri que tinha o Treta, eu comecei a me animar mais de ir e estou aqui hoje”, explica.

Apesar de ser conhecido nacionalmente por seu grande evento anual, o Treta possui edições mensais em Curitiba, e Bia afirma que tenta ir todo o mês — principalmente como forma de treino, já que “o servidor do Tekken é meio ruim, então pra jogar com gente de fora é complicado”. Para ela, a experiência do presencial também faz muita diferença. “Quando eu participei do Treta 2017, eu peguei a 13ª colocação, aí eu vejo que por mais que este ano eu tenha ficado em 33ª, eu vi que evoluí bastante. Por mais que eu ainda fique nervosa, eu não fico nervosa do mesmo jeito que eu ficava antes.

Então, acho que vir jogar presencialmente ajuda mesmo, não só pelo fato de treinar, mas tem o pessoal e a gente vai trocando dica, né? Ajuda bastante”, aponta. Sobre o cenário feminino, especificamente em Tekken, Bia diz que ainda falta aparecer mais meninas, mas que os jogadores — incluindo Giovani, o fundador do Treta — sempre incentivam a chegada de novas competidoras. Mas para quem não mora em Curitiba e ainda quer jogar Tekken, há outra opção: “A gente tem grupo também, o Tekken Girls Brasil, que tem várias meninas que jogam”, revela Bia.

Ela continua: “A maioria delas é de São Paulo, então eu não sei muito bem como funciona lá, mas por aqui [em Curitiba], eu não conheço nenhuma. Mas quando eu posso, eu tento jogar com alguma delas, porque eu acho que construir um cenário feminino também é importante, ainda mais em um cenário que é predominantemente masculino. Então, eu acho que elas seriam muito bem recebidas, porque eu fui bem recebida, acho que seria bom trazer mais meninas para a cena”.

Não foi só em jogo grande que teve competidora durante o Treta. Pat Santos, ou só Pat, ajudou na organização do evento e também participou do torneio de Skullgirls. “Não tem muito tempo que estou jogando Skullgirls na verdade, comecei a treinar pro campeonato tem um mês. Há uma semana eu estava com um controle novo, então foi um pouco difícil reaprender, porque eu jogava no controle de PS4, e foi difícil reaprender pro arcade, então eu cheguei aqui a pequenos passos, sabe?”, começa ela.

Em sua participação no Treta deste ano, Pat venceu o primeiro confronto por W.O., mas perdeu o segundo por jogar contra “um dos melhores jogadores”, o DO9. “Levei ‘perfect’ na cara, mas foi um bom aprendizado. Depois eu joguei [sem ser no campeonato], e fui bem melhor com outros jogadores, mas sei que ainda tenho que aprender mais ainda, tenho que treinar mais”, afirma.

Outra jogadora que entrou no mundo dos games desde pequena, com Super Nintendo, Pat lembra que gostava muito de Street Fighter, mas diz que entrou no mundo dos jogos de luta de verdade depois que começou a namorar William “Wilken”. “Ele me ensinou muita coisa, daí quando começou a ter os campeonatos, eu comecei a me interessar e falei: ‘pô, eu quero jogar também’”.

Em relação à comunidade de Skullgirls, Pat aponta que há muita movimentação. "A gente tem campeonato online quase todo final de semana, então pro pessoal que conhece, sempre tem jogo, mas pra quem não conhece, você tem que explicar o jogo, como ele é, então mundialmente ainda não é muito visto", explica. "Mas, dentro da comunidade, a galera é bem bacana, principalmente se tem mulher jogando porque quase não tem, então eles querem ajudar, querem jogar junto, então é bacana".

Para finalizar, conversei com uma jogadora que já é minha conhecida dos torneios semanais do Tiger Upper Quarta, em São Paulo. A Sarah, ou melhor, a Shangraf.

Assim como as outras competidoras, Sarah também está no mundo dos games desde pequena. "Meu pai tinha dois Ataris, então eu cresci jogando com ele, e depois comecei a jogar Super Nintendo. Quando foi 95, mais ou menos, eu conheci o Street Fighter e me apaixonei por jogos de luta", recorda.

Apesar do amor por Street Fighter, teve outra franquia que foi marcante para Shangraf em sua vida competitiva: Marvel vs Capcom. "Marvel eu comecei a jogar logo quando saiu o 3. Pouco depois, se não me engano em dezembro de 2011, saiu o Ultimate. Eu comprei um PS3, comprei o Ultimate e comecei a jogar, só que eu morava no Ceará e o online era horrível, não tinha ninguém para jogar lá", conta.

Depois de um tempo jogando, Sarah se empolgou ao ver comunidades e a existência de um cenário e comprou um arcade e começou a ir em eventos. "Em 2012 eu fui pro Versus, que foi no Rio de Janeiro, se não me engano. Foi o primeiro evento que eu fui, então eu comecei a ir desde 2012", comenta.

Algo engraçado na história de Sarah como competidora é que ela era praticamente "um mito" na comunidade, pois ninguém sabia ou acreditava que era uma mulher jogando — ainda mais com o nick de Shangraf. "Todo mundo me conhecia de comentar, mas eu não postava foto, não fazia nada, e todo mundo achava que eu era fake", ri.

"Aí quando eu apareci, juntou uma galera pra me ver jogar, foi bem engraçado. Eu admito que, no começo, eu senti um pouco de receio de fazer parte, porque a comunidade era extremamente masculina, mas o pessoal sempre me tratou bem".

Por estar há bastante tempo como jogadora, Sarah afirma que muita coisa melhorou para novos competidores — principalmente mulheres — e que a comunidade é bem amigável. "Acho que aqui no Treta já teve um ambiente bem mais feminino. A Bea participou também, eu joguei com ela. Mas eu acho que falta divulgar mais que tem mulheres jogando, acho que se divulgarem mais que é um ambiente que é agradável para as mulheres, elas vão acabar vindo naturalmente", adiciona. "Eu fico a disposição de alguma menina que queira entrar em contato também pra conversar".