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CBLoL: Mills e Shini abrem o jogo sobre obstáculos, treinos e preparação da INTZ

Mills durante o Campeonato Brasileiro de League of Legends. Riot Games

A INTZ está em mais uma semifinal do Campeonato Brasileiro de League of Legends. Mas, desta vez, o time chega embalado por um sentimento diferente: o rancor do público, que parece não ter superado a vitória dos Intrépidos em cima do Flamengo na etapa passada e a campanha ruim no Mid-Season Invitational.

Ódio (o famoso “hate”), pressão e demandas não são coisas novas para competidores. No entanto, nunca é fácil lidar com tudo isso, e muitas vezes essa carga negativa acaba afetando a mentalidade de jogadores e atrapalhando a sinergia de uma equipe. Essas foram algumas das dificuldades que a INTZ passou durante a segunda etapa, segundo Shini e Mills.

Em conversa com o ESPN Esports Brasil, os jogadores comentaram sobre os obstáculos que sofreram desde o MSI, a lenta evolução da equipe durante a fase regular e como o time está se preparando para enfrentar a forte KaBuM.

Mills foi o primeiro entrevistado. Um dos destaques da INTZ na campanha da Superliga 2018, o atirador foi um dos que mais sofreu com os problemas citados acima. Com a contratação do experiente Whitelotus no início do ano, a capacidade de Mills foi posta à prova durante toda a primeira etapa — principalmente quando o argentino não subiu ao palco do CBLoL em diversas ocasiões e, depois, não foi escolhido para acompanhar o time no MSI.

Depois do torneio internacional, a INTZ dispensou Whitelotus e recontratou Micao para dividir a posição com Mills. Entretanto, o jogador apareceu pouco durante a segunda etapa. E, quando apareceu, seu semblante cabisbaixo durante as coletivas de imprensa deixava claro que algo estava errado.

O “algo errado” foi explicitado por Shini em uma publicação no Twitter feita em 15 de agosto. Em seu texto, o caçador apontou como brTT, a maior figura pública no cenário de League of Legends, influenciou negativamente a visão do público sobre o Mills ao questionar repetidamente a não utilização de Whitelotus durante a primeira etapa — o que criou uma bola de neve monstruosa de “hate” contra o atirador da INTZ que explodiu após o resultado ruim no MSI.

“Depois do MSI, já ficou claro que o Mills não era mais o mesmo jogador. De um novato que jogava com confiança, dava call e foi campeão dos dois primeiros campeonatos no qual foi titular, ele tinha se tornado um jogador que jogava pra não perder e não comprometer e ser criticado”, escreveu Shini. “Em todas as redes sociais da INTZ (até hoje) dá pra encontrar comentarios falando mal do Mills e diminuindo um jogador que tem tudo pra ser uma referência de atirador no futuro”.

Embora também tenha comentado sobre a publicação de Shini em seu Twitter, Mills falou mais sobre a situação em sua entrevista comigo. Segundo ele, a pressão que ele sentiu nesta etapa “foi muito grande”, mas que ela começou de verdade depois da final do CBLoL contra o Flamengo.

“Acho que desde a final ficou bem claro pra mim que eu não estava mais muito bem. Eu perdi muito da minha confiança, perdi muito da minha auto-estima, e isso tudo ficou muito complicado. Mesmo com o acompanhamento da Nat [psicóloga] e tal, acho que ficou muito pesado pra mim”, desabafa.

Mills garante que o problema nunca foi a pressão do público ou da torcida, porque é algo que “faz parte” da vida de um jogador profissional. O que “pegou” mesmo foi “ver que outros jogadores, outras pessoas relevantes do cenário” incentivavam o “hate”.

Enquanto Mills falava, a única coisa que vinha à minha cabeça era a concepção de um fenômeno chamado Síndrome do Impostor*. Basicamente, essa “síndrome” faz com que pessoas ou profissionais de sucesso sofram de uma “inferioridade ilusória”, achem que são farsas e subestimem as próprias habilidades. Só que, no caso de Mills, essa sensação estaria sendo causada especificamente por outras pessoas.

Uma das falas do atirador que mais me balançou foi quando ele confessou que, em diversos momentos, sentiu que pareciam estar querendo tirar o título dele e que acabou aceitando isso em algum momento. “Eu aceitava que a INTZ tinha ganho, mas eu não”, revelou.

Graças aos esforços do jogador, do acompanhamento psicológico e do apoio dos companheiros de equipe e da comissão técnica, Mills conseguiu reconhecer que algo estava errado e que precisava fazer alguma coisa. “Desde o meio do split pra cá, eu estou totalmente focado em colocar minha cabeça no lugar e voltar pro caminho certo de novo”, afirmou.

Ele continua: “Foi muito complicado retomar isso, colocar na minha cabeça que ‘OK, você estava lá, você ganhou, você estava jogando’. É um trabalho que ainda está sendo feito. Não é fácil, não é simples e não é feito em curto prazo, mas acho que estou no caminho certo de novo. Então acho que só tende a melhorar e espero poder voltar a ajudar meu time até a final”.

Quando comentei sobre a importância de falar sobre casos como o dele, Mills concordou. “A parte mais importante a ser discutida é sobre como não criar um ambiente tóxico no cenário, sabe? Onde os jogadores, os casters, todo mundo veja que criar um ambiente de ódio é ruim”, apontou.

Na entrevista com Shini, também puxei o assunto e como ele é importante, e o caçador explicou que um dos motivos para fazer a publicação foi sua proximidade tanto com Mills quanto com brTT. Além disso, não achava a situação justa.

“Todos os jogadores cometem erros, o Mills está incluso nisso, mas o que estava acontecendo com ele era demais”, cravou Shini. “Por ele ser um cara novo, um novato, e eu ver que estava afetando ele e a carreira dele, afetando a cabeça dele, achei que alguma coisa tinha que ser feita. E queria que servisse como um exemplo, porque sei que acontece com outros jogadores também”.

Aproveitei para perguntar como companheiros de time podem ajudar um integrante em uma situação parecida com a de Mills, e Shini foi categórico — mas não soou satisfeito com sua resposta. “O que a gente pode fazer é afirmar pra ele que ele é uma peça importante pro nosso time, que a gente gosta que ele faça parte do time e que ele faria muita falta, igual já fez. Não é muito, mas é o que a gente pode fazer”, explicou.

APRENDIZADOS E PREPARAÇÕES

Visto que as questões psicológicas que afetam o time já estão sendo cuidadas e parecem próximas de serem resolvidas, a conversa partiu para o lado mais prático da competição: aprendizados, treinos e preparações.

O tópico do MSI não podia ficar de fora, e falando sobre o torneio, Mills relatou o que muita gente já sabe: o nível do Brasil precisa ser urgentemente elevado. “Lá fora, treinei contra alguns times muito bons, e eu percebi que em nenhum momento no Brasil eu fui treinado pra jogar contra eles. Então, acho que é um problema da região como um todo. Acho que a parte mais importante no momento é tentar elevar o nível do Brasil no geral, não um time só específico conseguir ser bom, a gente tem que tentar trazer isso pro máximo de times da liga possível, sabe?”, detalhou.

Mas como fazer isso? Segundo Shini, uma das possibilidades seria tentar novas maneiras de treinos. No entanto, quando a INTZ tentou trazer o conhecimento adquirido no MSI para o Brasil, não houve muita empolgação das outras equipes.

“A gente treinou contra vários times diferentes e de vários jeitos diferentes, e quando voltou pra cá, a gente tentou implementar, mas é um pouco difícil”, revelou o caçador. “Já está muito cimentado o jeito que é treinar aqui no Brasil, então é um pouco difícil de mudar, mesmo a gente tentando e querendo. As equipes não foram muito receptivas, então não sei direito um jeito milagroso de melhorar a região em si”.

Curiosa, perguntei quais tipos de mudanças haviam sido sugeridas, e fiquei surpresa por parecerem simples. “A gente treinou contra times que, ao invés de jogar três jogos e fazer review, eles gostavam de jogar cinco, sete jogos seguidos, sem review. Então acho que, talvez, ajudasse e fosse melhor alguns dias da semana jogar mais jogos, testar mais matchups… Acho que métodos diferentes de treino talvez ajudassem, porque aqui a gente sempre faz a mesma coisa e fica um pouco estagnado treinar sempre da mesma forma”, complementou.

Falando em treinos, o assunto sobre reclamações de times não quererem treinar contra certos adversários também surgiu. Neste caso, a INTZ tem uma vantagem: a organização possui 10 jogadores — ou seja, duas escalações — para ajudar na hora dos treinos. Para Shini, ter 10 jogadores não é uma obrigação dos times, mas certamente é uma mão na roda.

“É algo positivo [de ter], mas se um time não tem — provavelmente porque ele não quer — não tem muito sentido reclamar de falta de treino”, cravou. “Quando chegam os playoffs, todo split é difícil, porque muitos times param de treinar, os times do LLA jogam em um patch diferente, então tem essa dificuldade de encontrar treino. Normalmente, os times que são favoritos não gostam de treinar entre si porque podem se enfrentar na final… Não sei se tem um método para resolver o problema. Talvez ter um time reserva seja a melhor solução”.

Já falando especificamente sobre a preparação para enfrentar a KaBuM, Mills aponta que os Ninjas estão com ânimo renovado após as mudanças na escalação — principalmente com a chegada de Wizer. No entanto, ele diz que a história sempre pode ser diferente quando o assunto é “INTZ em uma MD5”.

“Na MD5, o jogo muda e eu confio bastante no nosso time”, garante o atirador. “O fato de ter muitos jogadores ajuda, porque o pessoal que não está jogando está sempre olhando o jogo e tentando pegar o máximo de coisas possíveis — coisas até que nossa staff não consegue enxergar —, e isso pode mudar o rumo da MD5, sim. Por isso eu acho que, numa MD5, a INTZ tenha uma fama de ser um time melhor durante a série”.

Por sua vez, Shini comentou sobre algo mais técnico: “Nosso maior desafio contra a KaBuM com certeza vai ser o early game. No comecinho, nos primeiros 15 minutos, ela é a equipe que mais acumula vantagem, então acho que se a gente conseguir segurar esse ímpeto inicial e não chegarmos aos 20 minutos com um déficit muito alto, nossa chance de ganhar aumenta bastante”.


A semifinal entre INTZ e KaBuM será disputada neste domingo (25), a partir das 13h. No dia anterior, sábado (24), Flamengo e Uppercut se enfrentam pela outra vaga na grande final, também a partir das 13h.

* A Síndrome do Impostor é um fenômeno muito estudado, mas não é reconhecido oficialmente como uma desordem psicológica. Embora ela tenha sido citado, a intenção não foi diagnosticar o jogador, mas fazer um paralelo com o que se sabe do fenônemo. Apesar de não ser reconhecida como uma desordem psicológica, a Síndrome do Impostor pode aparecer junto a casos de baixa auto-estima e depressão. Se você se identificou com a descrição apresentada, procure ajuda psicológica. Veja mais sobre a Síndrome neste texto da BBC.