Este poderia ser um review de como a EA é um “Midas ao contrário”: o que ela compra, sucumbe. Poderia, já que há mais um ano a Codemasters está sob as asas da empresa americana e a “fábrica de fazer dinheiro” chamada Ultimate Team finalmente chegou à sua franquia de Fórmula 1. Só que F1 23 não é um prato cheio para quem detesta microtransações. É um prato cheio para quem gosta de velocidade.
O casamento entre a Codemasters e a EA tem em F1 23 “um filho com metade do DNA de cada”. Por um lado, para quem gosta, o Ultimate Team importado de Fifa e Madden está presente em sua forma mais completa. É basicamente o mesmo modo de jogo visto nos games de futebol e futebol americano, mas com carros. A ideia da EA é destacar este modo, chamado de F1 World, na medida em que para correr uma simples corrida offline de 3 voltas é necessário entrar no F1 World antes - e aí, num submenu, fazer os mesmos passos que no menu anterior.
F1 World e todas as outras modalidades de jogos assim não me apetecem, então como faço nos reviews de Madden NFL e de MLB The Show, focarei no gameplay e nos outros modos de jogo offline. O que precisa ser dito, porém, é que a essência está consideravelmente menos pay to win do que nos primórdios dessa fórmula em outros jogos esportivos e, principalmente, que ela não afeta os outros modos de jogo. Esse era o grande temor da base de fãs criada desde o F1 2010: que a EA contaminasse os modos offline. Sejamos justos, a 2K já fez isso também, mas de toda forma não é o caso. Dito isso tudo, vamos ao que importa: gameplay.
Olá, tração
Lando Norris, gente como a gente, em algumas oportunidades fez lives jogando os games da série. Uma crítica “histórica" dos jogadores era de que jogar sem controle de tração ativado (nem que fosse no nível “médio”) era uma experiência ruim. Lando, que é piloto, não jogava com o controle de tração desligado. Por um motivo simples: a simulação era tosca.
A série da Codemasters/EA nunca se propôs a ser um simulador como Automobilista 2 e similares, esteve sempre mais para um “Simcade" - como Gran Turismo e Forza. A edição 22, porém, rompeu todos os limites da física. Sem controle de tração você tinha um carro com pneus de gelo. Numa corrida de 20 voltas, era virtualmente impossível que você não tivesse que usar um flashback ao menos uma vez numa saída de curva porque rodou. Isso, felizmente, mudou.
Com feedback dos próprios pilotos e equipes, a jogabilidade finalmente é mais fiel a uma coisa básica: carros de Fórmula 1 são pesados e Isaac Newton revelou ao mundo uma coisa chamada gravidade. Como efeito, há grip (aderência) mecânico ao contrário do que acontecia na edição do ano passado. Os carros se comportam de maneira mais adequada ao frear e principalmente ao retomar aceleração nas curvas. Como teste, dei 20 voltas em F1 22 no Canadá (um circuito com várias retomadas de aceleração) e as mesmas 20 voltas em F1 23.
Na edição 22, rodei 7 vezes sem controle de tração. Na edição 23, rodei apenas uma - por burrice minha, frise-se.
Breaking Point 2: Só faltou a Netflix
Aiden Jackson e (o insuportável) Devon Butler estão de voltas e desta vez você protagonizará uma história que junta: Drive to Survive + Família Stroll + Senna/Prost de baixo orçamento.
Explico. Com o sucesso da série (documentário que não é) da Netflix contando a história de uma temporada de maneira… Narrativa, a EA trouxe de volta o “modo história”. Em essência é um Drive to Survive que você joga. Não vou dar spoilers, mas até os depoimentos com parede cinza atrás estão presentes.
Butler agora é seu companheiro de equipe e SURPRESA! O papai-Butler é da onde vem o dinheiro da Konnersport Racing. Com isso, espere todo tipo de decisão em função dele e até quebras… Suspeitas em seu carro.
No modo de jogo, você também terá que tomar decisões no papel do chefe da equipe, como negar acesso a um streamer para o qual Butler prometeu um tour na fábrica e outras coisas. Clara influência do protagonismo dos chefes de equipe em Drive to Survive. Butler/Jackson é um Senna/Prost de baixo orçamento porque, nenhum dos dois compete pelo título. Mas a adição é interessante, embora o modo de jogo seja totalmente em script. Se você tem como missão chegar em oitavo e chega em primeiro… É como se tivesse chegado em oitavo para o jogo. Larguei o Braking Point 1 no meio. Neste, pela narrativa mais encorpada e algumas adições com quê de RPG, fui até o final.
O que mudou
• Os dois novos circuitos da temporada 23, Catar e Las Vegas, estão presentes. A partir do segundo ano do modo carreira, é possível colocar China, França (Paul Ricard) e Portugal (Portimão) no calendário;
• Grip mecânico, com os carros se comportando de maneira muito mais realista;
• Breaking Point está de volta (modo história); • Bandeiras vermelhas agora são possíveis no jogo;
• Corridas de 35% de duração, um equilíbrio interessante que possibilita mais paradas e realismo sem que você precise passar uma hora e meia jogando;
• F1 World é o Ultimate Team para quem gosta do gênero.
O que não mudou
• Não é possível colocar layouts personalizados nos carros de sua equipe no modo Carreira. Entendo a precaução da EA (pode ser uma atitude da própria F1), mas é um tanto quanto frustrante ver que isso é possível em Gran Turismo e em F1 23 você corre com patrocinadores fantasmas;
• O sistema de dano dos carros em colisão ainda é muito simplório. Não estou pedindo um Burnout 4 para a EA, mas um pouco mais de simulação seria bom;
• Conteúdo clássico simplesmente não existe, morreu em F1 2020. Uma pena. Sigo com essa edição instalada no meu HD externo para poder voltar aos carros antigos. NBA 2k segue sendo a referência nesse aspecto.
Sinal verde
Este, como viu, não é um review para bater na EA e seu modelo de negócio. Temos que encarar a realidade: na indústria atual: as microtransações não vão desaparecer. Ao menos, porém, elas não podem ofuscar ou macular o resto dos modos de jogo - seja tornando-os pay to win seja em negligência a eles. Depois de anos assim sendo com FIFA e, especialmente, Madden NFL, a Electronic Arts finalmente percebeu que a ganância precisa ter limite. Talvez o know-how da Codemasters nesse aspecto, sendo que a empresa britânica nunca foi por esse caminho, tenha feito a diferença.
F1 23 não é um jogo completo, mas é facilmente o melhor jogo oficial da categoria que já joguei - superando as edições da Codimaster na época de PlayStation 3. A melhora na gameplay foi essencial para isso. Uma pena que ainda não temos a volta do conteúdo clássico (carros e circuitos), isso é a única coisa que me impede de recomendar que você compre com preço cheio no lançamento.
Com uma temporada um tanto quanto… Desanimada e pouco competitiva da Fórmula 1, a série da EA vai na direção contrária. Ou na certa, para ser mais específico.
*Gameplay realizada no PlayStation 5 com volante Logitech G29 e nenhuma assistência ativada.
