Mestre Pacheco: um ex-árbitro que venceu o câncer com luta e projeto social

Sérgio Pacheco apitou jogos de basquete de estrelas mundiais. Quando descobriu um câncer de pâncreas, resolveu lutar pela vida e se entregou ao projeto social de taekwondo que mudou completamente sua biografia.


Sérgio Pacheco, 57, nasceu numa favela em Campinas, no interior de São Paulo. Sua mãe, empregada doméstica, o entregou para um casal de família rica, na casa onde trabalhava.

Com os pais adotivos, que eram médicos, ele cresceu, foi educado e venceu à base de muito esporte, educação e cultura.

O gesto da mãe evitou que Pacheco fosse “mais um filho preto de favela, mais uma vítima da violência e mais um jovem sem oportunidade”, situações tão características do Brasil.

Quando criança, além de ter que estudar muito, frequentou aula de artes, línguas e foi introduzido ao basquete e às lutas durante um longo período.

O resultado pode ser visto nas fotos, nos vídeos e nos resultados das pesquisas ao consultar o nome dele, que está na história do basquete brasileiro e também mundial.

Ele tentou ser jogador e conseguiu atuar pelo Palmeiras e Pinheiros, até ser apresentado ao mundo da arbitragem, onde enxergou a chance de ser muito mais reconhecido do que teria sido como um atleta comum.

Formado em direito, Pacheco também foi policial civil, trabalhou na corregedoria da entidade por duas décadas, mas ficou famoso mesmo (e realizado) como árbitro de basquete.

Há algumas semanas, ele recebeu a reportagem dos canais ESPN em uma academia de taekwondo no bairro do Taquaral, em Campinas (SP), onde desenvolve um trabalho social em parceria com a secretaria de esportes do município.

Lá, são atendidas 80 crianças de todas as classes sociais da cidade.

No tatame do projeto, revivemos ao lado de Pacheco a história de um mestre da arbitragem mundial se entregando de corpo e alma, como professor de taekwondo. Mas não é de hoje que Pacheco é conhecido como mestre da modalidade.

Aliás, ele é faixa preta de taekwondo e caraté e disse que só deixou as duas artes marciais adormecidas por conta da intensa vida na polícia, além de dividir o tempo livre viajando Brasil e mundo afora apitando grandes jogos de basquete.

Com o basquete fez história, a maioria delas registradas nos arquivos da ESPN. Apitou mundiais, finais épicas do basquete brasileiro, carioca e paulista durante quase duas décadas.

Chegou a ficar tão famoso que participou de vários comerciais de televisão. Era um árbitro performático, pois fazia caras e bocas para as câmeras todas as vezes que sabia que estava em evidência.

Uma baita figura, extremamente técnico, justo e idolatrado por todos do mundo do basquete nacional e internacional.

Só abandonou a arbitragem da modalidade por causa de uma grave contusão no joelho.

Mas o drama mesmo ele viveu cinco anos atrás, quando descobriu um câncer no pâncreas que praticamente o condenou a morte.

Do grupo do qual participava, todos com o mesmo câncer, 98% faleceram. Pacheco não se entregou, pelo contrário.

Ele encontrou nas quimioterapias, nas radioterapias e na complicada cirurgia. Foi sua segunda chance da vida. Mas o antídoto que mais lhe deu força foi o reencontro com o taekwondo e, principalmente, a criação de um projeto social.

É o “Taekwondo Para Todos”, que soma cinco anos, período de existência que coincide com o tempo de cura do câncer de Pacheco.

Hoje, aos 57 anos, ele quer salvar outros jovens e mostrar para os alunos o valor do esporte e da vida, com a mesma base da criação e das cobranças das quais ele enfrentou na infância.

“Estamos aqui pra fazer seres humanos melhores. Claro que às vezes saem algumas promessas do esporte. Mas o que importa mesmo é que as crianças venham aqui pra provar que são capazes de serem bons filhos, ótimos alunos, pois se tiver nota vermelha na escola não frequenta o projeto e, por fim, que as crianças e adolescentes possam ser cidadãos honestos, trabalhadores, estudiosos e que respeitem os pais e as pessoas”, disse o eterno mestre da arbitragem, agora do taekwondo.

Pacheco tem muito a agradecer. Pela vida, pela fé, pelos amigos, pelos jogadores e ex-jogadores de basquete e pelos alunos do taekwondo, mas pediu para que não deixássemos de citar uma pessoa em especial.

No caso, o amigo Dário Saadi, um cara que apostou na ideia do projeto de Pacheco quando ainda era secretário de esportes da cidade. Hoje ele é prefeito e, segundo o amigo famoso, mais que um parceiro. É um entusiasta do esporte como ferramenta de transformação.

Pacheco tem todos os créditos para continuar ensinando e levando o esporte pra muita gente. Aliás, sua história emocionante e exemplar está contada no vídeo que está lá em cima, no começo da reportagem.

Sérgio Pacheco é gente que faz e fez diferença na vida de tantas crianças e milagrosamente na vida dele.