JUSTIN GAETHJE tinha 18 anos quando passou o verão trabalhando na mina de cobre de Morenci, localizada a cerca de uma hora de carro de sua cidade natal, Safford, no estado do Arizona.
Safford é uma pequena cidade de aproximadamente 10.000 habitantes na parte sudeste do estado. Um de seus maiores empregadores é a FreePort-McMoRan, uma empresa de Phoenix e dona da Morenci, uma das maiores reservas de cobre dos EUA.
O pai de Gaethje, Ray, se aposentou da mineração em setembro, depois de trabalhar em Morenci por 36 anos. Sua mãe, Carolina, trabalhou lá por um curto período após o colegial. Ambos os avós de Gaethje eram mineiros, assim como seu irmão gêmeo, Marcus, que trabalhou nas minas por quase 10 anos. Marcus agora trabalha para uma empresa que vende equipamentos para a mina.
Durante os meses de verão, logo depois de se formar no colegial em 2007, a mina de Morenci também era a casa de Justin.
"Eu trabalhava sete dias por semana, 12 horas por dia", diz Justin. "Fiz isso por três meses seguidos e acabei não indo um dia porque disse que estava doente, mas precisava mesmo dormir. Foram 96 horas por semana, e eu ficava com o trabalho de m***. “
Treze anos atrás, Justin Gaethje não sabia para onde a vida o levaria. Ele não conseguia prever que um garoto de uma família de mineiros se tornaria um dos melhores lutadores do mundo. No entanto, aquele garoto de Safford lutará com Tony Ferguson na noite deste sábado em Jacksonville, na Flórida, no evento principal do UFC 249, com o cinturão interino dos leves em jogo.
Por mais que Justin não gostasse de trabalhar na mina - ele costumava voltar para casa coberto por um óleo pegajoso -, isso estava na história de sua família, e o dinheiro era tentador. Quando ele e o irmão tinham pouco mais de 20 anos, Marcus já havia comprado uma casa e estava bem financeiramente. Justin só poderia dizer o mesmo quando sua carreira no MMA decolasse.
Aconteceu apenas uma vez, e foi durante o trabalho de verão, quando Justin lembra de não querer continuar na mina – isso aconteceu quando sugeriram a ele que ele não tinha escolha, que teria que trabalhar na mina por ter nascido em Safford. "Dois caras que trabalharam comigo na mina disseram: 'Você vai voltar, você não vai para a faculdade. Você vai voltar", lembra Justin. "Isso ficou comigo por um longo tempo. Eu disse: ‘Não mesmo. Isso não vai acontecer. Se eu voltar, vai ser porque eu quis. Não vou precisar voltar para cá porque falhei em outra coisa.' "
OS BULLDOGS DE SAFFORD HIGH tinham uma vantagem confortável no terceiro quarto de uma partida de futebol americano em 2006. Com apenas alguns segundos restantes antes do intervalo e os Bulldogs com uma posição de campo ruim, o técnico instruiu o quarterback do quarto ano, Justin Gaethje, a ajoelhar na bola para queimar tempo no relógio.
"Então ele simplesmente pega a bola e sai correndo", relembra Marcus. "E eu não sei se ele viu uma abertura ou algo assim, mas ele quis tentar correr para o touchdown."
"Ele conseguiu escapar por fora, mas teria que correr cerca de 80 jardas para marcar", diz Ray Gaethje. "Era óbvio que isso não iria acontecer. Alguns caras começaram a atacar suas pernas e, em vez de simplesmente aceitar o tackle, ele continuou tentando. Enquanto isso, um jogador do outro time tinha uma visão limpa dele. Ele foi nocauteado. "
"[Justin] estava quase gelado", diz Marcus. "Ele não sabia o que estava acontecendo. Nada. Nós o colocamos no vestiário e, quando o terceiro quarto começou, ele correu de volta para o campo. O treinador teve que literalmente arrastá-lo para fora do campo enquanto ele tentava dizer que estava bem. "
Todo membro do círculo interno de Justin acredita que o motivo pelo qual ele está a uma vitória do título interino dos leves do UFC, e não trabalhando nas minas em Safford, é sua competitividade. Justin Gaethje precisa competir.
"Ele é um cara que procura essas oportunidades", diz Trevor Wittman, antigo treinador de MMA de Gaethje. "Ele sempre sabe tudo que está acontecendo e procura esse tipo de coisa. “
Às vezes, essas oportunidades são menos sobre competir e refletem mais a natureza destemida e peculiar de Justin. Ray se lembra de como Justin costumava pular do telhado de sua casa dando uma cambalhota. Justin levou esse hábito para o octógono. Carolina se lembra de quando o pequeno Justin, de 2 anos, perseguiu um filhote de cachorro que havia dado uma mordida nele apenas para revidar a mordida.
Mas seus amigos e familiares dizem que a necessidade de competição de Gaethje ditou sua vida. Foi o que o fez se destacar no wrestling desde muito novo e acabou resultando em dois títulos estaduais no high school. Foi o que o convenceu a aceitar uma oferta de Northern Colorado, universidade da Divisão l da NCAA. E foi o que o levou a fazer a transição para MMA quando sua carreira no wrestling terminou com uma nomeação de All-American em 2010.
E isso explica sua decisão de simplesmente não ajoelhar naquele jogo de futebol americano em 2006.
"Só há uma maneira de fazer isso", diz Justin, "e é vencer e tentar marcar sempre."
A PRIEMIRA LUTA DE MMA DE GAETHJE foi em agosto de 2008, em um ringue de boxe ao ar livre em Denver, Colorado.
A estreia durou incríveis 27 segundos. Sem experiência em luta de pé, Justin buscou uma queda imediatamente e nocauteou o seu oponente quando o derrubou. Foi um resultado dominante e divertido para alguém com zero experiência em MMA, e um sinal do que estava por vir.
Até aquele momento, Gaethje havia se concentrado apenas em competir - e vencer. Desde os 4 anos de idade, ele era um wrestler que tinha apenas uma coisa em mente: derrotar seu oponente. Isso não significa que ele era um wrestler chato, porque ele sempre sentiu que precisava dominar o oponente.
Mas quando ele começou a fazer a transição do wrestling para o MMA, onde entretenimento pode significar bônus que te dão mais dinheiro do que a bolsa da luta, ele sabia o que tinha que fazer. Ganhar ainda era importante, mas a maneira com a qual ganhava significava muito para sua conta bancária.
"Quando perguntei a Justin pela primeira vez: 'Você acredita que pode ser um campeão?', ele respondeu: ‘Eu acho que posso ser campeão 100%’ ”, diz Wittman. "Mas o objetivo dele sempre foi ser o lutador mais divertido do mundo. Eu nunca ouvi isso de ninguém mais. Ninguém."
Gaethje entendeu a economia da coisa toda.
"Estou recebendo aquilo que me pagam agora porque as pessoas adoram o modo como luto", diz ele. "Pode ter uns caras aí com 13 vitórias e nenhuma derrota, e eles não recebem nem 5 mil dólares para lutar porque ninguém vai assistir. Eu tive oportunidades nos maiores palcos do MMA por causa da maneira como luto." "
Gaethje venceu suas primeiras 17 lutas profissionais de MMA, e apenas duas foram por decisão. Ele estava brigando e vencendo.
Então, quando ele se tornou um agente livre em 2017, o UFC veio atrás do ex-lutador da World Series of Fighting. Gaethje fez sua estreia no UFC em 7 de julho de 2017, nocauteando o experiente Michael Johnson. Gaethje levou para casa 300 mil dólares: 100 mil para aparecer na noite da luta, 100 mil pela vitória e dois bônus de 50 mil por luta da noite e performance da noite.
Gaethje então foi nocauteado em suas duas próximas lutas (Eddie Álvarez e Dustin Poirier). As duas lutas foram impressionantes, o que significava que os bônus de 50 mil dólares continuavam chegando. Os bônus eram bons, mas não eram mais suficientes.
"Perguntei a ele após essas duas derrotas: 'Seu objetivo ainda é ser o lutador mais empolgante do mundo?'", diz Wittman. "E ele disse: 'Não, treinador. Eu quero ser campeão do UFC.'"
IMEDIATAMENTE APÓS A DERROTA para Poirier em 14 de abril de 2018, o foco começou a mudar.
"Nas minhas primeiras três lutas no UFC, li em algum lugar que foram três das cinco lutas mais empolgantes do UFC durante esse período", diz Gaethje. "Mas duas vezes, por conta da derrota, recebi apenas metade do meu dinheiro, porque é assim que funciona neste esporte. Você recebe metade para se apresentar e metade para vencer. Eu não gostei disso".
O objetivo se tornou claro.
"Eu senti que havia me legitimado como um dos lutadores mais empolgantes que já pisou no octógono e agora, para solidificar meu legado, preciso ganhar um cinturão", diz Gaethje. "É isso que importa agora. Eu nunca quis ganhar um cinturão, mas queria ganhar dinheiro, e a maneira mais segura de ganhar dinheiro nesse esporte era ser empolgante".
Segundo Wittman, Gaethje começou a correr menos riscos no octógono e a mudar a maneira como fazia sparring. Ele ainda é um lutador que pressiona muito, mas se tornou mais seletivo sobre quando ficar no meio, querendo trocar.
Os resultados foram espetaculares. Gaethje venceu suas últimas três lutas, todas por nocaute no primeiro round. E os bônus não pararam de chegar. Justin ganhou o bônus de luta da noite quatro vezes em apenas seis lutas no UFC e ganhou sete bônus de desempenho no total. Apelidado de "The Highlight", Gaethje é um dos únicos cinco lutadores da história do UFC a ganhar bônus em seis lutas consecutivas.
E muitos estão prevendo que o evento principal deste sábado é forte candidato ao bônus de luta da noite especialmente considerando que Ferguson tem 10 bônus na carreira.
Mas os bônus não são mais a prioridade para Gaethje. Uma vitória sobre Ferguson o colocaria como próximo oponente do invicto e campeão dos leves, Khabib Nurmagomedov - que é exatamente o tipo de desafio que Gaethje mais quer.
"Quando eu derrotar o Tony, vou lutar contra o Khabib depois, porque é para isso que estou aqui", diz Gaethje. "Estou aqui para tentar ser o melhor do mundo."
MARCUS SEGUIU A TRADIÇÃO de mineração da família, mas ele também é o corner de Justin durante as lutas, e ele estará em Jacksonville. Ray e Carolina estarão assistindo de Safford, já que o UFC 249 não terá torcida por conta da pandemia de coronavírus. Será a primeira vez na carreira profissional de Justin que Ray não estará presente.
"Eu não sei como vai ser ficar sentado no sofá vendo o Justin lutar", diz Ray. "Eu vou ficar muito nervoso."
É improvável que Ray seja o único em Safford assistindo à luta. A pequena cidade do Arizona, conhecida pela mineração de cobre, criação de gado e produção de algodão, também está ciente de que tenha produzido, talvez, o lutador mais empolgante do mundo.
Justin está ciente do impacto que ele pode ter sobre os que estão no lugar de onde ele saiu. Talvez haja um garoto que passou a semana toda na mina de cobre em Morenci, que assistirá ao garoto de Safford que ampliou seus horizontes, apesar das previsões de alguns colegas de mina em 2007.
"Sou de um lugar muito, muito pequeno", diz Justin. "É fácil se meter em confusão, e é mais fácil ainda pensar que aquilo é tudo que existe, especialmente quando não conheceu o resto do mundo. Então, eu só quero inspirar os jovens a conhecer o mundo.
"Acho que todos temos habilidades muito particulares, e é difícil entender a sua se você não se arriscar e enfrentar seus medos. Então, é isso que estou fazendo. E digo que eles também podem fazer isso."
