Em um pequeno e antigo casarão na bela cidade de Santana de Parnaíba, Patrick Teixeira, 29, recolhe seus pertecentes, abre a porta e inicia uma caminhada curta, menos de 300 metros, do Largo da Matriz até uma unidade esportiva da prefeitura, onde treina há mais de dez anos.
Pode não parecer, mas ele é, há 83 dias, campeão mundial de boxe. O primeiro no Brasil desde Sertão, em 2006, e o quinto na história do país.
Ele derrotou o dominicano Carlos Adames por pontos, em Las Vegas, nos Estados Unidos, no final da noite de 30 de novembro. De segundo do ranking, virou campeão mundial dos médios ligérios pela Organização Mundial de Boxe (OMB), umas das quatro entidades mais importantes da modalidade.
Inicialmente era um título interino, mas, com a decisão do mexicano Jaime Munguia, detentor do cinturão, de mudar de categoria, o título tornou-se regular.
No entanto, em quase três meses desde que foi campeão, Patrick Teixeira não teve grandes transformações em sua vida. Foi recebido de forma modesta no Brasil ao regressar com o cinturão. Houve carreatas em Sombrio, sua terra natal, e Santos, cidade de um dos seus patrocinadores (Memorial).
Não foi convidado pela presidência da República para ir ao Palácio do Planalto, honra comum aos campeões mundiais do país.
Também está fora da exposição da mídia ou do radar da imprensa. Nem sequer foi procurado por empresas interessadas em associar suas marcas a ele, apesar de ser campeão e ter um cartel de muito respeito:
32 lutas, 31 vitórias (22 por nocautes) e apenas uma derrota.
"Assim que acabou a luta ninguém me ligou para fazer uma entrevista. Fui procurado quando voltei ao Brasil, uns quatro dias depois. Como campeão, eu ganhei uma bolsa em dinheiro, mas foi um valor considerado baixo pelo tamanho do feito", disse o boxeador à reportagem.
Ao menos manteve os patrocinadores que já estavam com ele. São dois: Memorial e IBG (International Boxing Group).
Esta última foi a empresa criada pelo empresário Eduardo Melo Peixoto, um benemérito do boxe nacional. Ele foi o responsável por trazer Patrick Teixeira para Santana de Parnaíba há mais de uma década para treinar.
"Ele foi o suporte principal na minha carreira. Foi o incentivador, o empresário e um pai para mim. Sempre me mostrou o caminho. Foi ele quem me conduziu ao título mundial", disse o boxeador.
Edu não pôde ver a glória do pupilo. Morreu três meses antes. A morte do empresário criou uma dificuldade. A IBG prossegue patrocinando o lutador, muito pelo esforço da viúva do criador.
"Infelizmente ele não viu o título mundial, nosso título mundial. E a gente ficou um pouco perdido sem ele. Ele sempre nos apoiou financeiramente, pagou os acampamentos fora do país e nos guiou. Hoje, a IBG é mantida pela viúva [dona Débora], que faz com muito carinho e em memória do seu Edu. Mas a gente sente falta dele", disse.
A situação vivida pelo campeão é um retrato do descaso que o boxe vive no Brasil. O país já teve como campeões Éder Jofre, Miguel de Oliveira, Acelino Freitas (Popó) e Valdemir dos Santos Pereira (Sertão), mas nos últimos 20 anos perdeu espaço, impacto e importância.
A ascensão ou o surgimente de outros combates e ausência das lutas de boxe na TV aberta com frequência acabaram contribuíndo para o período em baixa.
"De fato, o boxe profissional perdeu bastante espaço nos últimas décadas, embora tenham aparecido lutadores com potencial para alcançar destaque, por exemplo o Everton Lopes, o Esquiva Falcão e o Yamaguchi Falcão, mas por motivos tanto dentro como fora do ringue eles não conseguiram", disse o jornalista Eduardo Ohata.
Especialista em boxe e comentarista dos canais ESPN, Ohata resaltou que o boxe amador seguiu por outro caminho. "Não podemos reclamar do boxe amador. Tivemos vários medalhistas nas últimas décadas, inclusive um campeão olímpico, que foi o Robson Conceição, hoje profissional", completou.
Ohata entende que a falta de visibilidade de Patrick Teixeira é preocupante. E vê muitas qualidades no campeão brasileiro.
"Em algum outro país, como nos Estados Unidos, ele estaria numa situação um pouco melhor. A conquista dele teria sido mais valorizada. Nessa altura já teriam candidatos a patrocinador batendo na porta dele", disse o jornalista.
"Ele é um menino perseverante. É também um exemplo do brasileiro que luta. Não tem aquela coisa de indicação, aquela coisa de panela. É um cara que consegue vencer pelo esforço próprio e isso deve ser valorizado", acrescentou.
Patrick Teixeira tem outra definição sobre o que faz.
"Ser boxeador no Brasil é ser guerreiro. A gente trabalha muito. Tem muita disciplina. Abre mão de diversão, festa, família. Batalhamos para conseguir subir, muitas vezes falta o básico para treinar. Faltam patrocinadores, eventos. Quem escolhe ser boxeador no Brasil já é um guerreiro", disse o campeão mundial.
E por isso, que ele tem um desejo para a modalidade, algo que para muitos pode parecer utopia, embora ele tenha fé.
"Já estou com o nome marcado na história do boxe brasileiro, mas, para eu ficar feliz e contente antes de parar, eu quero, eu preciso deixar o boxe muito mais popular no Brasil. Pro pessoal saber o que é, quem são os lutadores. Pra eles falarem de boxe até no bar. Aí sim, eu terminaria a carreira bem contente".
