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ESPN Body Issue: Ibrahimovic fala como superou lesões - e conquistou seus 'haters'

Zlatan Ibrahimovic
Atacante do LA Galaxy
Maior artilheiro da seleção da Suécia

Idade: 36
Altura: 1,98 m
Peso: 95 kg

Zlatan Ibrahimovic não é um homem modesto, então talvez não seja surpreendente que a mais nova celebridade de Los Angeles tenha decidido posar para o 10º aniversário da Body Issue. Mas ainda há muito coisa para o ícone do futebol global mostrar. Ibrahimovic conversou recentemente com Chris Connelly, da ESPN, e revelou os detalhes de sua grave lesão no joelho, como ele está se adaptando ao seu novo time e a inesquecível estreia.

ESPN: Você veio posar para a Body Issue. O que você tem de diferente fisicamente comparado aos outros jogadores de futebol?

Zlatan Ibrahimovic: Quando faço alguma coisa, faço com vigor. Não é uma questão de beleza, todo mundo pode ser bonito. Mas nem todo mundo tem essa potência. Eu tenho essa característica.

Você também tem muita criatividade e estilo. Quando você sabe que é o momento para ser criativo em campo? O que tem que acontecer?

Preciso estar com raiva. Muita raiva. Então faço coisas inesperadas... coisas legais. Percebo coisas que são difíceis de descrever. Brechas no campo que posso aproveitar. Eu antecipo o segundo e o terceiro passo, o que vai acontecer, estou sempre à frente.

O que motiva você?

As críticas. E isso que me dá energia. Isso foi sempre assim ao longo da minha carreira -- algumas pessoas não acreditavam em mim. Teve gente que disse que eu nunca chegaria lá. Eles me julgavam antes mesmo de me ver jogar. Mas eu ignorei tudo isso e usei como força motivacional. Minha vontade era tentar melhorar sempre, nunca estava satisfeito. Foi assim que eu segui em frente e ainda continuo me beneficiando das críticas. Porque no final meus críticos viram fãs. Por isso preciso tanto deles.

[Risos] Vai ficar cada vez mais difícil encontrar críticos se você continuar jogando assim.

Verdade, mas eles sempre estão por aí. Eu incomodo eles de alguma forma.

Sua precisão em campo é fenomenal. Em seu livro [I Am Zlatan, de 2001], você fala sobre um treinador [o ex-técnico do Real Madrid, Fabio Capello] que colocava você na grande área e ficava só mandando bolas.

Todo dia. Ele me colocava na frente do gol e eu dava de 50 a 100 chutes. Literalmente todo dia. E ele continuava exigindo cada vez mais de mim... no final eu mesmo treinava de forma espontânea. Eu pegava a bola e ia treinar, era minha terapia. A repetição me fazia melhor. Treinar bastante no final acaba valendo a pena. É por isso que tenho tanta precisão no chute.

Em que parte do seu corpo você sente mais confiança?

Sou totalmente confiante. Meu corpo não tem fraquezas.

Mesmo com 36 anos? Isso muda um pouco as coisas, não é?

Não, tudo continua perfeito. Sou como o vinho: quanto mais velho melhor. A idade é só um número, está tudo em sua cabeça, força, idade e como você se prepara. Eu treino muito. Faço uma boa preparação porque isso me motiva. Mas nunca fico satisfeito porque quando me sinto bem, quero me sentir ainda melhor. Sou um workaholic.

Você sofreu uma lesão terrível no joelho [em abril de 2017]. Como foi isso?

Foi muito estranho porque nunca tive uma lesão grave antes. Quando isso aconteceu, disse para mim mesmo: “Eu não estou lesionado". E tentei andar logo em seguida. Outro jogador se lesionou no primeiro tempo e acabou saindo carregado. Eu sai caminhando porque disse que estava bem. E quando cheguei ao vestiário ainda pensava comigo: “Não estou machucado, é só uma batidinha ou algo assim". Mas tinha algo estranho.

No dia seguinte o joelho estava inchado e fizemos uma ressonância; a coisa estava feia.

Então você ouve todos os comentários: Está tudo acabado. Ele nunca mais vai voltar. Não vai mais ser o que foi. Os críticos voltam a aparecer. E tudo isso, todas aquelas pessoas falando, me deu energia. Foi quando disse: “Eu vou decidir quando parar de jogar futebol. Vou decidir como termina essa história. E não vai ser por causa de uma lesão. Vou parar quando e como eu quiser”. Quando eu parar, vou me sentir como quando comecei a jogar, poderoso e perfeito.

Como você levou a confiança que tem em campo para a sua recuperação?

Eu treinei todos os dias, um treinamento chato. Mas eu precisava fazer aquilo. Eu tinha pessoas ao meu redor que acreditavam em mim e me davam esse força extra. Minha família. Meu empresário. Meu fisioterapeuta. Trabalhamos todos os dias.

Quando assinei a prorrogação de contrato com o Manchester United [em agosto de 2017], perguntei ao técnico José Mourinho: “Posso fazer [tratamento] à distância? Porque se eu ver os companheiros todos os dias, vou pirar.

Por quê?

Porque queria estar com eles. Eu sou assim. Quando o treinador precisa de mim eu estou lá, mesmo que meu joelho não esteja lá essas coisas ou tenha uma fratura. Eu vou estar presente porque é assim que eu trabalho. Se precisarem de mim não vou me omitir. E vou defendê-los sempre.

Por isso pedi para manter distância e treinar isoladamente. Eu agradeço muito ao Manchester United [por me deixar fazer isso], aos meus companheiros de equipe na época e ao treinador Mourinho por me darem essa confiança. Agora estou aqui e estou curtindo muito meu futebol atualmente.

Será difícil assistir a seleção da Suécia jogando sem você na Copa do Mundo?

Não. Nos primeiros jogos era diferentes porque eu sentia que podia jogar muito melhor do que eles, obviamente. E ainda sinto isso. Mas chega uma hora em que você deixa pra lá... eu nunca fui muito bem-vindo. Eu era diferente. Minhas origens são diferentes. E eu passei por tudo isso e virei capitão seleção do meu país. Quer dizer, não posso querer mais do que isso.

Você foi muito aplaudido aqui em LA na sua estreia. Vejo que você sorri só de lembrar. Como se sentiu em campo?

Foi incrível porque a expectativa foi incrível. O Galaxy só pediu que eu estivesse pronto para o dia 31 de março, que era o dia do jogo contra o LAFC. Estar pronto para esse jogo era a única exigência. E eu respondi: “Não se preocupem, esse é o meu trabalho. Só arrumem meu visto para que eu possa vir para cá”.

[Risos] Então estava tudo pronto. Eu cheguei. Treinei 20 minutos. Não conhecia ninguém. No dia seguinte fui relacionado para o jogo. O treinador me perguntou: “Você tem certeza de que está pronto para jogar?" Eu respondi “Me dê alguns minutos. Vou lhe mostrar”. E todos me perguntavam: "Como está seu joelho?" Eu dizia: “Vamos descobrir hoje”. Estávamos perdendo por 1 a 0, eu sentado no banco, achando que podíamos virar. Depois dos 2 a 0, olho para a esquerda e digo ao técnico: “Não sei se Zlatan será suficiente para isso".

Com 3 a 0 no placar, pensei: “Esta temporada será longa". Então ouço a multidão gritando: "Queremos Zlatan". OK, vão me colocar ou não? Ou vão me poupar? Eu não estava entendendo nada. Comecei a me aquecer. Fizemos um gol. OK, agora é a minha vez. Eu entrei e deu tudo certo. Mostrei a eles quem é Zlatan. Eles queriam meu futebol e eu dei a eles.

Você já ouviu aplausos em todos os grandes templos do futebol no mundo. Como foi ouvir esses aplausos em LA?

Foi incrível porque quando cheguei já tive uma ligação especial com os torcedores. Foi uma recepção ótima. Senti a energia. E a adrenalina. Só quero retribuir. Retribuir o máximo possível, especialmente para as crianças, porque elas são o futuro. E sei que elas não podem me ver sempre.

É um dia inesquecível para elas quando vão ao estádio. Eu só quero retribuir o máximo possível fazendo aquilo que sei, que é jogar futebol. E é aí que entra a criatividade. A vontade de fazer algo diferente. Quero ser um exemplo para elas.