A seleção brasileira de 2002 é melhor ou pior que as de 1958, 1962, 1970 e 1994? Comentaristas da ESPN discutiram sobre o tema
Na última quinta-feira, dia 30 de junho de 2022, completam-se exatos 20 anos da conquista do Pentacampeonato na Copa do Mundo de 2002. Há duas décadas, o Brasil venceu a Alemanha por 2 a 0, no Estádio Internacional de Yokohama, com dois gols de Ronaldo "Fenômeno", e finalmente colocou a 5ª estrela acima de seu escudo.
Foi um título incontestável, de um time que começou claudicante, mas se acertou na transição da fase de grupos para os mata-matas e levantou a taça de forma mais do que merecida.
Mas em qual lugar o Brasil de 2002 fica entre todas as seleções canarinho que foram campeãs do mundo?
A equipe de Luiz Felipe Scolari seria capaz de duelar com a constelação de 1970? Brigaria de igual para igual com os elencos espetaculares de 1958 e 1962? Conseguiria passar pelo "cadeado" do time de 1994?
Para saber essa resposta, o ESPN.com.br ouviu os comentaristas da ESPN, que divergiram bastante sobre qual é o lugar do time do Penta na história dos times do Brasil que conquistaram a Copa do Mundo.
Confira abaixo as opiniões:
Paulo Cobos
Blogueiro do ESPN.com.br
A resposta fácil é apontar a seleção de 2002 como a 4ª melhor entre as cinco do Brasil que ganharam a Copa. Só o time seguro, mas sem graça, de Parreira no Tetra seria pior. Não concordo.
Claramente melhor que 2002 apenas o time de 1970, que tinha craques, mas também era revolucionária e brilhantemente treinada por Zagallo.
O time do Penta, com dois laterais espetaculares e o trio Ronaldinho, Rivaldo e Ronaldo era tão talentoso individualmente quanto a equipe de 1958 e melhor que a envelhecida equipe de 1962.
Felipão também foi muito bem com seu esquema de três zagueiros e a sabedoria de mudar o time durante a competição, trocando Juninho Paulista por Kleberson.
Entre as cinco seleções brasileiras campeãs do mundo, coloco a de 2002 em 2º lugar (empatada com a de 1958).
E, se na discussão entrar também os times que ficaram sem o troféu, o time de Felipão cai para o 3º lugar. O time de Telê, em 1982, era melhor.
Paulo Calçade
Comentarista da ESPN
Cada seleção tem a sua importância histórica dentro de um contexto. Então, os títulos que vieram depois vêm dentro de uma história construída pelos pioneiros.
Portanto, eu dividi esses cinco títulos em quatro etapas. Os dois primeiros, 1958 e 1962, são os primeiro títulos e uma confirmação de um bicampeonato repleto de dificuldades, com o Pelé contundido.
Depois vem o Tri. O Tri sim, uma conquista madura do futebol brasileiro. Tudo isso aconteceu em 12 anos. Aí tivemos um baita jejum.
Na sequência, vem a seleção de 1994 e, consequentemente, a de 2002. Tecnicamente, eu vejo a de 2002 nessa 4ª posição.
Dou um destaque maior para as duas primeiras e para o Tri por tudo o que representaram e por terem aberto as portas para o Brasil. Esse título de 2002 já é de um futebol consolidado, mais moderno e com grandes jogadores. A gente está falando de Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho. Era um bom time. Eu colocaria tecnicamente em 4º lugar, sempre ressalvando que as comparações são muito difíceis, porque envolvem épocas diferentes, ritmos, escolas e formas de jogar.
Então, é muito difícil criar um ranking desse tipo de coisa, mas o Brasil de 2002 do Penta foi muito importante. Ele veio oito anos depois da seleção de 1994 e agora estamos vivendo um jejum. Se o Brasil não ganhar essa Copa, vamos para o maior jejum da história, para 24 anos até 2026, empatando 1970/1994.
Gláucia Santiago
Apresentadora da ESPN e do podcast PodCopa
Para mim, 1994 e 2002 foram duas Copas que marcaram muito e são minhas principais lembranças afetivas da seleção brasileira.
São contextos e times diferentes, cada um tem seu peso e suas particularidades, mas, se for para escolher entre um dos times, fico com o de 2002.
Justifico: pelas individualidades, como Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho; pela campanha; e até mesmo pelas circunstâncias em que aquele grupo foi construído, como chegou e o que apresentou durante a Copa.
Óbvio que, das cinco seleções brasileiras campeãs do mundo, tivemos equipes com jogadores como Pelé, Garrincha, Rivellino, Dadá Maravilha, entre tantos outros craques. Por isso, a missão de definir qual a melhor entre elas fica muito difícil, até por conta do comparativo entre épocas bem distintas do futebol e o tamanho de cada craque no futebol mundial.
Aliás, times com caras como esses nem deveriam ser comparados a nenhum outro, porque não há como medir isso. Com quem a gente compara Pelé? Ou Garrincha? Ou Ronaldo "Fenômeno"?
Mas vou puxar pelo que eu vi jogar, pelos ídolos da minha geração: a de 2002 é a minha preferida.
Bruno Vicari
Apresentador da ESPN
Gustavo Zupak
Comentarista da ESPN
Levando em consideração as cinco seleções brasileiras que foram campeãs do mundo, coloco a de 2002 em 4º lugar.
Atrás, sem dúvidas, das de 1970 e 1958, pelo time no papel e pela qualidade do jogo. Atrás também da de 1962, que ainda tinha lendas do esporte como Gilmar, Djalma Santos, Nilton Santos, Didi e Garrincha.
Para mim, a seleção de 2002 só fica a frente da de 1994, especialmente pela campanha de 7 vitórias.
Era um time de craques históricos como Cafu, Roberto Carlos, Ronaldinho, Rivaldo e Ronaldo. Que teve um qualificatório ruim e problemático e que apenas no mês da Copa, conseguiu se mostrar forte o suficiente para bater quem passasse pelo caminho.
Vítor Birner
Comentarista da ESPN
A seleção é uma campeã do mundo, por isso ela está no "Olimpo" das seleções da história do futebol. Dentro desse "Olimpo" também tem outras seleções, e aí o critério é muito pessoal.
Para mim, a marca histórica pelo futebol que joga também conta, não é só a taça. A gente tem que colocar, por exemplo, a seleção da Hungria de 1954, a "Laranja Mecânica" do Cruyff também. Aí eu repito que é uma questão pessoal. Eu não acho que a Alemanha de 1974 está acima da seleção da Holanda do Cruyff na história do futebol. Quando falamos de resultados, sim, porque ela foi campeã do mundo e a outra foi vice. Então eu não acho que esteja acima. Também não acho que a Itália de 1982 está acima da seleção do Telê Santana. A seleção da Itália é muito forte. O resultado indiscutível é do futebol, mas a seleção de 1982 deixou uma marca histórica muito maior do que a seleção de 1982 da Azzurra.
O italiano e o alemão devem pensar de outra forma, eu entendo. Eu digo que essas seleções que não venceram Copa do Mundo, principalmente a Hungria, Holanda e o Brasil de Telê têm um lugar extremamente especial, porque você ganhar e ocupar um lugar é uma coisa natural. Essas três para mim são épicas, espetaculares e magníficas, que conseguiram superar a questão de ser ou não campeã do mundo pelas marcas que deixaram no futebol. Cada uma, obviamente, na sua respectiva época.
Sobre as seleções brasileiras, acho que fica até mais fácil de fazer um ranking das principais. A 1ª colocada é a seleção de 1958 ou a de 1970. Eu coloco a de 1970 porque ela praticamente fecha um ciclo. Eu tenho que ver coisas do passado, porque eu não vivenciei no dia-a-dia. Era a que tinha mais craques. De acordo com o critério, a de 1958 foi a primeira a ganhar e teve que lidar com o trauma da perda de 1950. Então essas duas são as principais seleções.
Depois, vem a de 1962 com a marca do Garrincha. Uma seleção sensacional, enorme e recheada de jogadores históricos. Depois vem a seleção do Felipão. Ela é a 4ª colocada nos cinco títulos mundiais.
É uma seleção que demorou para engrenar. Era previsível que demoraria pelo jeito que foi ao Mundial. Fez uma primeira fase com bons resultados, mas os jogos às vezes não foram tão bons assim, principalmente contra a Turquia, que teve lances de arbitragem. Não vai bem nas oitavas de final contra Bélgica, mas supera. Se a gente for pegar arbitragem também, vamos falar de seleções não só do Brasil, mas também de outras que ganharam mundiais.
Quando o Felipão tira o Juninho e coloca o Kleberson, a seleção engrena. Faz a decisão contra a Inglaterra e para mim eram as duas melhores do mundo com alguma vantagem na época. A Inglaterra tinha goleado a Alemanha na Alemanha nas eliminatórias, algo que nunca tinha acontecido até então. Para mim, inclusive, foi a melhor seleção inglesa formada de todas que eu vi. A Inglaterra já foi à Copa com boas seleções, mesmo que não tivesse obtido os resultados que desejava.
O jogo contra a Turquia foi um bom jogo, consistente para o Brasil. E a final é indiscutível. O Brasil jogou demais e a final marca muito aquela seleção.
A ordem é essa: 1970 em 1º, 1958 quase empatada, 1962 em 3º. Essas três estão muito acima das outras. Em 4º lugar a seleção do Felipão, e em 5º a seleção que ganhou o Terra do Brasil na Copa do Mundo.
André Plihal
Apresentador da ESPN
Eu coloco a seleção de 1970 como a melhor campeã do mundo pelo Brasil, pela reunião de craques, por ter vencido os seis jogos da competição sem qualquer tropeço. Até discordo um pouco de quem diz que o time tinha "cinco camisas 10", mas concordo que eram cinco craques para encaixar na frente: Jairzinho, Gerson, Tostão, Rivellino e Pelé. E você pode colocar também o Clodoaldo como craque dentro de sua função. Então, era uma equipe que tinha uma constelação jamais vista não só na seleção brasileira, mas em todas as seleções da história das Copas.
Em 2º lugar, colocaria a seleção de 1958, pois foi a Copa que o Pelé e o Garrincha mais atuaram juntos, e porque foi o 1º Mundial que o Brasil ganhou, acabando com o trauma de 1950.
No 3º posto, coloco a de 2002, que, a exemplo de 1970, venceu todos os jogos. É um time que até hoje você fica na dúvida em dizer quem foi o melhor da Copa, e os dois eram da mesma seleção: Rivaldo e Ronaldo. E só pela história de superação do Ronaldo já bastaria para essa seleção ocupar um espaço importante neste pódio.
Em 4º lugar, coloco empatadas as seleções de 1962 e de 1994. Fico em cima do muro e explico.
Em 1962, você tinha Garrincha, Pelé no começo, mas foi justamente por isso: foi só um pouquinho de Pelé. Embora digam que foi a "Copa do Garrincha", tem algumas contestações de arbitragem, a história do Nílton Santos dando o passinho para fora da área... Claro que isso não tira o brilho, mas temos que reconhecer que o Brasil chega a 1962 com bem menos peso e pressão, porque tinha sido campeão no Mundial anterior. Então, chegou naturalmente mais leve.
Já 1994 é o contrário, porque chega com o peso de 24 anos sem título, uma pressão monstruosa. Se não foi uma equipe brilhante, pois realmente não jogava um futebol exuberante, foi competente e eficiente, principalmente na parte defensiva. Sofreu poucos gols e poucos ataques adversários, porque Mauro Silva e Dunga "mastigavam" tudo no meio, e a vida chegava menos complicada para o setor defensivo. Além de Bebeto e Romário. Falam que foi a "Copa do Romário", mas também não concordo muito com isso. Foi a Copa do coletivo, com Romário sendo a cereja do bolo.
