No dia 10 de setembro de 2021, Luisa Stefani deixava a quadra do Louis Armstrong Stadium em uma cadeira de rodas após sofrer uma lesão chocante na semifinal das duplas femininas do US Open.
A brasileira, que tinha conquistado junto com Laura Pigossi a inédita medalha olímpica para o tênis brasileiro em Tóquio 2020, encerrava a campanha histórica no Grand Slam americano com um rompimento no ligamento cruzado anterior do joelho direito, que interrompeu a carreira da tenista por mais de 12 meses.
Quase dois anos após o drama, Luisa está pronta para voltar a competir no Aberto dos Estados Unidos, que tem transmissão de todas as quadras pela ESPN no Star+ e quer coroar o retorno ao circuito, que aconteceu em setembro de 2022.
“O objetivo é ganhar o US Open nas duplas (femininas) e duplas mistas. Sem dúvida alguma, esse é o maior objetivo, como qualquer Grand Slam que a gente entra, a gente entrar para ganhar”, afirma Luisa Stefani em entrevista exclusiva para a ESPN:
Antes do último major da temporada, a nº 14 do ranking de duplas WTA abriu o jogo sobre tudo: os maiores desafios e descobertas de voltar a competir após um ano parada, o fim da parceria com Gabriela Dabrowski, e, claro, a "distante" dupla com Bia Haddad.

Susto e quase adiamento do retorno
A tenista brasileira voltou a competir no dia 14 de setembro de 2022 no WTA 250 de Chennai, na Índia, e, logo "de cara", foi campeã junto com Dabrowski nas duplas femininas do torneio indiano. Pouco mais de três meses depois, a medalhista olímpica foi campeã com Rafael Matos nas duplas mistas do Australian Open.
Mas engana-se quem pensa que esse retorno foi fácil. Antes mesmo de voltar a competir, em agosto de 2022, a tenista brasileira viajou para Nova York, nos Estados Unidos, para treinar nas quadras do complexo do US Open e sentir o clima de competição antes do “retorno oficial”. Foram nessas semanas que Luisa Stefani enfrentou um dos maiores obstáculos de sua volta.
“Teve uma hora que eu falei: Não, não vou, não vou voltar agora. Um momento de super estresse total. Ainda estava com dor, estava inchado, mas era mais o inchaço do treino mesmo, mas que isso eu acabei pensando demais, ficando negativa”.
"Acabei treinando demais. Meu joelho ficou uns dias ruim lá em Nova York mesmo. Quando eu vi que estava dolorido e tive que dar uma acalmada, descansar alguns dias, aí ficou bom de novo. Não foi nada grave.... mas sim, eu cheguei (a pensar que não ia dar para voltar a jogar nas próximas semanas).", revelou Stefani.
O susto foi bem pontual, mas o trabalho mental foi essencial para o ótimo retorno da brasileira precisou superar desde sua volta.
“Foi muito mais psicológico do que físico. Então, foi muito bom voltar para Nova York e treinar com as meninas que estavam treinando para jogar o torneio. Pisar de novo na quadra que eu tinha lesionado e saber que estava tudo bem, que aquilo foi naquele momento, mas que não era algo que pudesse ficar para sempre ali.
"Não foi algo que eu pensei demais no momento, mas trabalhei bastante psicologicamente. A minha psicóloga (fala) para deixar sentir as coisas que eu senti naquele momento.”, detalha a tenista.
Luisa Stefani ainda contou qual foi o maior desafio nesse último ano.
“Achar o quanto dá para treinar sem passar do ponto. (Treinar) para o corpo se sentir bem, mas ao mesmo tempo puxar um pouco para sempre melhorando e aguentar mais”
“É uma questão mais de manutenção mesmo. Mas eu lembro que quando acontece assim, ainda mais no começo da recuperação, quando você está prestes a voltar... Foi super estressante mentalmente e fisicamente também porque é desconfortável, sabe? Não era um inchaço do tipo meu joelho realmente não vai conseguir voltar a jogar. Era mais o desconforto e as dúvidas que chegam. Você está treinando, está melhorando e você tem que entender que precisa parar, que não dá para fazer tanto quanto antes ou tanto quanto você gostaria."
A tenista brasileira demonstrou muita leveza ao tocar nesse assunto delicado e conta como superou esse episósio.
"Acho que quem estava comigo eu dei um apoio moral muito forte. Foi mais o estresse do momento, mais do que realmente alguma lesão, algo sério nos joelhos. Eu venho aprendendo que faz parte. Tem dias que faz alguma coisa diferente ou vai chover, e o joelho dói mais."
“Eu estava em Nova York com a Stephanie Tomita (tenista brasileira que é treinadora nos Estados Unidos), que é minha amiga e me ajuda muito desde que eu cresci aqui (nos EUA). Falei muito com a minha psicóloga por telefone, a Carla (Di Pierro). Falei com o Léo (Azevedo, técnico da Luisa) e o Gui (Pachane, também da equipe técnica). Acho que quem estava aqui pessoalmente me deu mais apoio, e também eu sozinha me acalmando, mas acho que essas amizades ajudam muito."
A "tia" Luisa Stefani
A relação com os familiares também foi essencial para Luisa Stefani ter mais "tranquilidade" no retorno ao circuito da WTA:
“Quando esses momentos apertam é importante se apegar às pessoas mais próximas, falar nem que seja no telefone se estiver longe. Meu irmão mora perto, em New Jersey, onde eu estou agora. Então, passei para visitar ele e minha sobrinha. Tenho uma sobrinha de um ano que também super recarregou as energias.”
“Tênis também é só um aspecto da minha vida, mas eu podia ser uma tia, podia aproveitar o fim de semana com meu irmão e com minha família.”, completou a medalhista olímpica que sorria ao contar desses ‘novos’ ângulos de sua vida, além do âmbito esportivo.
Voltar a competir
Luisa Stefani também refletiu sobre a “melhor parte” de voltar ao circuito a poucas semanas de completar 12 meses de retorno:
“Achei que iria sentir mais falta de turistar, de conhecer as cidades, conhecer os lugares e viajar, mas esse ano eu não tenho feito tanto quanto antes. Acho que é a competição é o que mais me fazia falta, é realmente poder competir e passar por essas emoções de mega felicidade como foi na Austrália."
Para voltar a competir no US Open, Luisa vai disputar as duplas femininas com a americana Jennifer Brady, atual nº 368 do ranking da WTA, e com o britânico Joe Salisbury vai formar a parceria cabeça de chave número 4 nas duplas mistas.
O término de Stefanowski
Luisa Stefani não tem uma parceira fixa desde junho, quando rompeu com Gabriela Dabrowski, tenista canadense que foi sua dupla nas maiores campanhas da carreira, incluindo a semifinal do US Open de 2021 e disputou os WTA 1000 nos Estados Unidos e na Europa nesse ano. Após Roland Garros, a brasileira optou por interromper a parceria, apelidada carosinhamento de Stefanowski pelos fãs:
"Partiu mais de mim essa decisão, que foi muito dolorosa. Foi bem duro porque a gente é muito amiga, mas foi isso. Foi uma decisão super profissional. Eu estava muito animada com essa parceria (que foi retomada pontualmente em 2022 e depois com uma boa sequência no início de 2023) e também com muita expectativa, não só de resultado, mas também de tudo.”
Luisa, então, deu mais detalhes do porquê acabou decidindo encerrar a parceria:
“Indian Wells foi bem difícil e era um torneio que eu sempre quis jogar. Acabei caindo no segundo jogo lá e tive uma lesão que não foi nada sério, mas eu acabei subluxando o meu ombro esquerdo e cainda também no meu outro braço, em cima da mão.Tive algumas lesõesinhas que foram chatas de curar e que demoraram um pouco. Isso me desgastou bastante fisicamente e mentalmente e, também, de momento da parceria. Não desmerecendo nada da parceria, mas foi um momento que para mim realmente foi difícil”.
“Eu estou me abrindo agora que eu estou melhor e já passou um tempo disso. Agora, refletindo, realmente foi um momento super desconfortável com o meu corpo. Foram meses de preparação, de jogar, de ficar ali lutando, querendo que as coisas dessem certo, e, às vezes, você quer demais e acaba sendo até pior”, desabafou.
Stefani ainda completou sobre a decisão e sobre os objetivos nas duplas:
"Eu queria voltar a jogar na esquerda, que foi um lado que mais obtive mais sucesso desde que eu voltei, e ali acho que eu tinha a super intenção também de chegar no WTA Finals esse ano. Era uma meta minha também.”
Stefani pensando em Pan, WTA Finals e Olimpíadas
Além de se classificar para os Finals nas duplas, Luisa também tem como objetivo terminar no top 10 do ranking das duplas e já mira as Olimpíadas, além do Pan-Americano no final do ano:
"Ainda não saiu a convocação oficial, mas é uma das competições que eu amo jogar. Dá uma energia diferente.”
O Pan será disputado em outubro, na cidade de Santiago, no Chile. A Confederação Brasileira de Tênis (CBT) tem o direito de levar três atletas para disputar o tênis feminino. A entidade emitiu, em nota, que deve levar as duas melhores brasileiras no ranking de simples da WTA e a melhor no ranking de duplas.
Atualmente, caso essa regra seja cumprida, as convocadas seriam Beatriz Haddad Maia e Laura Pigossi (nº 1 e 2 de simples) e Stefani (nº 2 de duplas, já que é a primeira é a própria Bia Haddad).
Já o WTA Finals segue o ranking "anual" e convida apenas as oito melhores duplas classificadas na corrida por pontos para a disputa. A parceria da brasileira com a francesa Caroline Garcia está em 19º lugar.
Para assegurar uma vaga nas duplas nas Olimpíadas, Luisa Stefani precisa estar no top 10 da WTA quando o ranking for divulgado no dia 10 de junho de 2024. Se estiver fora do top 10, ela ainda pode entrar com as vagas remanecestes, que também seguem o ranking às vesperas dos Jogos até completar 32 duplas participantes.
Luisa Stefani e Bia Haddad jogando juntas?
Sobre formar uma dupla com Bia Haddad no circuito, Luisa Stefani respondeu com sinceridade a "pergunta que mais costuma ouvir".
“As nossas prioridades são diferentes. É difícil, teria que ser algo mais pontual e dependendo o calendário. Agora, eu não estou com parceria fixa, então pensa-se que seria mais fácil. Mas acho que cada uma tem seus objetivos. Tenho certeza que em algum momento vai rolar essa dupla, mas a gente tem objetivos diferentes. A prioridade dela é simples, a minha é a dupla."
Para o futuro, Luisa Stefani também planeja jogar simples e explicou por que resolveu priorizar as duplas neste retorno:
"Simples é sempre algo que eu quis jogar e quero voltar. Esse ano eu dei muita ênfase na dupla porque quero voltar a me estabelecer nas duplas no ranking e nos torneios grandes, que isso também é super importante pra mim, visionando muito as Olimpíadas do ano que vem. Eu queria garantir essa qualificação que realmente só começou agora no meio desse ano, em junho"
"Isso realmente pesou mais para o meu calendário ser principalmente des duplas. Esse ano, na questão física eu me sentiria muito bem voltando saudável, mas eu queria saber como meu corpo ia responder", completou.
