Isaquias Queiroz é simplesmente um 'monstro' da canoagem mundial e um fenômeno da nacional. Aos 27 anos, o atleta chegou no fim da noite desta sexta-feira (6) a sua quarta medalha em Olimpíadas em apenas duas edições, uma em Tóquio-2020 e três na Rio-2016.
Mas quem é, qual a origem e de onde vem este baiano que já foi desenganado pelos médicos com 3 anos de idade, segundo sua própria mãe, e fez o Brasil explodir e entrar no mapa de uma modalidade que até alguns anos atrás era totalmente desconhecida e ignorada no país?
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O ESPN.com.br já teve a chance de conversar com mãe, irmãos e algumas pessoas muito próximas do agora terceiro maior medalhista olímpico do Brasil na história, ao lado de Serginho, do vôlei, e Gustavo Borges, da natação, cada um com quatro pódios - os maiores são Robert Scheidt e Torben Grael, ambos na vela, cada um com cinco honrarias.
Isaquias vem de Ubaitaba. Em tupi-guarani, Uba significa canoa e Tava, cidade. Cidade das canoas. No pequeno município do sul da Bahia e a 379km de Salvador, remar ou andar de canoa é uma necessidade. Depende do que você precisa: ir, vir, ter uma ocupação. Ocupação? Sim, é também o ganha pão de muitos pais de família.
Costume local moldou Isaquias
Faz parte do cotidiano. É a cultura, a tradição. Um costume local que, trabalhado, moldou e levou um de seus filhos ao estrelato no esporte. Um costume que vem muito antes do atleta nascer, em 3 de janeiro de 1994.
É que o Rio de Contas divide Ubaitaba da vizinha Aurelino Leal. Então, ir de uma para a outra durante muito tempo só era possível de canoa, remando. Mas ainda falta estrutura para atravessar? Não, até há uma ponte...
... "Mas ela cruza a BR-101, então, tem que ir de carro. Até dá para ir a pé, mas é perigoso, aí a turma prefere ir de canoa mesmo, entendeu?", disse à reportagem em 2016 Jackson Cristiano, radialista morador da cidade.
Foi nesta 'capital da canoa' que Isaquias foi criado por dona Dilma, sua mãe, e aprendeu a remar. Foi lá que ele começou a ser orientado por Jefferson Lacerda, seu primeiro incentivador, campeão mundial e primeiro representante brasileiro na canoagem em Jogos, em Barcelona-1992.
Lá começou a trajetória deste agora dono de incríveis 22 medalhas na canoagem, entre Olimpíadas (4), Mundiais (12), Jogos Pan-Americanos (4) e Mundiais júnior (2).
Nada mal para quem já teve um 'rim solto dentro da barriga', foi ladrão em festa junina e por muito pouco não acabou abordado como um 'vagabundo'.
Saiba mais, abaixo, sobre Isaquias Queiroz por quem o conhece de perto
Rim solto dentro da barriga
"Ele era muito arteiro, né, não gostava muito de escola, não. Aí teve essa queda. Ele caiu da árvore lá embaixo, ficou dois dias e meio na UTI, mas Deus me deu ele de volta. O médico chegou e falou pra mim que ele estava com o rim solto dentro da barriga" - Dona Dilma, mãe de Isaquias Queiroz
Pense em um cara humilde
"Rapaz, pense em um cara humilde, viu. Sempre que está aqui [Ubaitaba], ele vai na rádio, participa do programa. Fala com todo mundo, anda na rua de boa mesmo, sabe" - Jackson Cristiano, radialista
Ladrão em festa junina
"Tinha a quermesse da nossa cidade, a festa junina, aí ele me chamou. E começamos a roubar as merendas lá, tinha amendoim, milho cozinho, a gente levava tudo de lá para a quadra" - Lucas, irmão mais novo de Isaquias Queiroz
Rivalidade no futebol
"Eu sou Flamengo, o Lucas é Corinthians e o Isaquias é São Paulo, eu acho" - Isaac, irmão mais velho de Isaquias Queiroz
Salto em distância
"A gente gostava muito de brincar também quando tinha um areião, às vezes, aí a gente imitava estar dando uns saltos, tipo na Olimpíada" - Lucas, irmão mais novo de Isaquias Queiroz
Mergulho e guerra de barro
"O que a gente mais gostava de fazer quando criança era brincar no rio, de mergulhar, passava o dia lá, brincando de pega-pega ou fazia guerra de barro. Também jogava muita bola no paralelepípedo" - Isaac, irmão mais velho de Isaquias Queiroz
Segundo a comprar um caiaque em Ubaitaba
"A gente sempre organizou vários campeonatos de canoagem aqui na região. [Remar] é algo do povo daqui mesmo. Eu fui o segundo a comprar um caiaque nas redondezas. Foi em 1983, o Humberto Hugo foi o primeiro" - Paulo Rogério Ramos, o Paulinho, hoje um senhor com mais de 60 anos, mas que no passado remou muito pelo Rio de Contas
Mãe visionária
"Uma vez cheguei do trabalho, ele estava em casa sem trabalhar. Olhei e logo vi, perguntei: 'Eu não tenho condição de te dar essa bota, quem lhe deu isso?' Ele disse: 'Um amigo'. Respondi: 'Que um amigo o que, não quero que pegue nada de ninguém sem precisar', ele com uma bota bonita daquelas.
Falou que foi o amigo. Ameacei dar duas 'molecas', aí o rapaz veio e disse que deu para ele brincar. Falei para ele: 'Filho, um dia você não vai precisar pegar dos outros e vai ter do bom e do melhor'. E hoje ele me ajuda bastante, conseguiu" - Dona Dilma, mãe de Isaquias Queiroz
Desenganado pelos médicos
"Ele teve uma queimadura [líquido quente] com três anos de idade, assim, do lado da barriga. Os médicos desenganaram, aí eu falei, ‘doutor, vou levar meu filho porque eu sei que ele não vai sair daqui'. Aí, levei e curei em casa. Nesse tempo, ele ainda usava fralda, eu tive que deixar ele sem fralda e aí rapidinho sarou" - Dona Dilma, mãe de Isaquias Queiroz
Acabar com as canoas em Ubaitaba
"Existe um projeto de uma passarela, mas se fizer, o pessoal vai passar fome aqui, tem muita gente que vive disso. São dezenas de canoas. Porque Ubaitaba é menor que Aurelino Leal, mas tem o comércio mais forte, aí, todo dia é muita gente de lá pra cá, daqui pra lá. Tem muitos estudantes de lá que estudam aqui também" - Jackson Cristiano, radialista
Vagabundo, como assim?
"Tem até uma história curiosa, rapaz. Uma vez Isaquias estava aqui em Ubaitaba, que ele aqui anda de boa na rua, entendeu, tranquilão mesmo, que ele é muito humilde. Aí, ele estava passando na frente do banco e tinha um policial que não era daqui da cidade, um tenente.
Aí, Isaquias passou do jeito dele, sem camisa, mostrando as tatuagens, né, e o policial já foi olhando pra ele assim, tipo, já achando que era um vagabundo e ia enquadrar, entendeu? Aí, eu disse, ei, esse aí não é vagabundo, não, viu, esse aí é Isaquias, pô, é campeão mundial e filho da cidade aqui" - Jackson Cristiano, radialista
