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Olimpíadas: os bastidores de por que Simone Biles abandonou final por equipes da ginástica artística

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O dia que Simone Biles, estrela olímpica, encantou a todos em um jogo de beisebol nos EUA (0:59)

Simone Biles, em outubro de 2019, foi convidada para entrar no campo do Minute Maid Park para participar de Houston Astros x Washington Nationals, pela MLB. E é claro que a ginasta deu um show de carisma! (0:59)

Um salto, e a noite de Simone Biles acabou.

A última ginasta norte-americana a competir no primeiro aparelho da final por equipes da ginástica artística nesta terça-feira, Biles arriscou um de seus movimentos tradicionais, mas pareceu ter se perdido no ar. A melhor do mundo aterrissou mal e deu um grande passo para frente, sem cravar o salto, como está acostumada.

Depois disso, ela se sentou com o médico da equipe, rodeada por suas colegas, e balançou a cabeça. "Estou bem", disse ela várias vezes antes de deixar a arena.

Se Biles é conhecida por alguma coisa, é por sua superioridade técnica e consciência no ar. O que aconteceu no salto foi muito fora dos padrões, mas Biles soube melhor do que ninguém que seu descuido foi mais do que um simples acaso. Sua rotina é tão difícil e as manobras que ela executa são tão perigosas que se ela continuasse a competir com seu estado mental abalado, ela corria o risco de sofrer uma lesão terrível.

"Você tem que estar 100% lá", disse Biles aos repórteres após o evento. "Se não, você se machuca. Hoje foi muito estressante. Eu estava tremendo. Eu não consegui dormir. Nunca me senti assim entrando em uma competição e tentei me divertir. Mas assim que cheguei, fiquei tipo: ‘Não. Minha mente não está aqui’".

Quando voltou para a área de competição, Biles informou às colegas de equipe que estava fora da disputa. Então, ela colocou seu agasalho e se tornou a maior líder de torcida da equipe dos EUA. Ela deu abraços e ofereceu ajuda da linha lateral. Ela repetiu a rotina de suas colegas de equipe enquanto competiam no solo e passou giz nas barras entre os turnos.

Durante o evento, a NBC relatou que a razão de Biles ter saído foi "um problema psicológico que ela está enfrentando" e acrescentou que "não estava relacionado a contusões". A equipe de ginástica dos EUA em seguida informou: "Simone Biles se retirou da competição final de equipe devido a um problema médico. Ela será avaliada diariamente para determinar a liberação para futuras competições". É provável que essa declaração e a NBC estejam dizendo a mesma coisa.

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1:06

Olimpíadas de Tóquio: Simone Biles não crava aterrissagem no salto e abandona final por equipes da ginástica

O Comitê Olímpico Russo é ouro na ginástica feminina por equipes. Simone Biles, grande nome do esporte na atualidade, abandonou a decisão após o primeiro salto e, de casaco e máscara, apenas assistiu de fora à derrota das norte-americanas.

Foi uma notícia triste e o tipo de informação que é difícil imaginar uma ginasta e seus treinadores revelando sob o antigo regime da ginástica americana. Mais do que dançar entre rotações ou aparecer para torcer pela equipe, o fato de Biles ter escolhido colocar sua saúde mental e física acima de tudo - durante as Olimpíadas - e revelar suas lutas ao mundo lembra aos fãs da ginástica que se há uma mudança cultural ocorrendo dentro do esporte, os atletas estão liderando.

"Tem sido um longo ano e eu acho que estamos muito estressados. Deveríamos estar aqui nos divertindo", disse Biles. "Às vezes não é esse o caso".

De um ponto de vista competitivo, a notícia da saída de Biles da final foi tudo menos uma boa notícia para uma equipe que já estava atrás do Comitê Olímpico Russo, perdendo por mais de um ponto após a primeira prova.

Mas, do ponto de vista humano, a notícia bateu mais forte. Biles disse ao longo do ano passado que seu retorno ao ginásio, especialmente depois que a pandemia de COVID-19 atrasou estes Jogos, só foi dificultado pelo fato de que para atingir seus objetivos, ela deve representar uma organização que decepcionou ela e suas companheiras, sobreviventes após as revelações de abuso de Larry Nassar. Ela tem continuado a criticar a organização por sua falta de transparência e tem dito que enquanto ela se apresentar defendendo os "EUA", ela irá manter uma luz sobre as vítimas e a necessidade de respostas que elas ainda não receberam.

Biles disse, no entanto, que desta vez ela quis competir por si mesma de uma forma que ela não fez em 2016, para forçar os limites do esporte, simplesmente para ver o que seu corpo é capaz de alcançar. Depois desta terça-feira, ela desabou ao dizer aos repórteres: "Estes Jogos Olímpicos, eu queria que fossem por mim mesma. Mas eu ainda o estava fazendo por outras pessoas. Me dói no coração que fazer o que amo tenha sido meio que tirado de mim para agradar as outras pessoas".

Na terça-feira em Tóquio, esse peso se tornou demais para suportar. E Biles respondeu fazendo algo que os ginastas vêm pedindo há anos para fazer por eles: colocar a saúde e o bem-estar dos atletas à frente das medalhas de ouro. "Eu digo colocar a saúde mental em primeiro lugar antes de seu esporte", disse Biles sobre sua decisão. "Eu tinha que fazer o que é certo para mim e não colocar em risco minha saúde e meu bem-estar. Por isso decidi dar um passo atrás e deixar [meus colegas de equipe] fazer seu trabalho".

Biles disse que ela tomará a quarta-feira como "um dia de descanso mental" e depois tomará uma decisão sobre o resto dos Jogos. "Vamos ver sobre quinta-feira", disse ela em referência à final individual – que também terá a brasileira Rebeca Andrade na disputa. Biles se classificou em primeiro lugar para a final geral – Rebeca foi a segunda -, e se ela decidir defender sua medalha de ouro, ela será acompanhada pela compatriota Suni Lee. Se ela se retirar, a ginasta Jade Carey tomará seu lugar. "Vamos levar um dia de cada vez", disse Biles.

No final do evento, enquanto os membros da equipe do Comitê Olímpico Russo comemoraram sua vitória, Biles conduziu suas companheiras de equipe em direção a eles. "Bom trabalho, meninas!", disse ela. Biles abraçou todas e as parabenizou por sua vitória. Ela elogiou suas colegas de equipe por terem ganho uma medalha de prata.

Em vez de rotular esta noite como uma decepção para a equipe americana, talvez seja o momento de celebrar o início de uma nova era: uma em que as medalhas de ouro ocupam um lugar secundário em comparação à saúde mental.