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Caso Ângelo Assumpção: Testemunhas atacam atleta demitido após denunciar racismo

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10:22

Fenômeno da ginástica artística, Ângelo Assumpção sofre racismo, depressão e desemprego

Aos 18 anos, garoto da Zona Leste de São Paulo se destacou com ouro na Copa do Mundo de 2015, mas o sucesso gerou preconceito, polêmicas e o fez ficar desempregado desde novembro

Há um ano desempregado por ter denunciado dois casos de racismo dentro do ginásio de ginástica do Pinheiros, Ângelo Assumpção, 24, continua na luta para provar que foi vítima de racismo e que merece uma oportunidade para voltar a praticar e a competir na ginástica artística, esporte que ama e ao qual tem se dedicado desde cedo.

Treinando em casa, no subúrbio da zona leste de São Paulo, ele se sente abandonado e condenado pelo clube e pelos atletas e profissionais da modalidade.

Tentando provar que é inocente e que foi mais uma vez foi vítima de racismo, como aconteceu cinco anos atrás na seleção brasileira, o atleta foi convocado para depor no Tribunal de Justiça Desportiva (TJD) da Federação Paulista de Ginástica, entidade presidida por Roseane Nabarrete Zanetti, mãe de Arthur Zanetti, campeão olímpico das argolas na Olimpíada de 2012.

O caso mais recente envolve comentários de tom racista dentro do Pinheiros sobre o cabelo do ginasta (após ele aparecer para treinar com uma trança) e com a cor da pele após ele resolver ir treinar com um uniforme de lycra preto e uma bermuda branca.

Procurada pela reportagem, Roseane não quis se pronunciar sobre o caso Ângelo Assumpção. Diferentemente do CEO do COB, Rogério Sampaio, e do consultor jurídico da Confederação Brasileira de Ginástica, Paulo Schmitt, que, ao serem procurados pelos canais ESPN, se manifestaram.

Roseane e Arthur Zanetti conhecem Marcel Camilo, advogado que assumiu a defesa dos treinadores do Pinheiros acusados agora por Ângelo Assumpção de racismo.

Ele é consultor jurídico da FPG, a entidade presidida por Roseane, e agente de Zanetti, além de ser o advogado de Arthur Nory, atleta do Pinheiros e medalhista de bronze na Rio-2016. Nory está envolvido diretamente no primeiro caso de racismo contra Ângelo, há cinco anos, durante um período de treinos da seleção brasileira, em Portugal.

Em uma das oitivas gravadas no TJD, que investiga o atual caso de racismo, Marcel Camilo afirma que não poderia permitir “vitimismo” por parte de Ângelo.

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Ângelo Assumpção sofre com desemprego na ginástica artística e até esquecimento de uma classe desunida

Atleta da ginástica artística foi desligado do Pinheiros em novembro do ano passado e está sozinho, tentando manter a carreira

O advogado também tem histórico de atuação em outras modalidades. Por exemplo, no atletismo, onde foi responsável pelo departamento jurídico da federação paulista. Em 2018, a reportagem dos canais ESPN o encontrou quando o ex-presidente da FPA, Mauro Chekin, defendia-se de uma acusação na Justiça comum de ter desviado aproximadamente R$ 3,5 milhões da entidade.

Na oportunidade, Camilo não permitiu a presença da imprensa em uma assembleia da FPA, onde os representantes dos clubes exigiam prestações de contas e consequentemente o afastamento do seu cliente da presidência da entidade. Poucos meses depois, Mauro Chekin renunciou ao cargo e hoje responde criminalmente por conta dessas prestações que chegam a quase R$ 4 milhões.

Justiça desportiva ou comum

Convocado por Carolina Danieli Zullo, procuradora do TJD, e por Tarsila Machado Alves, auditora responsável do órgão, Ângelo foi ouvido por meio do aplicativo de videoconferências Zoom por cerca de 45 minutos e sem advogado de defesa.

Diferentemente do que ocorreu nos depoimentos de Arthur Nory e dos técnicos do Pinheiros, que foram acompanhados por Camilo e estavam no mesmo ambiente que ele.

Sozinho, Ângelo reafirmou tudo que já havia dito na imprensa esportiva, inclusive para os canais ESPN, em reportagens que divulgaram os casos de racismo.

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8:35

Um clube para Angelo Assumpção: a luta para devolver ao atleta o direito de treinar e competir

A história do ginasta que se tornou símbolo da luta contra o racismo

Ele voltou a contar os casos da bermuda branca e das tranças no cabelo (ambos em que diz ter sido atacado com comentários de teor racial) e também um caso de racismo de um atleta que não queria ficar perto dele por causa de sua cor.

No depoimento ao TJD, Assumpção disse que teve a carreira prejudicada dentro do Pinheiros por ter denunciado os casos de racismo, apesar de sempre ter tentado falar com os técnicos e com comissão técnica sobre o assunto.

Renata Campos, diretora de governança do Pinheiros e responsável pelo relatório final sobre o caso, disse que a conclusão foi de que não houve racismo dentro da ginástica do clube. Versão diferente do depoimento do treinador Hilton Dichelli Junior, o Batata, que diz ter “brincado” com o atleta durante um treino dizendo que ele havia feito uma tatuagem na perna (depoimento presente na reportagem no topo deste texto).

A diretora de governança do Pinheiros esteve acompanhada do advogado do Pinheiros, Felipe Ezabella. Se mostrando nervosa com os questionamentos, ela afirmou que o primeiro relatório, onde casos de racismo, assédio moral e gordofobia foram equivocadamente relatados por Gerlane Laurentino, uma funcionária do clube, sem investigação profissional.

Renata também afirmou que a conclusão do Pinheiros aponta que existe um ambiente hostil, onde os técnicos, alguns mais velhos, como o coordenador argentino Raimundo Blanco, 63 anos, não acompanham a evolução dos tempos, principalmente no tratamento com os mais jovens que hoje já não aceitam gritos, empurrões e atitudes mais rudes.

No inquérito, que ainda não foi concluído pelo TJD, os depoimentos foram marcados por muitas críticas ao comportamento do ex-atleta do Pinheiros que, segundo Lourenço, Batata e Blanco, tornou a convivência entre eles insuportável.

No depoimento, Blanco disse que Ângelo pregava um ativismo que nada tinha a ver com o dia a dia dos treinamentos da ginástica. E as testemunhas fizeram uma série de queixas contra o comportamento do garoto o desacreditando.

Ângelo não teve acesso à tais depoimentos.

Por parte da diretora de governança do Pinheiros, a recomendação era que, após a suspensão de 30 dias, Ângelo Assumpção fosse reintegrado à equipe, mas, segundo Blanco, não era possível voltar a trabalhar com alguém que havia quebrado a confiança.

No mesmo relatório o clube deixa claro que Ângelo Assumpção é um atleta com potencial em desenvolvimento para ser trabalhado.

Renata deixou claro que o Pinheiros errou ao administrar a situação no primeiro caso de acusação de racismo, em 2015. Na oportunidade, um vídeo divulgado pelo jornal “O Globo” mostrava Arthur Nory, Fellipe Arakawa e Henrique Flores fazendo brincadeiras de teor racista contra Ângelo Assumpção. O vídeo repercutiu mal para o clube, mesmo o episódio tendo ocorrido no ambiente da seleção brasileira e em Portugal.

Segundo Renata, ali o clube falhou ao lavar às mãos sobre o caso.

A verdade, segundo ela, é que depois daquilo Nory só evoluiu, enquanto Ângelo, que naquele ano tinha sido campeão no salto na Copa do Mundo, declinou.

Nos bastidores do Pinheiros há conselheiros que defendem a tese de que o atleta deveria ter sido amparado à época e que consequentemente ele não conseguiu trabalhar em sua cabeça a ofensa racista exposta em rede nacional.

De lá pra cá Ângelo caiu em depressão, sofreu duas graves lesões, teve alguns maus resultados no Pinheiros e fez novas acusações de racismo, sendo suspenso e demitido.

No inquérito que estava sendo guardado sob segredo de Justiça, divulgado pela “Folha de S.Paulo” e pelo Uol, além de agora a reportagem da ESPN, o que chama ainda mais a atenção é o dialogo final entre Marcel Camilo, advogado de defesa dos acusados e membro do departamento jurídico da Federação Paulista de Ginástica, e o advogado do Pinheiros, que tinha acabado de serem comunicados que o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) da Confederação de Ginástica, em Brasília, abriria outro inquérito.

Como afirma Heraldo Panhoca, o homem que criou a Lei Pelé e que mais conhece do assunto no país: “Se o TJD for inerte, joga fora e segue para a Justiça comum”.

Será que não é o caso? Afinal racismo é crime.