Há histórias de uma reportagem que não cabem em uma única matéria para televisão, como a do ginasta Ângelo Assumpção, 24 anos, 18 deles dedicados intensamente ao esporte.
Angelo é um atleta de alto rendimento que ficou conhecido, em 2015, por dois eventos que marcaram sua vida. O primeiro, positivo, foi a medalha de ouro no salto na etapa de São Paulo da Copa do Mundo em São Paulo, quando voou tão alto e aterrissou tão perfeitamente. Sua apresentação fez muitos especialistas do esporte cravarem: “Angelo, o primeiro medalhista negro a representar o Brasil em um campeonato importante, será o substituto do fantástico medalhista olímpico e mundial, Diego Hypólito.”
Logo em seguida, ainda com os amigos de clube e seleção, o garoto que tinha 18 anos à época, foi alvo de ataques racistas desferidos pelos próprios companheiros de ginástica. O episódio deixaria cicatrizes, praticamente irreversíveis, em sua trajetória humana e esportiva.
Para Angelo, ficou o trauma. Para os atletas envolvidos na lamentável agressão, uma pena de 30 dias de suspensão pela CBG (Confederação Brasileira de Ginástica).
Assim Angelo seguiu, em meio à depressão, em meio aos olhos tortos da comunidade da ginástica, que nunca fez questão de estar ao lado dele para saber se o atleta da seleção precisaria de algum auxílio psicológico. Ao contrário, com o passar do tempo, Angelo foi sendo cada vez mais excluído do esporte que tanto se entregou desde criança.
Os ataques racistas continuaram a assombrar sua rotina e a comprometer seu desempenho em treinos e competições. De lá para cá, o ginasta humilde do extremo da Zona Leste de São Paulo enfrentou séria lesões e cirurgias até que, um dia, foi tirado da cena.
Tudo aconteceu há um ano, quando o ginasta, cansado de ouvir ataques e ofensas, inclusive de membros da comissão técnica, resolveu relatar os fatos e pedir ajuda à diretoria do Esporte Clube Pinheiros.
Era o primeiro grito, mas o efeito foi contrário e resultou, em novembro de 2019, na demissão do atleta que representou o clube por quase 18 anos.

Racismo, um debate que precisa ser levado a sério
Mais do que ter coragem para denunciar os crimes racistas junto à governança do clube, difícil também foi procurar a imprensa para revelar as mazelas.
Primeiramente Angelo falou com a reportagem do “Esporte Espetacular”, da “TV Globo”, que, além de dar luz ao sério problema enfrentado pelo ginasta, também revelou o vazamento de parte de um relatório da governança do clube. O documento trazia outras denúncias na ginástica do Pinheiros, entre elas, além do racismo, supostos casos de maus tratos com alunos da escolinha, divisões de base da ginástica.
A reportagem da ESPN, exibida dois dias depois, abordou exclusivamente o caso de racismo e os supostos indícios de “rachadinhas” dentro do clube.
Assim que as reportagens foram ao ar, o foco de alguns integrantes do clube foi outro: se mostraram mais preocupados com quem vazou parte do relatório da governança do que com as denúncias.
Fontes consultadas pela reportagem da ESPN acham estranho ter vazado apenas parte, já que, segundo as mesmas, no texto do relatório ainda inédito existem indícios diversos envolvendo ex-dirigentes, atualmente afastados pelo atual presidente Ivan Castaldi.
Procurado pela ESPN, Castaldi disse: “Aguarde, está sendo terminado o relatório da governança”. A reportagem apurou que este relatório está sob a responsabilidade de Renata Campos, conselheira do clube.
Em postagens em um grupo no Facebook chamado “Pais Pinheirenses", o principal foco é descobrir quem foi o responsável pelo vazamento de um documento secreto e comprometedor, com raros questionamentos sobre tudo que vem acontecendo com o atleta, hoje desempregado e sem clube.

Uma segunda chance
Há um ano, Angelo se vira como pode na tentativa de se manter em forma, coisa que é quase impossível para um atleta de alta performance. Mesmo assim, ele treina na sala de casa com colchões improvisados e outros exercícios que realiza no quintal.
Enquanto os dirigentes tentam apagar o fogo e a péssima imagem que ficou sobre o racismo estrutural no clube, algumas raras pessoas apresentaram solidariedade ao atleta, que só quer um clube para treinar.
Gente como James Carvalho, que o ajudou com aparelhos para treinar em casa, e muitos artistas, jornalistas e pensadores, defensores da igualdade racial no Brasil, como Lázaro Ramos, Tom Mendes, João Marcos Bigon, Marcos Lucas Valentim, Djeff Amadeus, Róger Cipó, Roberto Salim, Eliane Alves Cruz, Silvio Almeida, Breiller Pires, Gabriel Oliveira Yjalade, Fernando Barcellos, Fernando Santos, Marcelo Carvalho, AD Junior, Hélio de la Peña, Ernesto Xavier, Jorge Pretto, Tadeu Kaçula e Bruno Gagliasso, enfim, cidadãos preocupados com o futuro do atleta e com as causas cruéis que o racismo traz à sociedade em geral.
No caminho, outros raros políticos também estão estendendo as mãos para que Angelo retorne, o mais rápido possível, aos treinos e competições.
Um deles é o secretário de esporte de São Bernardo do Campo, Alex Mognos, que se comprometeu a levá-lo para a cidade assim que a eleição passar. Mas, para isso, Angelo precisa de um patrocínio que possa, além de pagar um salário, contratar um técnico e um fisioterapeuta.
Dos atletas em atividade, Angelo garante não ter recebido telefonema de ninguém, apenas indicações de ex-atletas, como a Senadora Leila Barros, do vôlei, e do diretor geral da CBG, Henrique Mota. Inconformados com a situação, eles tentam contato com outros clubes do Brasil a fim de recolocar o atleta no esporte.
Nossa reportagem também falou com Rogério Sampaio, medalhista olímpico do judô e CEO do COB (Comitê Olímpico Brasileiro). Ouvimos também o consultor jurídico da CBG, Paulo Schmitt, para saber como a entidade pode acolher e resolver o grave problema pelo qual Angelo vem passando.
A única instituição esportiva que não atendeu ao nosso pedido de gravação foi a FPG (Federação Paulista de Ginástica), presidida há 3 anos e meio pela mãe do medalhista olímpico Arthur Zanetti, Roseane Nabarrete Zanetti.
Quando entramos em contato, ela nos disse que ligaria para o Pinheiros afim de colher informações do caso. Perguntamos a ela se entraria em contato com Angelo, mas Roseane disse que não tinha o contato do atleta. Completou afirmando que o caso era complicado, pois está em campanha para a reeleição e quem vota nela é o clube. Disse também que consultaria o departamento jurídico da FPG para saber se poderia ou não oferecer qualquer tipo de ajuda ao atleta.
Nada aconteceu de lá para cá, pelo contrário. Roseane não ouviu a versão do ginasta, abriu uma investigação que corre em segredo de justiça pelo TJD da ginástica e nunca mais respondeu às nossas mensagens.
