Destaque no arremesso de peso desabafa ao falar como é ser atleta no Brasil: 'Não é fazer Olimpíada e esperar aparecer um campeão'

Meu nome é Willian Denílson Venâncio Dourado. Sou casado com Leidyane Kássia Francischini Dourado. Tenho 26 anos, sou natural de Penápolis, interior de São Paulo, e sou atleta da equipe brasileira de arremesso com peso.

Comecei minha carreira no atletismo aos 16 anos, em São José do Rio Preto.

Não conhecia a modalidade antes, mas minha tia Ana Tércia Venâncio Soares já praticava atletismo e, com meu tio Rogério Meirelles Franco, me incentivou a conhecer a modalidade. Ela sempre me dizia que eu tinha algum potencial.

Depois de muita insistência deles, eu resolvi aceitar o convite também por causa de um desentendimento com a minha mãe, Fernanda Venâncio. Algo que já foi resolvido entre nós.

Em 2010, fui para São José do Rio Preto com meus tios. Fiz um teste com o treinador do Duda, o professor Aristides, mais conhecido como Tide. Ele era treinador de velocidade e saltos. O teste consistiu em uma prova de 30 m pra ver se eu tinha potencial para corrida.

Não obtive sucesso.

Ele não viu potencial em mim para velocidade e assim o treinador Flávio dos Santos Silva, responsável pela iniciação dos atletas, começou trabalhar comigo para achar uma prova em que eu pudesse ter algum potencial.

Fizemos testes em diversas provas até que apresentei algo no arremesso de peso e assim começamos a treinar somente para isso.

Trabalhei com o Flávio até o início 2011, conhecendo depois o professor Claudinei Vaz de Lima, com que treinei até 2012. Ele era também coordenador da Associação Riopretense Pró Atletismo (Arpa), da qual sou filiado e que realiza os pagamentos com apoio da prefeitura. Por ter que montar treinos e coordenar a equipe, ele ficou sobrecarregado. Assim, voltei a treinar com o Flávio.

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Nunca imaginei representar a seleção brasileira de atletismo, pois, para mim, que via grandes atletas vestindo a camisa da seleção, era algo impossível. Mas continuei meus treinamentos, me superando e sonhando.

Sempre foi complicado para receber salários porque geralmente pagam dez meses, e isso para um atleta que busca chegar ao alto rendimento é muito difícil, pois são horas e horas de dedicação para chegar ao alto nível e se superar a cada dia.

Meu salário mensal atual é de aproximadamente R$ 1.600, pago pela prefeitura de São José do Rio Preto. Sendo que tenho despesas tanto pessoais quanto profissionais para desenvolver meus treinamentos. A prefeitura disponibiliza ônibus para nos levar para viagens que são limitados a 3, 4 ou 5 por ano. Na temporada toda a gente compete muito mais, sendo três por mês.

Também não temos auxílio alimentação nem auxílio para nos hospedar nos locais onde vamos competir.

Isso com exceção dos Jogos Regionais e dos Jogos Abertos do Interior, que têm os alojamentos bancados pela cidade-sede e eles arcam com alimentação. Mas são eventos que acontecem apenas uma vez por ano.

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O meu salário serve para manter minha casa, serve para gastos com viagens e outras despesas para que eu possa continuar em atividade no atletismo. O mesmo vale para outros atletas de minha equipe e treinadores que, além de terem que gastar para viajar conosco, também tiram do seu orçamento pessoal para acompanhar seus atletas em competições.

Não fomos informados de forma clara que haveria realmente o corte para professores, técnicos e atletas.

Foi pago [pela Secretaria de Esporte de São José do Rio Preto] apenas metade do salário de março para todos os funcionários. Alegaram que seria pago somente os dias trabalhados. [A partir do início da quarentena] cortaram totalmente os salários.

A atual secretária de esporte nunca foi conhecer nossa modalidade e nossas conquistas ou ver o que poderia ajudar. Foi lá [onde treinamos] uma única vez para supervisionar a obra de reforma na pista de atletismo, que está sendo feita pela prefeitura.

Após o corte de pagamento feito pelo prefeito e pela Secretaria de Esporte, professores técnicos e atletas começaram a se manifestar e protestar. Fizemos uma manifestação com segurança, com todos usando máscara e mantendo um metro e meio de distância entre cada um. Avisamos a imprensa local para ter visibilidade e divulgar nossa causa.

Então, um vereador conhecido como “Zé da Academia” tentou passar um projeto de lei para que fosse retomado o pagamento, mas a prefeitura vetou. Solicitamos ação dos outros vereadores. E eles ajudaram a nossa causa. Foram 14 votos a favor e nenhum contra.

Mas a prefeitura entrou com recurso na Justiça, uma Ação Direta de Inconstitucionalidade, e ganhou.

Após isso foi solicitado uma reunião com o prefeito, na qual uma pessoa cometeu uma gafe. Disse: “Eu não acho justo uns receberem e os outros não. Então, prefiro não pagar ninguém”.

Vale lembrar que esse dinheiro já está no orçamento da cidade, já está nos cofres à disposição da causa.

Mesmo assim preferiu não pagar ninguém.

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Os professores, os técnicos e os atletas, todos sem salários, montaram um projeto e apresentaram. É uma proposta para que as aulas sejam dadas, via online ou via aplicativos. Uma solução que deveria vir do poder público. Não de fora.

Disseram que analisariam a nossa proposta, mas até agora nada.

Enquanto eles estudam e tentam resolver, a gente amarga três meses sem salários.

Com relação ao meu futuro, atualmente estou entregando currículo em todos lugares. Já levei em usina, mercados, lojas, enfim...

Caso eu só receba “não”, vou sair de cabeça erguida e procurar emprego fixo, sabendo que tudo o que foi possível para realizar meu sonho eu fiz. E vou trabalhar em outro emprego, pois o atleta trabalha sim!

Diferente do que muitos pensam, acordamos cedo, levamos nosso corpo diariamente ao limite e trazemos sustentos para nossa casa com a profissão que escolhemos.

Nosso país não tem cultura de plantar hoje para colher amanhã, como muitas nações fazem. O atleta é lapidado ao longo dos anos para que possa obter o resultado desejado. Não é simplesmente fazer a Olimpíada no Brasil e esperar que apareçam campeões.

Em 2017, quando fiz minha melhor marca pessoal [20,22 m no Circuito da FPA, em Campinas] e a segunda melhor marca da história do atletismo no arremesso de peso, acreditava que eu receberia alguma ajuda da Confederação Brasileira de Atletismo, mas não tive nenhum apoio. Isso me frustrou muito e me entristeceu demais. Por isso, quando digo que sou realista é porque não faço nada esperando pela ajuda de dirigentes, prefeitos, vereadores ou quem quer que seja.

Meus objetivos só dependem de mim e do meu treinador. Se o apoio não vier e não der mais para ser atleta, sairei de cabeça erguida por toda luta que lutei!”

*Depoimento ao repórter Marcelo Gomes