Como treinar: infectologista dá dicas para atletas profissionais e amadores em fase de quarentena

A infectologista Maria Beatriz Gandra Souza Dias é diretora clínica do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Ela não é um rosto conhecido dos canais de televisão, que têm apresentado vários médicos infectologistas para falarem sobre a gravíssima crise de saúde causada pela COVID-19.

Doutora Maria Beatriz quase não tem tempo para fazer outras coisas que não estejam ligadas à missão de coordenar sua equipe no combate à doença em um dos hospitais mais famosos e respeitados do Brasil.

Inicialmente, a entrevista ocorreria em homenagem ao médico infectologista, data comemorada em 11 de abril.

O dia foi escolhido por causa da descoberta do médico Emílio Ribas que, por intermédio de pesquisa, provou que a febre amarela era causada pele picada de um velho mosquito conhecido por todos nós, o Aedes aegypti.

“Para falar a verdade, eu nem sabia que o dia 11 era o dia do infectologista”, respondeu a médica, que também pediu para que não fizéssemos muitas perguntas, pois estava muito cansada. Claro, dá para entender naturalmente o que ela e os companheiros da saúde, não só do Sírio, como do Brasil inteiro, estão passando.

Assim, antes de mais nada, deixamos aqui toda a nossa reverência e respeito aos profissionais que se entregam em salvar vidas, assim como os doutores Emílio Ribas e Maria Beatriz Gandra Souza Dias.

Sem a pretensão de tomar o tempo precioso da profissional da medicina, a reportagem da ESPN elaborou apenas três questões relacionadas ao esporte de alto rendimento e a prática esportiva por atletas amadores.

ESPN - É verdade que o esportista de alto rendimento tem mais resistência contra a COVID-19?
Dra. Maria Beatriz - Normalmente, os esportistas têm muito boa saúde, exceto pelas lesões de esforço repetitivo (LER). Como são jovens, têm melhor evolução, não pelo esporte, mas porque para a COVID-19 o principal fator de risco para má evolução é a idade, 60 anos.

ESPN - Como um atleta de alto rendimento deve se prevenir do vírus e como ele deve treinar sem perder a condição física nesse tempo de quarentena?
Dra. Maria Beatriz - Ao contrário de países asiáticos e europeus, no Brasil, o afastamento social tem sido recomendado, mas não houve proibição de sair à rua, mas há a proibição de aglomeração, portanto, o atleta pode manter o treinamento, desde que o faça sozinho.

ESPN - O que a senhora tem para falar a um atleta amador que insiste em correr nas grandes capitais, onde a incidência do vírus é maior?
Dra. Maria Beatriz - Continue correndo, desde que sozinho e, de preferência, ao ar livre. Se for correr em esteira, em um ambiente fechado, abra portas e janelas e obedeça uma escala, para que o local do treino seja frequentado apenas por você naquele horário.


Para o corredor de marcha atlética, Caio Bonfim, as recomendações da Dra. Maria Beatriz combinam com sua rotina de treinos.

Antes da pandemia, o atleta, quarto colocado na marcha 20km nos Jogos Olímpicos do Rio-2016 e bronze no Mundial de Londres-2017, já havia montado uma academia em casa com equipamentos básicos para manter a forma.

Os treinos, antes feitos nas ruas e no estádio municipal de Sobradinho, cidade satélite a 50 km de Brasília, hoje são realizados parte na academia particular da própria casa e, de vez em quando, na zona rural da cidade, onde o atleta marcha sozinho, acompanhado de longe e de carro pela treinadora e mãe Giannetti Sena.

“É muito chato treinar sozinho, mas não é só o Caio, não. Todos os atletas do nosso projeto, o Centro de Atletismo de Sobradinho (CASO), foram orientados a fazer a mesma coisa, ou seja, marchar em horários e locais onde não se encontre público, de preferência, em esteiras para quem as têm em casa”, disse Giannetti.

“É muito ruim treinar sozinho, mas é o que temos que fazer e é o que os atletas da elite da marcha atlética mundial também estão fazendo. Portanto, não dá para a gente garantir a excelência da forma de um atleta do alto rendimento, mas também não há perda, e isso é muito importante nesse momento”, completou o corredor.