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À ESPN, Rebeca Andrade fala de sonhos, saúde mental, fama e defende liberdade em uniformes: 'O que impede o uso de roupa confortável?'

Após decidir dar uma pausa na carreira em 2025, Rebeca Andrade, maior medalhista da história do Brasil em Jogos Olímpicos, está pronta para voltar às competições neste ano.

Em conversa exclusiva com a ESPN, Rebeca comenta bastidores de sua decisão, como foi a conversa com seus familiares e detalhe seu retorno.

“(A pausa) Partiu da Rebeca, partiu de mim mesma. E eles (familiares) concordaram. Eles entenderam que, sim, era realmente o melhor momento para fazer essa pausa e super respeitaram meu pedido. Foi muito tranquilo.”

É comum atletas tirarem um período sabático após uma sequência de grandes competições. A pausa de Rebeca, porém, foi além de um descanso após um 2024 vitorioso, com quatro medalhas olímpicas em Paris. A escolha passou principalmente por sua saúde física e mental.

“Eu fiquei um longo período sem competir. Foi de extrema importância para o cuidado, principalmente mental, mas físico também. Foram momentos incríveis que eu pude aproveitar ainda mais com minha família, ter um pouco mais de descanso, fazer viagens para lugares que eu gostaria, que eu não tinha tempo pela responsabilidade de estar sempre dentro do ginásio, né? Aquele comprometimento”, disse.

A ginasta conta que sua volta às competições está sendo construída de maneira tranquila e sem pressão.

“E essa volta também está sendo muito boa. A gente não está correndo com nada. Eu preciso voltar a fortalecer meu corpo para que eu me sinta preparada para voltar a fazer os aparelhos e tudo mais. Mas eu estou bem feliz”, completou.

Rebeca volta oficialmente às competições este ano, mas ainda não sabe quais torneios vai disputar. A decisão ficará por parte do técnico Chico, que acompanha a ginasta desde a infância.

Próximos objetivos: 'Eu gostaria muito...'

Campeã mundial, maior medalhista olímpica da história do Brasil, com seis medalhas, vencedora do Prêmio Laureus... Com tantas conquistas, a pergunta que fica é: Ainda existem sonhos para realizar? Segundo Rebeca Andrade, existem.

“Eu gostaria muito que a gente classificasse a equipe para estar em Los Angeles e que eu pudesse disputar uma final dos aparelhos em que vou me apresentar, obviamente.”

“Queria muito voltar para o Brasil com uma medalha na paralela, que é o meu sonho. Paralela é o meu aparelho favorito. Já tenho a minha medalha de Mundial, de Copa do Mundo. Está faltando só a olímpica.”

As paralelas, também conhecidas com barras assimétricas, são um dos quatro aparelhos da ginástica artística feminina. Nele, a ginasta executa diversos movimentos em duas barras de alturas diferentes.

Rebeca se anima com a prova, mas também deixa claro que não é uma medalha que vai mudar a sua trajetória na ginástica.

“Mas, se não acontecer também, não vai ser algo em que eu vou passar o resto da minha vida pensando ‘nossa, eu fui uma atleta horrível porque não consegui a medalha que eu queria’. Não tem isso”, disse.

“Mas vou treinar bastante, me dedicar muito para que essa medalha venha, porque eu gosto muito de paralela”, completou.

Com uma carreira repleta de conquistas e marcada também por lesões no joelho, Rebeca se aposentou das provas de solo em agosto de 2025. A decisão da ginasta passou por “entender limites”. Agora, a brasileira de 26 anos segue com intensidade os treinos dos três aparelhos (trave, salto e barras assimétricas) em que ainda compete.

“Por mais que eu não faça solo, eu tenho que, ainda assim, me dividir nesses três aparelhos, porque também tem a possibilidade de finais. Consequentemente, fazendo uma boa série na classificatória, você se classifica. E, se eu fizer uma boa série na final, tem uma medalha também, que é maravilhosa. Então o foco fica ali, dividido nesses três aparelhos.”

A próxima edição dos Jogos Olímpicos acontece em 2028, em Los Angeles, nos Estados Unidos, e existe uma grande expectativa em relação à ginástica brasileira, que vive um antes e depois do fenômeno Rebeca Andrade.

Multicampeã e dona de uma história inspiradora, Rebeca se tornou um ícone brasileiro. A ginasta que segue inspirando uma geração de meninas vê um aumento da popularidade do esporte.

“Desde Tóquio, na verdade. Tóquio já tinha subido bastante, mas era aquela época meio doida, de pandemia. E agora, depois de Paris, vários ginásios, vários lugares do Brasil, basicamente têm vagas para crianças e adolescentes poderem praticar o esporte”, disse.

“É muito legal. E não só pela ginástica, mas pelos esportes em geral. Porque, às vezes, pode ser que a criança não leve tanto jeito para a ginástica, mas a ginástica dá para ela um jeito de se movimentar que serve para outro esporte, e ela começa a se destacar naquele outro”, defendeu.

Liberdade para as meninas: 'Se ela se sente bem'

Símbolo e espelho para uma nova geração, Rebeca Andrade entende o peso de suas ações e falas. Ao levantar a pauta da responsabilidade que carrega, a atleta lembra como é fundamental a liberdade dentro da modalidade.

“Acho que hoje a gente tem tido cada vez mais pessoas para se espelhar, sabe? Dentro do esporte, sendo aqui no Brasil ou fora.”

Rebeca relembra a luta das alemãs pela não sexualização das meninas durante as competições, pauta defendida pela equipe nos Jogos Olímpicos de Tóquio e em grandes competições, ao se apresentarem com macacões longos.

“Acho que hoje, baseado no que eu vejo, as mulheres também têm mais voz para falar sobre as roupas que deixam ou não deixam elas confortáveis. Alguns anos atrás, a Alemanha anunciou que iria usar uma roupa que cobriria até a perna, que não era o collant cavado, porque as meninas não se sentiam muito confortáveis”, comentou.

“Então acho que isso é muito positivo também. A gente vê em outros esportes em que as mulheres têm que usar só aquela calcinha estilo biquíni, e agora estão ali também lutando para conseguir usar um short, uma bermuda ou algo assim, para se sentir mais confortáveis”, completou.

Questionada sobre o apoio e seu posicionamento em relação às antigas exigências nos collants de competição, Rebeca diz que cada atleta deve usar o que achar confortável.

“Eu acho que a pessoa tem que estar confortável, e isso é o que importa, sem afetar a forma como ela vai competir. O que impede ela de usar um short, uma bermuda, uma calça, um collant que vai até o pé, o collant cavado? Se ela se sente bem… por exemplo, eu me sinto super bem com o collant que a gente usa. Nunca me senti desconfortável. Então, para mim, está tudo certo”.

“Agora, se a atleta que está do meu lado não se sente bem, o que impede ela de usar uma roupa que a deixe confortável, sabe? Eu acho que na vida toda deveria ser assim. Eu acho que deveriam respeitar as mulheres dessa forma. Ela tem que estar bem, e isso é o que importa”, completou.

Depois do protesto, a Federação Internacional de Ginástica passou a permitir o uso de unitards, os famosos macacões, em competições. Shorts ainda não são permitidos, mas a liberação de uma peça maior já foi um grande passo.

É sobre ações como essa, de persistência, que Rebeca defende. Ao final da entrevista, ela ainda deixou um recado para todas as novas ginastas do Brasil:

“Que elas acreditem muito nelas e que tenham referências de onde querem chegar e como gostariam de ser no futuro. Que se empenhem muito e que, por mais que tenham referências fortes, a força vem de dentro delas.”