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Brasileiro eliminado por cavalo machucado detalha relação com animal: 'Cuidados de seleção'

Pedro Veniss durante as Olimpíadas de Paris 2024 Luis Ruas | CBH

O Brasil encerrou sua participação no hipismo nas Olimpíadas de Paris sem medalhas. Uma grande expectativa era na disputa de saltos por equipe, mas o time brasileiro acabou não passando do qualificatório, realizado na última quinta-feira (1), porque Pedro Veniss e seu cavalo Nimrod do Muze acabaram desclassificados.

Sem os pontos do conjunto eliminado, a equipe do Brasil já não tinha mais chances de avançar para a final. A desclassificação de Pedro aconteceu porque, após uma avaliação veterinária pós-prova, foi encontrado um machucado na barriga de Nimrod do Muze.

A regra da Federação Equestre Internacional (FEI) afirma que se há sangue na montaria, independentemente do grau e se por dano acidental ou proposital, o conjunto deve ser eliminado. Essa regra é justamente para proteger a saúde e bem-estar dos animais.

Em entrevista exclusiva para a ESPN, Pedro Veniss comentou sobre o acidente que causou sua eliminação da disputa por equipes.

“Infelizmente, essa fatalidade tirou nossa chance de medalha por equipe. Agora, infelizmente, alguma coisa ali, não sei, se foi o estribo que prensou na barrigueira que fez como se fosse beliscão e que fez esse machucadinho.”

“Muito duro de aceitar, mas, a única coisa que talvez pode servir é que no futuro eles vão rever essa regra e vão mudar. A comunidade hípica inteira está pedindo essa mudança faz tempo. São coisas que podem acontecer. Todo mundo que está perto dos cavalos sabe o quanto que a gente cuida bem deles.”

A Confederação Brasileira de Hipismo (CBH) também emitiu uma nota dizendo que esse ferimento era uma “assadura com leve vestígios de sangue causada pela barrigueira com elástico que, por ser um material novo, ocasionou esse acidente, ou seja, não foi de maneira nenhuma ocasionado pela espora do cavaleiro.” A CBH até chegou a entrar com um recurso, mas acatou a decisão da FEI.

Pedro Veniss, que mora em Barcelona, na Espanha, detalhou como são os cuidados do seu cavalo e, que, mensalmente, são gastos até 3 mil euros, (cerca de 18 mil reais) com um animal desse nível.

“O cuidado com os cavalos é 24 horas por dia e sete dias por semana. Então, a gente está cuidando deles o tempo inteiro e são realmente cuidados como qualquer jogador de seleção brasileira, com massagem, gelo e tudo o que você pode imaginar que atleta de alto nível tem."

“Você realmente sente que esses cavalos são felizes. Eles adoram ser cuidados assim e adoram competir. Acho isso é o mais bonito do esporte, quando você tem esse sentimento, como eu tenho, do meu cavalo gostar de competir. Quando ele entra na pista, eu não tenho dúvida nenhuma que esse momento é um momento de felicidade para ele.”

Apesar da desclassificação na disputa por equipes, Pedro Veniss e Nimrod do Muze estavam aptos para competir na disputa individual de saltos, cuja rodada de classificação aconteceu na última segunda-feira (05). Mesmo tendo zerado (desempenho perfeito, sem derrubar nenhum obstáculo) o percurso na disputa por equipes, Pedro ficou de fora da lista do técnico Philippe Guerdat, que só podia inscrever três conjuntos por país.

“Nosso plano seria eu competir individual, mas como aconteceu a eliminação, o Rodrigo (Pessoa) acabou não saltando. Então, eu entendi perfeitamente a escolha do técnico de não me colocar no individual e aceitei ficar de fora.”

A desclassicação de Pedro na disputa por equipes fez com que Rodrigo Pessoa, campeão olímpico em 2004, não saltasse para preservar seu cavalo Major Tom para a disputa individual porque o Brasil já não tinha chance de se classificar para a final, uma vez que não há mais um descarte. O cavaleiro, medalha de ouro em Atenas, comentou sobre o ocorrido com o companheiro de equipe.

“A gente ficou muito desapontado, porque era uma expectativa grande de medalha na disputa por equipes. Então, realmente foram dois dias difíceis, mas, do outro lado, a regra é a regra, a gente tem que cumprir. Eu não digo que a regra é justa, mas é a mesma coisa para todo mundo.”

“Falhamos nesse ponto, não cumprimos a regra e isso tirou nossa chance de participar por equipes, mas depois tivemos que nos remotivar, botar o foco e classificar (no individual) para ter uma chance de chegar na final", completou Rodrigo Pessoa, que disputou 8 Jogos Olímpicos na carreira e tem três medalhas.

Stephan Barcha, que foi 5º lugar do individual e ficou muito perto do pódio, também contou como o acidente com a montaria de Pedro Veniss impactou a equipe como um todo.

“Foi duro porque a gente sabia que a gente tinha a possibilidade de medalha. Quando eu entrei na pista, eu já sabia do problema, mas não da decisão do juiz. Foi um dia difícil, a gente foi como uma equipe. Eu falei para todo mundo: ‘Aqui se ganha junto e se perde junto’. Se a gente fosse medalha, todo mundo seria. A gente teve que seguir porque o objetivo era a melhor classificação possível para o Brasil.”

Stephan passou por um momento parecido, na Olimpíada do Rio em 2016, quando acabou eliminado da da disputa por equipes porque as esporas machucaram seu cavalo.

Procurado pela ESPN, o presidente da Comissão Nacional de Medicina Veterinária Legal do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), Dr. Aníbal S. Felipe da Silva, comentou o ocorrido com o conjunto formado por Pedro Veniss e Nimrode Muze.

“A integração humano-equino para a prática do hipismo é saudável, mas a ocorrência de lesões com sangramento, ainda que mínimas como a sofrida pelo cavalo Nimrode Muze, montado por Pedro Veniss, em 1º de agosto último, promove a desclassificação do conjunto tamanha é a preocupação nesse esporte com o Bem-Estar Animal.”

“A equitação é uma arte que exige muita sensibilidade para a máxima harmonização de desempenho. E isso não se obtém com violência ou agressão, sendo as regras vigentes extremamente rigorosas nesse sentido. Existe uma intensa comunicação tátil entre os componentes humano e equino, além dos equipamentos de montaria e um desempenho ao nível Olímpico só ocorre com plenitude de saúde física e mental do conjunto.”

Para concluir, Dr. Aníbal S. Felipe da Silva fez um alerta.

“Embora eventualmente possam ocorrer lesões, quando ocorrem, elas são causadas involuntariamente e/ou acidentalmente; e são raras, embora não haja uma estatística oficial junto à Confederação Brasileira de Hipismo, o que seria recomendável.”