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O que explica Rebeca Andrade fora do pódio na trave das Olimpíadas após queda de Simone Biles?

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Alice D'Amato leva ouro na trave; Rebeca Andrade e Simone Biles ficam fora do pódio (1:31)

Rebeca e Biles ficaram em 4ª e 5ª, respectivamente; a norte-americana, estrela da ginástica em Paris, sofreu uma queda durante a apresentação (1:31)

Rebeca Andrade fora do pódio após a final da trave nas Olimpíadas de Paris 2024 – assim como a norte-americana Simone Biles, que caiu do aparelho – mexeu com a torcida do Brasil logo nas primeiras horas de segunda-feira (5). Mas o que explica a brasileira sem medalha, mesmo ela tendo sido uma das poucas a não perder o equilíbrio entre as finalistas durante a disputa?

Antes de mais nada, é importante explicar como as notas são definidas na ginástica: a avaliação final é definida em dois quesitos, uma parte em relação à dificuldade, outra na execução. Nessa segunda parte, Rebeca foi a vice-líder da final, pontuada com 8,233, atrás apenas da italiana Alice D'Amato, que recebeu 8,566 e acabou ficando com a medalha de ouro.

Para Rebeca, então, a nota de dificuldade, 5,700, foi decisiva para a soma 13,933, que a deixou fora do pódio – apenas 0,1 a mais seria suficiente para o bronze, que ficou a também italiana Manila Esposito, com 14,00 (5,800 de dificuldade e 8,200 de execução). A prata foi para a chinesa Yaqin Zhou, com 14,100 (6,600 de dificuldade, a mais alta da final, e 7,500 de execução).

A definição das duas notas na ginástica envolve até 12 jurados, sendo nove diretamente na banca. Para os juízes de dificuldade, dois profissionais observam quais movimentos foram apresentados e definem quanto cada um vale para definir a avaliação. Quanto mais difícil a habilidade, mais alta será a nota. Uma apresentação tem que ter oito elementos e os oito mais difíceis são contados para a pontuação

Na classificatória para a final, por exemplo, Rebeca Andrade foi a terceira melhor ginasta no total, atrás de Zhou e Biles. A nota de dificuldade da brasileira foi de 6,100, portanto, mais alta do que os 5,700 que ela recebeu na final nesse quesito. Todos os especialistas da ginástica apontaram o mesmo motivo para isso: a falta de conexão entre alguns dos movimentos apresentados.

"Ela não conseguiu fazer as ligações de maior dificuldade que ela tem. Após a reversão sem mãos, ela não chegou totalmente equilibrada e preferiu não arriscar para não ter o perigo da queda. Isso foi um dos fatores que acabou fazendo com que a série dela saísse para uma nota de dificuldade menor", explicou Denise Righi, coordenadora da ginástica do Pinheiros e árbitra internacional, ao ESPN.com.br.

O que nos leva a outra pergunta: afinal, o que é avaliado para definir a nota de dificuldade? Segundo o livro de regras da Federação Internacional de Ginástica (FIG, na sigla em inglês), cada grupo de movimentos é representado por uma letra, de A a J, sendo o A o do tipo "mais fácil", valendo 0,10; e J, o mais difícil, valendo 1,00 – B vale, 0,20; C, 0,30 e assim sucessivamente.

O valor de conexões é descrito em um tópico a parte nos regulamentos internacionais e dá bônus de 0,10 a 0,20 a cada movimento ligado. Por exemplo, se uma ginasta conecta três elementos repetidamente com bônus de 0,10 cada, ela pode somar 0,30 a sua nota final. Há bônus, porém, já para apenas dois elementos conectados e não há limite para essas conexões feitas (além, claro, da física).

O próprio técnico de Rebeca, Francisco Porath Neto, o Chico, reconheceu que uma ligação que faltou para a brasileira na apresentação da trave seria suficiente para o pódio. Isso por que um bônus de 0,10 (o mais baixo para uma conexão) é superior do que a distância que a separou da nota do bronze de Esposito.

Indo a para a parte de execução da nota, Denise Righi citou também o ritmo da série de Rebeca, que também é um dos pontos principais avaliados pelos árbitros, ao lado da parte artística da apresentação e também possíveis faltas cometidas na performance.

"Ela teve alguns desequilíbrios que não foram grandes, mas, em média, ela perdeu 0,30. E também o ritmo da série dela foi um pouco mais lento do que ela costuma fazer, e isso acaba perdendo bastante na apresentação artística", disse a especialista sobre a execução de Rebeca.

O regulamento da FIG sobre esse ponto ressalta a importância também das conexões, que acabaram sendo cruciais para Rebeca. "A transição entre movimentos e elementos deve ser suave e fluída, sem paradas desnecessárias ou movimentos preparatórios prolongados antes dos elementos. O exercício não deve ser uma série de elementos desconectados."

Na comparação com as eliminatórias, por exemplo, caso Rebeca repetisse a nota de dificuldade de 6,100 e a execução de 8,400 (contra 5,700 e 8,233 que ela teve, respectivamente, na final), sua soma de 14,500 lhe daria o ouro, superando os 14,366 de D’Amato – o mesmo, claro, aconteceria para Biles e Zhou, melhores na classificação, mas que acabaram se desequilibrando na disputa por medalha.