Quando se imagina um roteiro de um filme, o personagem principal geralmente passa por altos e baixos até um final feliz ou triste. No caso de Rafaela Silva, do judô, esse roteiro foi digno de prêmio e ganhou mais uma cena inspiradora com a medalha de bronze na disputa por equipes nas Olimpíadas de Paris.
A obra, no entanto, ainda não está perto dos créditos já que a judoca pretende seguir competindo até as Olimpíadas de Los Angeles em 2028 e começou lá atrás, em 1992, quando a Rafaela Silva nasceu.
Criada na Cidade de Deus, comunidade do Rio de Janeiro, a brasileria entrou para o esporte aos 8 anos no projeto Reação, do Flávio Canto, porque o pai queria que ela brigasse menos na rua.
11 anos depois, Rafaela conquistou a medalha de prata no Mundial de Judô de Paris e chegou com grande expectativa para sua primeira Olimpíada, em Londres-2012.
No entanto, a primeira grande queda no judô aconteceu. Logo nas oitavas de final, Rafaela foi desclassificada por um golpe ilegal. A judoca foi atacada nas redes sociais, foi vítima de racismo e respondeu com ofensas. Rafa acabou tendo que se isolar das redes e passou por uma depressão.
Então, nos próximos quatro anos lutando contra a doença, foi também conquistando títulos e preparando sua reviravolta. No Mundial de 2013, em casa no Rio de Janeiro, foi campeã mundial da categoria até 57kg e se tornou a primeira judoca brasileira a conseguir esse feito.
Três anos mais tarde, novamente na sua casa, conquista a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos em 2016, deixando a polêmica de Londres para trás.
Rafaela Silva estava voando e queria conquistar a medalha de ouro também nos Jogos Pan-Americanos, depois de levar para casa uma mundial e outra olímpica. Era a que faltava para a carreira dela e, após bater na trave em duas edições (prata em Guadalajara-2011 e bronze em Toronto-2015), subiu ao lugar mais alto do pódio em Lima, no ano de 2019.
No entanto, mais uma queda, essa ainda mais brutal. Um mês depois do ouro no Pan de Lima, Rafa testou positivo para a fenoterol, um broncodilatador usado para doenças respiratórias como asma e proibida pela a agência internacional antidopagem (WADA). A judoca alega que foi devido a um contato com um bebê, mas foi suspensa por 2 anos e perdeu a chance de disputar as Olimpíadas de Tóquio, em 2021.
Acelera o filme, acaba a suspensão, e Rafaela Silva está de volta aos tatames. Em 2023, nos Jogos Pan-Americanos de Santiago, conquista a medalha de ouro e desta a vez não precisa devolvê-la.
No ano seguinte, caminha para voltar a disputar os Jogos Olímpicos, de Paris, mas sua presença ainda é incerta porque tem concorrência na categoria. Ela acaba convocada, mas é muito questionada.
Na capital da França, perde no individual até 57kg na semifinal contra sul-coreana Mimi Huh e também perde o bronze para a japonesa Haruka Funakubo.
“Cheguei até uma semifinal olímpica oito anos depois e muitas pessoas me questionavam, se eu ia conseguir voltar para o alto rendimento. Acabei ficando sem medalha no campeonato individual no dia 29 (segunda). Saí daqui bem chateada porque eu sei o tanto que eu trabalhei, batalhei e queria essa medalha olímpica.”, disse em entrevista após a disputa por equipes.
O que parecia uma reviravolta incompleta, teve o seu ápice neste sábado, quando Rafa é selecionada para fazer a luta decisiva que decidiria a medalha de bronze para a equipe.
“Todo mundo estava preocupado se eu ia conseguir me reerguer depois de chegar tão perto de uma medalha e ficar no individual, mas eu sabia o quão importante eu para a seleção brasileira de judô e para o time. Então, a gente tem que se apoiar, às vezes algúem perde e outro ganha, e hoje, graças a Deus veio essa vitória.”
Esse novo “ápice” da carreira de Rafaela Silva ainda teve muito drama e suspense. Afinal de contas, o Brasil abriu 3 a 0 contra a Itália, mas os italianos reagiram e forçaram a luta de desempate, cuja categoria é definida no sorteio. No entanto, Rafa levou um susto.
“Quando a Kequinha (Ketleyn Quadros) perdeu, eu me perdi nas contagens e falei ‘não acredito que a gente perdeu de novo. Quando eu olhei para frente, estava empatado e eu só subi no tatame e pensei no sorteio. 57 (mentalizando a categoria dela). Eu queria lutar de novo e estava muito focada.”
A adversária foi novamente a italiana Veronica Toniolo, que ela já tinha vencido há alguns minutos na 4ª luta do confronto.
“A última vez que eu lutei com essa atleta da Itália, ela conseguiu me enrolar, falei para a Sensei (técnica) gente que luta assim só me enrola uma vez e entrei focada e determinada. Consegui essas duas vitórias para o Brasil. Então, eu estou muito feliz com essa medalha.”
O tom foi dramático porque o Brasil tinha aberto 3 a 1 e a Itália conseguiu reagir, enquanto a derrota no individual, começo da semana, ainda tinha marcas.
“Eu me machuquei na semifinal do individual, mas eu falei para o doutor. ‘Com uma perda só, mas a gente falei. Doutor, enrola aí que a gente vai para briga’. O judô brasileiro é isso, a gente sempre se entrega, independente de derrota ou de vitória ou de lesão, a gente sempre se levanta.”
Por fim, Rafaela Silva, dona de duas medalhas olímpicas, resumiu o que poderia ser o título de seu filme, que os créditos ainda podem demorar para aparecer.
“A Rafaela sempre volta. Eu consegui voltar 8 anos depois para uma Olimpíada e estou muito feliz de ter contribuído para uma medalha inédita para o judô brasileiro."
