Rebeca Andrade e Simone Biles disputaram, nesta segunda-feira (5), a final da trave na ginástica artística nas Olimpíadas de Paris. Incrivelmente, nenhuma das duas subiu ao pódio. A americana caiu e a brasileira fez uma execução que, para os árbitros, foi 'simples', o que revoltou muitos brasileiros. Como essas notas funcionam é uma das maiores dúvidas de quem acompanha - e envolve muito mais do que a plasticidade dos movimentos.
Não tem como fugir, todas as decisões da modalidade terão alguma contestação do público, pois nem todos os critérios são 'visíveis'. Foi assim também na final por equipes de 30 de julho, em que as brasileiras Júlia Soares e Lorrane Oliveira receberam notas criticadas por torcedores nas redes sociais.
Naquela época, a 'polêmica' se deu pelas avaliações no solo e nas barras assimétricas. A chinesa Zhou Yaqin fez uma apresentação com erros notáveis e tirou 13.200, bem próximo aos 13.233 da brasileira Júlia, que pareceu bem superior visualmente.
Já Rebeca, na final da trave, não caiu nenhuma vez e tirou 13.933, enquanto muitos brasileiros esperavam uma pontuação que superasse os 14.366 da italiana Alice D'Amato, que ficou com a medalha de ouro.
Vários critérios 'escondidos' do público em geral são levados em consideração pela banca avaliadora, que tem um crivo rigoroso. A coordenadora da ginástica artística feminina do Pinheiros e árbitra internacional, Denise Righi, contou à ESPN em detalhes como funciona o processo de pontuação.
Notas da ginástica nas Olimpíadas dependem de vários elementos
"A nota do ginasta é dividida entre o quanto ganha pelo nível de dificuldade da série - nota D - e o quanto perde na execução - nota E", explicou Denise. "A nota D é composta pelos oito elementos mais difíceis da apresentação, que são divididos de A até J, aonde A vale 0.1, B, 0.2, até J, 1.0. Eles podem ser acrobáticos (mortais, flics) e de dança (giros, saltos)".
Ou seja, para ter uma nota alta, o atleta precisa, primeiramente, escolher uma série difícil e, depois, executar todos os elementos obrigatórios, que também variam de valor. No caso do 'duelo' entre Júlia e Yaqin na final por equipes, a brasileira optou por uma apresentação que partia com 5.300 de dificuldade, enquanto a chinesa optou por uma de 5.500.
Esse 0.200 já faz diferença grande no mundo da ginástica. Para se ter uma ideia, se Júlia Soares tivesse feito uma série com nota de partida maior, teria desempenhado próxima a Flávia Saraiva (13.533), que tem o aparelho como uma de suas especialidades.
O mesmo se aplica na comparação com a apresentação de Rebeca Andrade (14.200) naquele solo, quase um ponto maior, segundo Denise. "A Júlia tem nota D mais baixa que da Rebeca. As acrobacias da Rebeca tem maior grau de dificuldade e menor desconto de execução", pontuou a árbitra internacional. "A apresentação artística tem um peso muito grande na nota final, tanto no solo quanto na trave, o que pode mudar o resultado".
Biles 'tirou' ouro de Rebeca na dificuldade
Ambas disputaram a final da trave. E foi nesse aparelho que Simone Biles tomou a liderança de Rebeca Andrade na quarta rotação da final individual - de novo, com uma nota de dificuldade maior: 6.400 contra 6.100 da brasileira. Na decisão, a americana escolheu, novamente, uma série mais desafiadora, mas errou e caiu.
Logicamente, não basta só escolher um conjunto difícil. O ginasta também deve cumprir elementos obrigatórios, que vão construindo a pontuação final. "A paralela, trave e solo têm quatro exigências que valem 0,5 cada, somando mais 2 pontos. Também temos as ligações (dois ou mais elementos ligados e executados sem pausa) que podem receber um bônus de até 0.2 em cada vez", explicou Denise à ESPN.
"Esses 3 itens somados fazem a nota inicial da ginasta, e temos 2 árbitros que fazem só essa pontuação na banca", continuou, revelando ainda que os juízes tem funções específicas. Tudo isso faz parte da nota D.
Nota de execução e divisão de funções nos árbitros
A nota E, que complementa a avaliação, mede quanto o atleta perde em cada elemento executado e já inicia em 10, diminuindo a cada erro, mesmo que pequeno. "Se der um passo, flexionar as pernas ou braços ou fizer sem bastante altura", exemplificou Denise.
Foi isso que atrapalhou Lorrane Oliveira logo na primeira rotação da final por equipes, nas barras assimétricas, em que tirou 13.000. Segundo a árbitra internacional, a brasileira teve falhas posturais com relação a ângulo de finalização das paradas de mãos e piruetas nos giros. E, junto a isso, ela teve a série de dificuldade mais baixa (5.500).
Esses critérios 'escondidos' fazem com que, às vezes, as notas pareçam injustas, já que o ginasta nem sempre precisa fazer um show acrobático. E não depende também somente de um juiz, pois a banca avaliadora é composta por oito árbitros, de diferentes países; ou seja, é uma avaliação coletiva.
"Se algum árbitro subir muito a nota ou baixar muito, acaba sendo descartada", ressalta Denise à ESPN. "Ficam somente as médias. Também temos o supervisor de cada aparelho que está atento a qualquer desvio", concluiu.
Os próximos compromissos do Brasil na ginástica são com Júlia Soares, garantida na final da trave, e Rebeca Andrade, que disputará a trave, o solo e o salto - esse último, o único em que a avaliação difere da feita no individual geral e por equipes, já que a final do aparelho é composta por dois saltos diferentes. E o atleta tem a obrigação de não repetir o mesmo movimento.
Ginástica artística nas Olimpíadas de Paris 2024
O calendário da ginástica artística nas Olimpíadas de 2024 será recheado nos dias que se seguem. No próximo sábado (3), a partir das 10h30 no horário de Brasília, serão disputadas as finais do solo masculino, salto feminino, e cavalo com alças. No domingo (4), a partir das 10h, é dia de decisão nas argolas, barras assimétricas e salto masculino.
A modalidade encerra suas disputas na segunda-feira (5), a partir das 6h45, com as finais das barras paralelas, trave, barra fixa e solo feminino. O Brasil participa do salto feminino, trave e solo feminino.
