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Declarações de um gigante: Fernando Reis abre o jogo sobre doping e manipulação de resultados no esporte olímpico

Afastado do esporte por conta do doping, o halterofilista Fernando Reis se despediu dos fãs e do Brasil numa passagem relâmpago no BOP Games, em Belo Horizonte


Fernando Saraiva Reis têm nos seus quase 20 anos dedicados ao esporte os melhores resultados de um atleta brasileiro na história do levantamento de peso olímpico.

Além de tricampeão dos Jogos Pan-Americanos, ele conquistou a inédita medalha de bronze em mundiais e foi o quinto colocado na Olimpíada do Rio, em 2016.

Aos 31 anos, o atleta vivia o auge de sua carreira como halterofilista, com favoritismo para subir ao pódio nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2021.

Mas Fernando Reis foi pego, pela segunda vez, no exame antidoping antes da competição.

“O doping é o segundo pior evento que pode acontecer na vida de um atleta. O primeiro é uma lesão muito grave, que te tira do esporte. Fui pego no doping de uma maneira bem conturbada. Isso vai ficar na história e, o que era pra ter manchado a minha carreira, muito pelo contrário, o carinho das pessoas e o respeito que elas têm comigo é algo realmente difícil de expressar. Sei que é um momento difícil, qualquer pessoa passar por isso, mas, ao ver que tenho tanto suporte, eu não me deixo abalar”, disse Reis à reportagem.

O fantasma do doping

Há uma semana do embarque para os Jogos de Tóquio, o levantador foi flagrado no exame antidoping realizado fora do período de competições e foi suspenso.

Segundo nota da Confederação Brasileira de Levantamento de Pesos (CBPL), foi encontrada a substância “Hormônio do Crescimento, enquadrada no grupo S2, de Hormônios Peptídicos, fatores de crescimento, substâncias relacionadas e miméticos”.

Ele recorreu. Desembolsou cerca de R$ 100 mil com advogados para se defender na corte nacional do esporte, usando laudos e outros documentos para tentar provar a inocência. Não conseguiu. Se fosse ao tribunal internacional, gastaria mais R$ 250 mil.

“O negócio já estava feito, eu coloquei na minha cabeça que eu ia me aposentar. Gastei muito dinheiro. Eu tinha tudo que eu tracei na minha carreira, decidido a me aposentar. Vou voltar atrás? Vou gastar mais dinheiro? Quando você vai contra o sistema você gasta dinheiro próprio. Os caras têm advogados pra brigar, recorrer, jogar pra frente. A coisa vai indo e os honorários não são tão baratos no Brasil. Não vou perder o meu tempo, continuo tocando a minha vida. Continuo sendo um vencedor, como sempre fui. Vencedor vai vencer e perdedor vai perder, essa é a história da humanidade”, desabafou o halterofilista.

Não foi a primeira vez que Fernando Reis esteve envolvido num episódio de doping.

Em 2011, ele testou positivo para a substância proibida Metilhexanamina, encontrado no organismo do atleta durante o Campeonato Nacional Universitário, em Shreveport, nos Estados Unidos. Voltou a competir no mesmo ano e foi medalhista de ouro no Pan de Guadalajara, no México. Repetiria a dose em Toronto-2015 e Lima-2019.

Mas Fernando não se sente derrotado por causa da punição por doping, pelo contrário.

“A derrota foi maior para o sistema do que pra mim. Eles fizeram uma coisa e deram um tiro no próprio pé. O esporte não vai pra frente do jeito que está. É um círculo vicioso que só vai pra baixo. A máquina não vai se sustentar por muito tempo. Se não houver uma mudança drástica, não vai melhorar. O levantamento de peso é um dos menores problemas, em todas as confederações. Então, não vejo, a curto prazo, uma solução."

Atleta raro

Fernando Reis está para o levantamento de peso como Gustavo Kuerten está para o tênis, como Maurren Maggi estava para o salto em distância, entre outros exemplos.

Todos são atletas raros, fenômenos do esporte difíceis de serem garimpados, mesmo em um país onde existem todos os tipos de perfis para todos os esportes.

Para tornar-se um atleta de alto rendimento, Fernando Reis e sua família tiveram que abdicar de muita coisa, além de investir muito dinheiro na preparação.

Não é simples sair por aí e fabricar um medalhista mundial ou olímpico como ele e outros raros campeões do esporte no Brasil. No caso de Fernando, segundo os especialistas, levaremos anos, décadas para descobrir, revelar e colher os frutos de um novo campeão.

Raro, Fernando também sempre foi à luta por um esporte mais transparente e democrático, sem as amarras políticas daqueles que usam das federações e confederações para se beneficiarem politicamente e financeiramente.

Neto de Silvio Saraiva, advogado que denunciou no passado os desmandos da Federação Paulista de Futebol, Fernando carrega no sangue o espírito contestador incomum no esporte brasileiro, onde raras vezes dirigentes são punidos por corrupção, onde não é permitido insubordinação e onde os atletas seguem amordaçados.

Fernando batalhou contra a perpetuação do presidente da Confederação Brasileira de levantamento de Pesos, Enrique Montero Dias, que está no cargo há três mandatos.

No final das contas, como acontece na maioria dos casos, o atleta levou a pior.

“Diferentemente de outros, eu sempre tomei essa frente aí, sempre apontei o que estava errado. Fizeram muita sacanagem comigo, a vida inteira. Isso nunca me abalou porque eu sempre consegui competir. Sempre provei na plataforma quem era o melhor, mas essa briga eu sabia desde o começo no que ia dar. Quando você vai contra o sistema, o sistema ganha. A verdade demora a surgir. Eu continuo de cabeça erguida”, disse.

Avesso à entrevista e agora ao olimpismo

Não foi fácil encontrar o gigante levantador de pesos para uma entrevista.

Bombardeado por todos após o anúncio do doping, ele sumiu das páginas esportivas. Resolveu se aposentar de vez do esporte e mudar radicalmente de vida e profissão.

Nosso encontro estava marcado no BOP Games de Belo Horizonte, onde Fernando participaria de um evento de levantamento de peso olímpico.

Mas chegando no local descobrimos que ele tinha partido para o Aeroporto de Confins, onde embarcaria para os EUA, país que adotou como novo lar com a esposa.

Nossa gravação ocorreu na mesa de uma cafeteria do aeroporto, onde Fernando se queixou bastante das polêmicas, na concepção dele, criadas pela mídia em geral.

Na reportagem em vídeo, disponível no topo deste texto, ele abre o jogo sobre os bastidores do esporte, do doping no alto rendimento e sobre supostas manipulações das entidades esportivas nos resultados dos atletas em escala internacional.

São depoimentos estarrecedores sobre o submundo dos esportes olímpicos. Aliás, Fernando se apresentou desiludido e desacreditado sobre o que os dirigentes falam com relação ao movimento olímpico que, na visão dele, não condiz com a realidade.

“Quando se fala em movimento olímpico, ninguém sabe o que é, ainda mais os cartolas. Todo mundo fala do movimento olímpico é tudo uma baboseira.”

Assim que Fernando deixa o Brasil. Sentindo-se abandonado por dirigentes, atletas e técnicos, e com o apoio incondicional apenas de pouquíssimos amigos e familiares.

Ele afirma que já planejava mesmo se aposentar, mas somente após os Jogos de Tóquio, possivelmente com uma medalha no peito. Suspenso, nem chegou a competir. De qualquer forma, o halterofilista acredita que o corpo estava no limite do esgotamento.

“A preparação que eu fiz foi tão forte que talvez tenha sido algo espiritual. Deus pode ter falado: ‘Não vai porque pode dar ruim de uma maneira muito ruim’. Esse esporte, pela carga que a gente acaba manuseando, é bem perigoso. Eu estava no limite".

Bye bye Brasil

Fernando foi embora do país sem se despedir do esporte e de seus fãs.

Mas espera que seu nome seja lembrado pelos feitos, pelas conquistas no tablado onde realmente se tornou o gigante do levantamento de peso olímpico do Brasil e não como um atleta que ficou marcado na história por conta do doping, do qual jura jamais ter feito uso.

“Primeiro eu queria agradecer o carinho, o amor incondicional de todas as pessoas que sempre estiveram comigo. Chegou a hora, como vai chegar pra todo mundo, para todos os atletas. Hora de encerrar a carreira", disse.

"Quero agradecer o carinho de todos os fãs, eu recebi milhares de mensagens. Hora de agradecer ao apoio que eu tive em todos esses anos e agora o futuro a Deus pertence. Vou ganhar como sempre ganhei na minha vida. Sou um cara vitorioso, e eu vou ganhar”.