Alex Poatan é um dos maiores nomes do MMA mundial e, não à toa, estará na luta principal do UFC 300, o evento mais aguardado dos últimos tempos da companhia.
Atual campeão do meio-pesado, o brasileiro colocará seu cinturão a prova contra Jamahal Hill no octógono da T-Mobile Arena, em Las Vegas. Mas muito antes de virar uma estrela da luta, Poatan teve que superar muitas dificuldades, incluindo o alcoolismo e a perda precoce do irmão.
A infância difícil e o início na borracharia
Alexsandro Pereira cresceu em São Bernardo do Campo, cidade da região metropolitana da capital do estado de São Paulo, e teve uma infância difícil. Aos 12 anos, abandonou os estudos e passou a fazer "bicos" em busca de dinheiro para ajudar a sustentar sua família e conseguir fazer coisas que toda criança gosta, como jogar fliperama e comer coxinha.
Alex trabalhou como ajudante de pedreiro com seu pai e fez outros trabalhos até conhecer Neri Lopes. Amigo da família Pereira, Neri era vizinho do garoto e dono da borracharia Vila Nova, que fica na cidade. "Com 12 anos de idade, ele não estudava e eu falei pra ele 'você não quer, no período que você não estudar, ir lá na borracharia pra varrer o chão lá?'. E ele começou a frequentar a borracharia com 12 anos de idade", disse Lopes à ESPN.
"Ele sempre foi um moleque bem zoeiro, sempre brincalhão com os clientes, gostava de brincar, hoje ele é mais sério, mas ele era mais novo e gostava muito de desafio em serviço, metas. Os clientes gostavam muito dele, ele atendia bem", detalhou Neri.
A morte do irmão
Enquanto Alex crescia na borracharia e ia ganhando disciplina e um rumo na vida, seu irmão Angelo, um ano e sete meses mais velho, trilhava um caminho diferente.
De acordo com o próprio Poatan, Angelo passou a usar drogas e "se envolveu com as pessoas erradas". Aos 17 anos, foi assassinado em São Bernardo.
O destino de Alex poderia ter sido o mesmo, se não fosse pela aparição de Neri em sua vida.
"Talvez, se não tivesse vindo para a borracharia, ele teria acompanhado o irmão e ido por outro caminho. O Alex fala disso e me agradece mais por isso", afirmou o borracheiro.
O alcoolismo e a salvação na luta
Tentando lidar com as dificuldades da vida e a perda do irmão, Alex caiu em um problema que atinge muitos brasileiros: o alcoolismo.
Segundo o próprio, ele começou a beber aos 12 anos de idade e percebeu que tinha um problema com o alcool já na idade adulta.
Alex chegava atrasado ao trabalho na borracharia e chegou até a jogar detergente no próprio olho para fingir conjuntivite e não trabalhar após uma noite de drinks fora do normal.
Depois de uma conversa com Neri, percebeu o rumo que estava tomando e decidiu tomar uma atitude. Foi aí que ele conheceu o esporte que mudaria tudo, o kickboxing.
Aos 21 anos, Alex começou a praticar a modalidade que mexeria com o presente, o futuro e sua essência. Foi na própria cidade de São Bernardo, quando conheceu o Mestre Sombra, que o lutador deu início à sua trajetória.
Mas foi ao conhecer o Mestre Belocqua Wera que tudo mudou de vez.
O início na luta
Alex chegou à academia Top Spin & Big Ball com 21 anos de idade, quando ainda era um lutador "cru", que recém tinha começado. O Mestre Belocqua, porém, reconheceu o potencial do brasileiro e decidiu adotá-lo quase como um novo filho.
"O Alex chegou e realmente era um cara que tinha muitos problemas, de saúde inclusive. Mas vi nele ali um guerreiro. Ele treinava com o Mestre Ninja, treinou um tempinho com ele. Ele que viu o talento no Alex. Aí ele chegou em mim e disse: 'é o seguinte, eu tenho aqui um cara que se ele continuar atuando comigo não vai dar em nada, mas você pode transformá-lo num campeão mundial'. Cara, a simplicidade é muito grande, você tem o cara na mão, mas sabe que você não pode levar. 'Vou levar para quem pode'. E me trouxe o Alex", disse Belocqua em entrevista exclusiva à ESPN.
"O Alex chegou, aí conversei com ele. Falei: 'Alex, como é que é? Assim, assado e tal?'. Coloquei ele para fazer um teste, frente a frente com um aluno veterano, que já tinha sido campeão brasileiro. Que não lutava mais, que tinha uns 40 e poucos anos, mas um cara forte, que bate bem. Resumindo, cara deu um nocaute nele. Aí chamei ele pra uma conversa. 'Alex, e aí, como é que? Você percebeu que tem que treinar mesmo, né? É que aqui tem uma técnica, tem tudo isso'. 'Não, entendi'. Sentamos, conversamos e perguntei pra ele: 'até onde você quer ir?'. 'Quero ir até o topo do mundo'. 'Então, para te levar ao topo do mundo, eu posso fazer esse caminho através do kickboxing. Eu consigo te levar'", relatou.
A 'morte' de Alex Pereira e o nascimento de Alex Poatan
Quando chegou à academia de Belocqua, Alex Pereira tinha algumas dificuldades. Se atualmente ele é conhecido por ter uma mentalidade diferenciada e nunca desistir de nenhuma luta, é muito por conta dos treinamentos e da evolução que teve com o mestre.
"Começamos a treinar e eu vi algumas dificuldades. Ele tinha algumas coisas no comportamento, uma coisa meio que de perdedor, vamos dizer assim, né? Aí eu fui procurando nele algumas coisas que poderiam levantar a moral dele", contou.
"Olhei para ele e falei: 'você é índio, cara'. Eu tenho essa ascendência, meu trabalho é todo feito nessa coisa de ser o índio, sou descendente dos Aimóres, guerreiros imbatíveis. Então trago isso, esses ensinamentos que tive com o meu pai, comigo e passei para ele. Ele nem sabia que era índio, na verdade. Falei pra ele, 'você é índio, seus traços, seu comportamento'. Ele ficou curioso com aquilo, chegou em casa e perguntou pros pais, aí a mãe falou 'seus avós eram índios'. Ele ficou contente com isso, veio e falou comigo. Falei 'então vamos fazer um trabalho em cima disso, na pegada do índio'".
Para transformar a mentalidade de Alex, Belocqua fez um trabalho de treinos muito intensos, mas, principalmente, de conectá-lo às raízes. Para isso, o Mestre o levou para um sítio em duas oportunidades, onde eles ficaram isolados por cerca de um mês.
Além dos treinamentos, esses retiros também contavam com rituais ancestrais feitos pelo Mestre Belocqua. E foi em um desses que Alex Pereira "morreu" para que nascesse o Alex Poatan.
"Dei o apelido porque 'Po' é mão. 'Atan' é forte. Então, mão forte. A tradução é essa. Mas a minha ideia era fazer o guerreiro das mãos fortes, colocar assim pra ele, o guerreiro das mãos fortes, que era algo pra ele incorporar não só o Poatan, que é mãos de pedra, mas é algo assim que vem de encontro a identidade mesmo. 'Eu sou um guerreiro, o guerreiro Poatan'. A partir dali começamos a usar esse apelido", revelou.
"O levei para o sítio, ficou isolado comigo duas vezes, tipo um mês e pouco, eu e ele. Meu irmão cozinhava pra gente lá e a gente ficava longe de tudo mesmo. E aí eram feitos muitos rituais também para 'matar' o Alex Pereira e trazer à vida o Alex Poatan. São rituais de passagem que nós fazíamos. Num belo dia, eu estava apertando muito. Daqui a pouco ele ficou bravo lá, acho que sentiu porque eu estava xingando, estava gritando mesmo e tal. Aí ele saiu. Falei 'daqui uns dez minutos ele tá aqui'. Até que passou dez, 15 minutos, nada. Desci e falei para com meu irmão, que viu ele passando. Cheguei no estábulo, ele estava deitado em posição fetal, em transe. Tirei ele no tapa. Aquele negócio, primeiro você bate, depois você assopra. Meti o tapa na orelha pra ele acordar, ele voltou e fomos conversando e continuamos juntos. Eu não podia deixar ele ficar nessa situação. Voltamos ao treinamento e isso foi uma das superações dele".
Treinamentos insanos
A trajetória para sair de alguém que começou "tarde" na luta para um dos maiores nomes do esporte de combate no mundo não foi nada fácil. Além das dificuldades já citadas, Poatan teve que passar por uma série de treinamentos "insanos" na academia de Belocqua - e chegou até a chorar e passar mal durante eles.
"Essa mentalidade foi desenvolvida no treinamento do guerreiro. Aí entram uma série de fatos que rolaram aqui dentro da academia, muitas vezes que os caras que estão aqui hoje, por exemplo, minha filha, ela viu, muitas vezes, o Alex chorar, passar mal no treino, mas era uma coisa que era feita pra ele aprender a suportar todo tipo de pressão. Eu em cima dele, batia, gritava, sabe? Chamava atenção mesmo pra ele superar tudo isso. Então, o objetivo nosso, do guerreiro, é assim, a gente fala 'estamos prontos pra guerra', entendeu? Então, quando ele falou lá (contra o Adesanya), 'estou pronto para matar', na realidade era 'eu estou pronto pra guerra, estamos prontos para o guerra'", conta Belocqua.
Um dos momentos de maior superação de Alex veio após sua estreia no evento It's Showtime. Poatan se preparou para lutar contra Sahak Parparyan, mas o armênio teve um problema logo antes da pesagem e o adversário do brasileiro passou a ser Jason Wilnis.
Com um estilo totalmente diferente de Parparyan, o holandês acabou castigando a perna de Poatan e venceu com facilidade. O dano na perna do brasileiro foi tanto que especialistas chegaram a dizer que ele deveria encerrar a carreira. Mas foi um treinamento de Belocqua que fez com que Alex não só se mantivesse lutando, mas como desenvolvesse uma das pernas mais fortes e perigosas do MMA mundial.
"Para calejar essa perna dele, tem umas bordunas indígenas (arma indígena, feita de madeira compacta e geralmente cilíndrica e longa), ele treinou com essas bordunas. Eu batia na perna dele com essa borduna, para você ter uma ideia. Todo o treinamento de calejamento, de fortalecimento que ele se submeteu, viu que precisava mesmo, que não é só ser grande e ser forte. Ai eu fiz esse treinamento. Um outro rapaz também da fisioterapia que ajudou muito, chama Alex, ajudou muito mesmo. E aí recuperamos ele", disse.
"A primeira luta dele importante depois disso foi o cinturão do WGP com o César Almeida. E o César Almeida, um dos mestres aqui que não vou citar o nome, falou 'você é louco que vai lutar com o César Almeida? Ele é muito melhor que o Wilnis, ele vai quebrar sua perna'. Poatan ficou meio assim e veio falar comigo. Falei, 'você está preparado?'. Ele matou o Cesinha. Fez o que quis, né? Cesinha chutava a perna dele e ele falava 'só isso?'. E o Cesinha é um dos melhores da história. Agora, para chegar a isso, você imagina o que ele passou, de cair no chão, de chorar, de ter vontade de desistir".
A conexão com as raízes
Antes do evento principal do UFC 300, Poatan deve fazer o que já virou uma das principais tradições da companhia. A caminhada até o octógono do brasileiro é recheada de referências a cultura indígena. Principalmente com as danças, que foram fundamentais na vida de Alex.
Belocqua conta que, antes da luta com Sean Strickland, que colocou Poatan de vez no mapa do UFC, recebeu uma mensagem divina de que Alex estava "desconectado de suas raízes" e que isso iria prejudicá-lo.
"Ele me contou uma passagem em que se sentiu um gigante perante uma situação. Teve uma luta em que ele teve alguns problemas e eu não sabia. A gente conversa muito pouco. Eu tive um sonho, esse sonho ele estava apanhando. Aí veio aquela mensagem que ele estava desconectado, que eu precisava conectá-lo com os ancestrais. Naquele dia a noite, no meu próprio sonho, já comecei a trabalhar, aí depois fiz minhas danças, que na religião cristã seriam as orações, para conectá-lo. E ele fez lá também. E ele fala que quando ele subiu no ringue ele estava atravessando uma fase ruim, com uns problemas na vida e tal. E ele se sentiu um gigante. E foi como eu o vi, um gigante. E a partir daí tudo mudou", contou.
Diante de Jamahal Hill, não deve ser diferente. Ao subir no octógono para a maior luta de sua vida, Poatan levará com ele toda a sua superação, as derrotas e voltas por cima que teve e, principalmente, suas origens.
