Alex Poatan encara Israel Adesanya neste sábado, no UFC 281, no Madison Square Garden
Israel Adesanya sentou para uma entrevista ao Sporting News na Australia, dois anos atrás, perto da defesa de cinturão do peso-médio do UFC, contra Yoel Romero, no UFC 248.
No vídeo, publicado no dia três de março de 2020, Adesanya, que estava usando um corta-vento vermelho, com o colarinho para cima e cabelo desbotado meio alto, foi perguntado sobre sua derrota de kickboxing para Alex ‘Poatan’ Pereira, por nocaute. No momento da entrevista, Adesanya já tinha o título do UFC por quase um ano. Mesmo iniciando como campeão interino do peso-médio, era considerado um dos melhores lutadores de todo o MMA.
A derrota para Pereira parecia uma história antiga. Adesanya estava com a lábia solta sobre como pensou sobre a derrota e seu antigo inimigo, muito por conta do que Pereira postou nas redes sociais sobre as vitórias de Adesanya no UFC.
“Eu nunca assisti uma das lutas dele, nunca”, comentou Adesanya para o Sporting News na Austrália, naquele dia: “No final, ninguém sabe quem diabos é ele. Ele será aquele cara que, quando eu for campeão do mundo e for uma lenda, ele estará em algum bar falando m*rda sobre ‘eu ganhei daquele cara uma vez’”.
O vídeo agora tem mais de 200 mil visualizações. Várias destas pertencem a Pereira. Ele assistiu e ouviu a mais de 11 mil quilômetros de distância, em São Paulo, no Brasil. Enquanto Adesanya dizia estas palavras, davam combustível para Pereira. Sete meses depois, o brasileiro assinou um contrato com a Legacy Fighting Alliance (LFA) e começou sua transição do kickboxing para o MMA.
O UFC assinou com Pereira depois de apenas uma luta na LFA, em que nocauteou brutalmente o seu adversário. Depois de um ano de sua estreia no UFC, Pereira encontrará um familiar oponente no octógono. Adesanya vai defender seu título do peso-médio contra Pereira, o homem que o derrotou duas vezes no kickboxing e o único que conseguiu nocauteá-lo, no evento principal do UFC 281, no sábado, em pleno Madison Square Garden, em Nova York.
Adesanya chama isso de um “lindo arco”, a chance de vencer o cara que o derrotou no kickboxing. Pereira, enquanto isso, tem Adesanya na mente desde a entrevista, uma assombração que continua o expiando “Isso segue”. Jon Franklin, antigo CEO do Glory Kickboxing, disse que poderia ser o pé no sapato de Adesanya ou sua maior derrota.
“Eu nunca vou esquecer uma palavra do que ele disse”, Pereira contou à ESPN: “Eu usei aquilo como motivação para fazer tudo que fiz e chegar até esse momento. Eu sou uma pedra no sapato dele.”
A primeira vez que Adesanya e Pereira lutaram foi no dia dois de abril de 2016, em uma promoção chinesa de kickboxing chamada Glory of Heroes.
Adesanya venceu 18 lutas seguidas até chegar a esta luta com Pereira. Ele já era considerado como um dos melhores kickboxers peso-médio do mundo. Pereira ainda tentava fazer seu nome no esporte. Ele tinha apenas 15 partidas no kickboxing e perdeu para todos os outros melhores lutadores da divisão que enfrentou até aquele momento.
Pereira venceu Adesanya por uma decisão unânime. Adesanya acreditava que ele deveria ter conseguido a vitória e os pontos, dado o estrago que estava na cara de Pereira depois da luta, como prova de seu desempenho na disputa. Apesar disso, Adesanya representou a primeira vitória de Pereira contra um atleta elite.
A vitória não necessariamente mudou a vida de Pereira. Ele venceu uma e perdeu a seguinte, enquanto Adesanya teve sete vitórias, incuindo uma contra Yousri Belgaroui, para vencer o peso-médio no torneio do Glory e chegar a final, mas Adesanya perdeu para Jason Wilnis e não conquistou o título.
Foi outra decisão decepcionante que Adesanya sentiu que merecia ter ganhado. Mesmo com os pensamentos sobre sua derrota, seis semanas depois, enfrentou Pereira, em São Paulo, no dia quatro de março de 2017. Adesanya corrigiu seus erros da primeira luta e dominou completamente o brasileiro por dois rounds, se movimentando e tirando a distância do atleta, que não conseguiu encaixar seu chutes.
“Do que eu me lembro, Israel estava o ensinando”, comentou Simon Marcus, outro kickboxer da mesma categoria, que lutou com ambos: “Colocou ele para aprender, mostrando toda sua vontade. Alex não estava ali muito agressivo. Ele parecia estar frustrado e tudo mais.”
Quase no final do segundo round, Adesanya lançou duas combinações, batendo com a direita repetidamente, até que atingiu seu objetivo: o crânio de Poatan. O juíz apareceu neste momento e quase declarou um nocaute técnico, em que Adesanya tem declarado, até hoje, que poderia chegar a uma finalização. Pereira acabou sobrevivendo até o final, quando o gongo soou para o final do round.
O brasileiro saiu da pressão no segundo round. Encurtou a distância com Adesanya e começou a dar bons socos e chutes altos. Até que a sequência final veio: Adesanya lançou um chute direito alto e depois um giro de costas. Pereira bloqueou, se moveu para frente e lançou uma combinação: um gancho de direita, seguido por um gancho de esquerda. Adesanya tentou levantar sua mão direita, para defender o gancho, mas foi tarde. Pereira conectou um golpe muito forte, que fez Adesanya cair mais forte ainda. A luta acabou e Adesanya foi nocauteado pela primeira vez.
“O nocaute foi um choque, porque Adesanya nunca foi nocauteado”, comentou Belgaroui: “Foi gigantesco. Este também foi o surgimento para Alex.”
Adesanya disse na derrota de Wilnis. Os críticos disseram que ele não poderia ficar nas mãos dos juízes, pois mexeria com a sua cabeça. Quando ele estava tentando finalizar Pereira no segundo round, ele se afastou do que o tornou grande: sua habilidade de saber a hora para acabar com seus oponentes.
“Eu estava mais bravo comigo mesmo”, comentou Adesanya: “O fato é que eu não estava sendo verdadeiro com o meu estilo, do jeito que eu luto. Eu deixei que algumas coisas fora da minha psiqué e me incomodarem. Eu tinha ele nas cordas e eu pensei, vou arrancar ele daqui. Eu comecei a mandar repetidos golpes de direita e isso não é o meu estilo.”
Poatan acredita que as duas vitórias, incluindo o nocaute, o deram a mentalidade necessária para a luta de sábado, em um diferente esporte de combate.
“Absolutamente está na minha cabeça”, comentou Pereira: “É impossível não estar. Eu bati nele duas vezes. Se eu não estou na cabeça dele, ele não é humano.”
Adesanya, é claro, tem outra perspectiva.
“A luta não me incomoda neste sentido, ‘Qual a pior coisa que pode acontecer? Ele vai me levar à nocaute?’”, comentou Adesanya: “Irmão, só ir ao YouTube. Você consegue ver. Isso me liberta de vários pensamentos. Estou tranquilo, o pior já aconteceu. Agora eu só tenho que ir lá e f**** com esse cara.”
ANDERSON SILVA subiu a um palco montado, em seu ginásio de Los Angeles, para uma coletiva de imprensa para promover sua próxima luta com Adesanya, no UFC 234. Foi no dia 22 de janeiro de 2019, quando Silva, antigo campeão do peso-médio do UFC, completou um treinamento para a reunião com a mídia.
Já no microfone, à direita de Silva estava Pereira, também para responder perguntas. A equipe de Anderson Silva trouxe Pereira para o treinamento de Silva um mês antes, por causa da experiência de Pereira contra a Adesanya. Pereira também acompanhou Silva, em Melbourne, na Austrália, onde Adesanya derrotou Silva por decisão unânime em 10 de fevereiro de 2019.
Adesanya disse que foi a primeira vez que Pereira esteve em seu radar desde o nocaute. O lutador apelidou Anderson Silva de “engraçadinho”.
“Achei que Anderson estava tentando fazer eu perder a linha”, comentou Adesanya.
Este Pereira estava diferente daquele que lutou com Adesanya em 2017. Seguido do nocaute de Adesanya, Pereira venceu 10 das 11 lutas de kickboxing e ainda venceu os títulos de peso meio-médio e médio. Durante este período, de 2017 a 2021, Poatan nocauteou sete oponentes e teve duas vitórias contra Marcus, para conquistar o título do peso-médio do Glory.
“O que aconteceu com Pereira, acredito eu, é que ele sempre tenta socar com muita força”, comentou Marcus: “Ele sempre tinha que fazer isso e sempre esteve apto a isso. Mas eu sinto que na luta com Israel e contra mim realmente deu a ele muita confiança no que ele pode fazer com isso. E, então, ver ele ‘passando o carro’ em todo mundo aqui... Ele tem conseguido derrubar todo mundo que esteve na frente.”
Adesanya não é o mesmo também. Ele tem vivido um ótimo momento no MMA e está no caminho de ser o melhor peso-médio do UFC. Dois meses depois de vencer Anderson Silva, Adesanya superou Kelvin Gastelum, para se tornar o campeão do peso-médio interino do UFC. Até que no UFC 243, no dia 6 de outubro de 2019, na frente de quase 58 mil pessoas, no Marvel Stadium, na Austrália, Adesanya nocauteou Robert Whittaker para se consagrar.
Pereira era uma memória distante naquele momento. Adesanya disse que mal lembrava dos comentários que fez para a Sporting News Australia sobre Pereira, antes da luta contra Romero.
“Parece muito com o que eu falaria”, disse Adesanya: “Eu lembro um pouco disso. Eu não lembro onde eu disse, mas lembro de pensar algo parecido com isso.”
Mas, em São Paulo, estas palavras funcionavam como combustível para a cabeça de Pereira. Ele tinha lutado três vezes no MMA, em 2015 e 2016, mas decidiu apenas em 2020 que faria sua transição completa. Neste ano, se mudou para os Estados Unidos da América, para estar no time de Glover Teixera. Pereira colocou Thomas Powell para dormir com apenas um soco de direita em sua estreia na LFA, em novembro de 2020.
Assim que suas obrigações com o Glory foram completadas, Pereira foi ao UFC e nocauteou Andreas Michailidis em sua estreia no UFC 268, no dia 6 de novembro de 2021, no Madison Square Garden. Adesanya não prestou muita atenção em Pereira naquele momento, ele disse, mas assistiu este lance e sabia que o UFC iria fazer este encontro acontecer.
“Eu poderia dizer naquela hora”, comentou Adesanya: “E eu recebo isso de braços abertos. Porque eu já clariei o caminho para ele, porque, de qualquer jeito, eu já venci todos nesta divisão.”
Ao mesmo tempo, Pereira tinha que fazer a sua parte e ele fez. Ele venceu Bruno Silva em uma decisão unânime, em março. Ele venceu Sean Strickland, no UFC 276, enquanto Adesanya enfrentava Jard Cannonier. Poatan o finalizou aos 2:36 do primeiro round, depois de controlar a luta com socos.
Adesanya dominou Cannonier por decisão unânime e tudo estava pronto. Adesanya tinha conquistado excelência no UFC, como um dos melhores lutadores de toda as categorias, com 12 vitórias seguidas em sua categoria, além de cinco títulos de defesa. Agora, Pereira segue para sua terceira luta.
“Provavelmente você não consegue tirar isso da sua cabeça, sabe?”: Comentou Franklin, CEO do Glory de 2014 a 2018: “A história aqui poderia ser apenas isso. Do que eles te chamam? Sua ‘Waterloo’? Onde você ainda precisa provar que está no seu melhor e você precisa bater em seu nêmesis. O cara sempre fica aparecendo e ele não pode perdê-lo. Novamente, ele está aqui.”
Belgaroui lutou contra Pereira no kickboxing três vezes, o vencendo uma vez. Além disso, tem uma luta contra Adesanya, que o venceu. Pereira fez alguns treinos na Holanda, casa de Belgaroui, no começo do ano, para treinar com seu antigo oponente. Por causa da alegria que Pereira sentiu com a intensidade e o nível do trabalho que estava tendo, Belgaroui foi convidado para fazer parte do treinamento de Pereira com Glover Teixeira, nos Estados Unidos.
No treinamento, o gigante, de 1,96m Belgaroui estava mimetizando Adesanya na sessão de sparring com Pereira. O time do lutador brasileiro tem se mostrado otimista sobre a presença de Belgaroui, por ser uma espécie de arma secreta. Belgaroui disse que ele foi levado ao extremo pelo poder de Pereira no treinamento, comparando-o favoravelmente com os lendários kickboxing holandeses.
“Eu tenho vários, vários rounds com Melvin Manhoef, Badr Hari, Alistair Overeem”, Belgaroui disse: “Eles golpeam forte. Como pesos-pesados. Mesmo assim, vou dizer que os rounds que tivemos aqui treinando, Pereira tem socado muito mais forte que estes três. É verdade.”
Belgaroui, que agora está no MMA, disse que está impressionado com o que Adesanya tem conquistado no UFC. Mas ele acredita que o “The Last Style Bender” tem se aproveitado dos lutadores que não têm quase tanta experiência nos mais altos níveis de trocação. Lutadores brasileiros de jiu-jitsu e wrestlers, segundo Belgaroui, não defendem chutes nas pernas. E essa tem sido uma das maiores ferramentas da Adesanya, especialmente contra Paulo Costa, no UFC 253, em setembro de 2020.
“Ele acerta a parte de baixo da perna e então não tem muito o que fazer depois disso”, Belgaroui disse sobre Adesanya: “Eles não esperam tanto impacto que pode ter. Como Costa, foi golpeado ali nas pernas demais e com cada chute que ele tomava, mais ele perdia nível de combate. Chute baixo, faixa marrom. Outro chute baixo, faixa lilás. Mais um chute baixo, faixa azul.”
Adesanya riu quando foi perguntado sobre a presença de Belgaroui no treinamento de Pereira. Ele chamou Belgaroui de “Kris Humphries”, por conta de sua semelhança com os ex-jogador da NBA e ex-marido de Kim Kardashian.
“É a mesma coisa que Anderson Silva fez com Pereira”, comentou Adesanya rindo: “Legal, irmão, daora. Você chamou um cara grande que não golpeia como eu. Isso aí. Certinho.”
Adesanya diminui a noção de Pereira como um bicho-papão. Ele compara a uma situação de vídeo game, em que Alex ‘Poatan’ Pereira é um chefe, mas não o chefe final e mais importante. Ele tenta simplificar o olhar, colocando seu adversário como outra parte da história que “se tornará um épico contado nos próximos anos.”
“Esta história me motiva”, comentou Adesanya: “Eu vivo minha vida como o jogador número 1. Eu disse isso na última vez em que estava em Nova York. Eu sou o cara que comanda essa por**. O resto são apenas robôs. Então, para mim, eu que escolho a maneira que vou dizer uma história. É por isso que eu olho para isso e jogo como se fosse um vídeo game.”
Poatan vê de um jeito diferente. Ele observa um oponente formidável que ele bateu duas vezes, uma delas por um nocaute brutal, que deve ser deixado de lado sozinho por um tempo e não ser lembrado sem motivo algum.
A punição de Adesanya é pelo quê? O único homem que nocauteou Adesanya, o seguiu através de anos, continentes e diferentes esportes de combate, até a batalha nº 3.
“Eles perguntaram sobre mim e Adesanya disse que eu era um ninguém e por anos, até aqui, eu seria apenas um cara no bar, cheio de mulheres, me gabando, dizendo: ‘eu lutei com esse cara uma vez’, mas que eu jamais chegaria lá”, comentou Alex ‘Poatan’ Pereira: “Um dia depois da luta eu vou estar rindo e lembrando o que Israel disse. Para algumas pessoas, isso poderia abaixar sua auto-estima. Para mim, foi uma motivação.”
