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'Rei dos nerds' rejeitou emprego em cervejaria e desistiu de faculdade de química em busca de sonho de ser campeão do UFC

Caio Borralho faz sua terceira luta no Ultimate no UFC 280


Caio Borralho, de 29 anos, entra no octógono neste sábado no card preliminar do UFC 280, em Abu Dhabi, na luta contra Makhmud Muradov no peso-médio. O brasileiro, que tem 12 vitórias e apenas uma derrota em seu cartel, estudou tudo o que podia do adversário. E, segundo ele próprio diz, tem facilidade em resolver problemas.

Isso porque Borralho aos 15 anos já ensinava os outros a resolverem problemas de Química e Matemática.

"Meu problema na escola sempre foi comportamento, sempre fui de muita energia. Eu criava uma jiboia e cheguei a levar pra escola, pra você ver o nível...mas o lance das notas, nunca tive problema. E a parte de exatas eu sempre tive facilidade. A primeira vez que eu dei aula particular, meu avô estava numa turma, tinha umas 8, 10 pessoas, ele teve que sair urgente. E ele perguntou 'você entende de seno, cosseno?'. Eu falei que sim. E ele disse 'então você vai dar aula hoje'. E tinha uns caras mais velhos do que eu. Eu consegui dar aula, tinha uns 14, 15 anos. Depois a vizinha ficou sabendo, eu comecei a dar aula particular para o filho dela. Aí contou pra outro e eu fui dando aula, fui numa escolinha particular, dava aula de judô também. Passei em Química Industrial na UFMA, depois comecei a me apaixonar por Química no Ensino Médio. O Ensino Médio inteiro, umas 20 pessoas, iam para minha casa pra ter aula, galera de recuperação. Eu curto isso de dar aula. Até uns 20, 21 anos me mantinha dando aula de Matemática e Química", disse Borralho, à ESPN.

"O que mais me deixava feliz era o cara que estava de recuperação e passava de ano, porque eu sentia que eu era bom naquilo. Uns caras da minha escola que não sabiam nada e passavam de ano, tiravam 10 na prova de recuperação", completou.

Por ter começado a faculdade de Química Industrial, Borralho pensou em seguir carreira e até rejeitou uma proposta de emprego pelo sonho de ser lutador ter falado mais alto.

"Eu pensava em ser químico. Recebi uma proposta pra ir trabalhar na Ambev. Logo quando veio, já veio a proposta de vir pra São Paulo. Eu sempre fui apaixonado de competir, de me testar, sempre gostei disso e não pensei duas vezes. A paixão por isso falou mais alto. Eu fiz seis períodos da faculdade, já tinha passado da metade. Eu dava aula na faculdade também, pra pessoas que eram da minha turma e hoje são doutores em Química. Eu gostava bastante, mas isso aqui sempre foi minha primeira casa. O emprego na Ambev era um estágio, estava difícil conseguir emprego, eu fiquei felizão, mas não coloquei pra frente porque eu vim para cá. Teve alguns anos que eu pensava se tinha feito a escolha certa".

Desafiado pela reportagem da ESPN para relembrar as habilidades como professor, Borralho foi até uma faculdade em São Paulo e deu uma aula sobre química orgânica focada nos hidrocarbonetos. O lutador demonstrou a mesma desenvoltura que apresenta nos octóginos, fez bonito e até impressionou um dos alunos do primeiro semestre de Química.

"Está aprovado como professor e tirou algumas dúvidas que eu tinha sobre nomenclaturas da quantidade de carbonos", disse Cassiano Castilho.

A vinda de São Luis para São Paulo

"Foi bem difícil no início, fiquei num albergue com cerca de 150 pessoas. Aí fui melhorando, passei para uma kitnet, depois apartamento e agora estou na minha casa, de boa. Tive muitas lesões, aqui em São Paulo, fiz 4 cirurgias, todas elas fiquei pelo menos 6 meses parado. Esses foram os maiores obstáculos que eu passei, junto com a saudade da minha família, condição financeira. Passar por cima das lesões foi o mais difícil. Tinha ano que eu não conseguia lutar, ficava frustrado, mas não deixei isso me atrapalhar. Vim pra São Paulo em 2014, tinha acabado de ganhar um carro da minha mãe, passei na faculdade na UFMA em Química Industrial. E um ano depois ela me deu um carro, eu surfava, dava aula de matemática e química, ia pra faculdade, aí veio a oportunidade de vir pra SP e eu larguei tudo. Carro, família.."

Quando literalmente abriu mão de uma vida profissional no Maranhão, Borralho fez uma promessa para sua mãe que ele espera cumprir. "Ser campeão é meu objetivo principal. Quando eu saí lá do Maranhão, eu falei pra minha mãe: 'Mãe, eu vou para o UFC e vou ser campeão'. O primeiro eu já cumpri. Mas ainda não estou nem um pouco satisfeito, quero ser um dos melhores do mundo, quero o cinturão na minha cintura, quero ser um exemplo, principalmente para os nerds. Espero até o final de 2025 estar com esse cinturão aí".

A história incrível e como foi contratado pelo UFC

Borralho vinha fazendo um nome no cenário do MMA brasileiro quando foi chamado para participar do Contender Series, "peneira" de Dana White para contratar lutadores no UFC, em 2020.

"Foi uma montanha-russa de emoções. Você ganha a luta e está no topo da montanha e eu estava esperando o contrato. Foi curioso porque até os câmeras chegaram em mim e falaram 'o que vai mudar na sua vida com esse contrato agora?'. Estava todo mundo certo que eu ia ganhar o contrato, estava alegre, quando chegou na hora do contrato o Dana White falou 'não estou interessado'. Foi um balde de água fria. Aí eles já colocam a gente num ônibus pra ir para o hotel e no outro dia ir embora. Fui no caminho todo pensando, conversando com meu empresário. Eu falei 'vamos ver o que a gente pode fazer, eu estou há 8 anos nesta batalha e só saio daqui com um contrato'", lembrou Borralho.

"A gente perguntou para o matchmaker 'o que a gente fez de errado, como a gente pode melhorar isso aí?'. E ele falou 'você tem duas opções, ou volta para o Brasil, faz umas duas lutas por lá e a gente avalia. Ou fica aí na cidade e se surgir uma luta de última hora. Se surgir, a gente te chama'. Foi a hora que eu olhei pro Pablo (Sucupira, treinador) e falei: 'Sabe aquele cara que vira um bem-sucedido? Tem uma hora que ele precisa dar um passo maior que a perna. Essa hora é a nossa. Você vai pra São Paulo, eu fico aqui treinando. Se marcarem a luta, você volta. Isso foi na terça. Quando foi quinta, veio a oportunidade. Eu não estava nem pisando no chão, meu pé estava inchado. Aí tinha 19 dias".

"Eu estava meio bravo com o Dana, que tinha falado que não tinha se interessado. Talvez na primeira luta eu tivesse comemorado demais antes do tempo. Eu falei: 'A gente vai ganhar, ficar quietinho, depois a gente deixa ele ver'. Com 1min30s de luta eu nocauteei e fui gritar na frente do Dana. 'Irmão, eu mereço estar aqui. Aqui é meu lugar'. Mas também fui agradecer. E ele 'parabéns, agora você conseguiu'. Quando ele foi falar de mim, que me respeitou de ter pegado a luta 3 semanas depois, de ter gritado na cara dele, ele falou 'vem pra cá, garoto'. Passou um filme na minha cabeça".

O Rei dos Nerds

Borralho gosta de animes, filmes de super-heróis, videogames e abraça o estilo de vida nerd. Por isso, ele espera ser uma inspiração para quem aprecia o mundo geek.

Por isso, ele fundou a própria academia, batizada de "Fighting Nerds", que abraça os geeks e busca fortalecer quem segue esse estilo de vida, para acabar com o bullying.

"Sinto que a galera tem orgulho de ser representada por mim. 'Tem um moleque inteligente lá em cima'. Os lutadores brasileiros acabam agindo muito por impulso, 'tem um moleque que pensa lá em cima'. Vejo gente no cenário do MMA nacional usando coisas que eu usava. Isso é gratifcante, ser exemplo, na academia me sinto como exemplo até aqui na academia, fui o primeiro a chegar no UFC. Meu sonho sempre foi fazer todo mundo que está comigo chegar lá junto", disse Borralho.

"Curto bastante anime, filme de super-herói, jogar videogame. Gosto de jogar xadrez também. Cada um da equipe tem uma parte nerd, mas o xadrez é um consenso entre a gente, até quando a gente está na sauna, fazendo a mente ali atenta. A gente está conseguindo tirar o paradigma das pessoas de que o lutador é aquele cara bruto, que não pensa. É uma nova versão dos lutadores, especialmente para o Brasil".