<
>

UFC 267: Glover Teixeira foi de imigrante ilegal e festeiro que bebia garrafa de uísque à chance de cinturão

play
Glover Teixeira relembra 'falta de foco' e excesso de festas: 'Bebia, tranquilo, uma garrafa de uísque' (2:11)

Lutador falou com exclusividade à ESPN (2:11)

Aos 42 anos, Glover Teixeira vive o auge da carreira e pode culminar história incrível de vida com o cinturão no UFC 267


Glover Teixeira terá a oportunidade de ser campeão dos meio pesados neste sábado, no UFC 267, em Abu Dhabi, diante do atual dono do cinturão da categoria, o polonês Jan Blachowicz. Aos 42 anos de idade, o brasileiro de Sobrália, Minas Gerais, pode sacramentar o auge de sua carreira com o título do Ultimate, algo inimaginável para quem começou no MMA depois de "velho".

*Conteúdo patrocinado por Sportingbet

A epopeia de imigrante ilegal

Desde 2020, Glover Teixeira tem o passaporte norte-americano, além do brasileiro. Algo difícil de se imaginar para quem já passou "perrengue" por entrar ilegalmente nos Estados Unidos há cerca de 20 anos.

"Quando eu vim pela primeira vez, em 1999, cheguei pelo México. A travessia foi no deserto, no México, Tijuana. Por isso eu demorei pegar o green card e o visto pra lutar no UFC. Fui chamado em 2007 e só consegui entrar no UFC em 2012", disse Glover, à ESPN.

Para quem trabalhava na roça em Sobrália e não tinha um objetivo de vida claro, valia o risco tentar entrar nos Estados Unidos para ganhar uns "trocados".

"Eu entrei ilegal em 1999. A gente vinha com os coiotes (traficantes que 'vendem' a travessia), os caras que trazem do Brasil, atravessam gente. Chega no México tem os caras que veem tudo na hora certa, sabem os caminhos. É tudo organizado, é o crime organizado pra trazer a galera. Eu com 19 anos não imaginava isso. Um punhado de pessoas fazia isso na minha cidade, a gente só tinha meio que aquela esperança", relembrou.

"Eu só vim pra ganhar dinheiro mesmo, trabalhei com jardinagem, de pedreiro, servente de pedreiro, queria ganhar uns dólares e voltar para o Brasil. Não gostava de estudar, trabalhava na roça. Meu tio falou com um amigo, que me disse: 'Um cara trabalhador igual você vai ganhar muito dinheiro nos Estados Unidos'. Fiquei com isso na cabeça com 17,18 anos e, em janeiro de 99, eu parti pra cá", completou Glover, que desde então reside nos Estados Unidos.

play
2:11

Glover Teixeira relembra 'falta de foco' e excesso de festas: 'Bebia, tranquilo, uma garrafa de uísque'

Lutador falou com exclusividade à ESPN

Da fronteira com o México, Glover Teixeira começou a perambular pelos Estados Unidos, até parar no estado de Connecticut, literalmente do outro lado do país, onde começou a trabalhar com paisagismo. "Trabalhei na fundação de obra, botar cimento, fazia base, depois paisagismo, que era plantar árvore, cortar árvore, jardinagem bruta, com motosserra".

Até que ele foi visto como um potencial bom lutador, sendo que jamais havia feito qualquer arte marcial em 22 anos de vida. "Um cara falou comigo, estava levantando peso trabalhando, ele me mostrou a fita do Royce Gracie e falou 'você tem que fazer isso aqui'. Eu queria treinar boxe, mas ele me mostrou a fita do Royce Gracie, eu fiquei encantado com aquele cara derrubando aqueles monstros e comecei ali, em 2001. Nunca tinha feito nada de luta".

Glover começou a praticar MMA em Connecticut e foi avistado por John Hackleman, que o chamou para treinar na Califórnia, na mesma academia que a lenda do UFC Chuck Lidell. E cerca de um ano depois de começar a treinar, Glover fez sua estreia na modalidade.

A ascensão no UFC e disputa de cinturão com Jon Jones

Depois de anos lutando no WEC, Shooto e outras organizações, enfim em 2012, já com a situação de imigração resolvida, chegou a hora de Glover ir para o UFC. Ele estreou com cinco vitórias seguidas, incluindo as lutas contra Quinton Jackson e Ryan Bader, e foi disputar o cinturão dos meio pesados com Jon Jones em 2014.

Glover perdeu para Jones e por anos ficou entre os 15 melhores da categoria, mas sem brilhar e disputar um cinturão. Até que em 2020, já aos 40 anos, veio um "estalo" na mente do mineiro.

O auge no UFC

play
3:33

Glover Teixeira relembra chegada como imigrante ilegal nos Estados Unidos e começo no MMA

Brasileiro falou com exclusividade à ESPN

Para atingir a forma atual, Glover disse que deixou um vício de lado: o álcool. O brasileiro admitiu que em reuniões com amigos bebia facilmente uma garrafa de uísque ou conhaque.

"Eu estava muito na vidinha de...eu até falo com meu sobrinho que está lutando, falei com ele 'você está vivendo muito aquela vidinha de Malhação'. O cara sai, bota o kimono nas costas, luta, vai tomar um açaí, cerveja no fim de semana, vai num sushi na quinta-feira...todas essas coisas atrapalham o atleta, a disciplina, foco. Eu tirei esse negócio de vida boa", explica Glover.

"A gente começa a ganhar um dinheirinho no UFC, ainda mais aqui nos EUA, as coisas melhoram e você começa a caminhar pra essa rotina dessa vida. Estou bem mais tranquilo agora, só focado no treino, café sem açúcar, sem nada, o peso está ótimo. Nessa época eu geralmente estava com depressão, com 106kg, 107kg, tem 2 semanas pra perder...essas coisas que fizeram a diferença, mudança de vida radical. Começou devagar, ganhei luta, treinei bem, dormi bem. O camp contra o Anthony Smith foi a parada onde eu deixei tudo de lado, deu pandemia, ninguém podia ir pra lado nenhum, tive meu melhor camp e performance da minha no UFC. Foram 4 rounds ali que não senti nada", disse Glover.

O brasileiro explicou como saiu do estilo de vida que estava o prejudicando.

"Eu bebia uma garrafa de Hennessy, uísque, tranquilo. Não no camp, mas fora do camp, 5 semanas antes da luta eu saía pra beber uma cervejinha, diminuía um pouco no camp. Faltavam 4 semanas a gente parava, mas quando faltava 4 semanas já estava fu***, já estava com 106kg. Aí tinha que parar por obrigação. Hoje comecei esse camp com 102kg, agora estou com 99kg, isso é tranquilidade. Quando eu falo que eu saía pra festa, que gostava, o pessoal acha que era demais. Não tive problemas com álcool, era churrasco, meu problema era resenha de ficar no meio da galera no churrasco, tomando cerveja, uma cachacinha ali, uísquizinho ali. Mas tem que mudar o estilo de vida, chega aos 42 anos é hora de tranquilizar".

play
2:00

Glover Teixeira fala sobre influência de Royce Gracie em seu início no mundo das lutas

Brasileiro falou com exclusividade à ESPN

Glover disse também que não esperava ter uma chance de título nesta idade. "Pensava que talvez ia aposentar antes. O processo de perder peso, eu pensava em passar para o peso pesado porque ficava de saco cheio de perder peso. Eu falava assim: 'se lutar até os 40 está bom demais'. Agora estou com 42 anos e feliz pra caramba. Essa mudança me inspirou mais, estou com mais vontade de treinar".

Mas ele admite que se tiver o punho erguido no sábado e ser consagrado o campeão dos meio pesados do UFC, aí a bebida está liberada. "Aí está liberado (risos), a gente vai fazer uma festa aí por uns dias".