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UFC: Anderson Silva relembrou drama e dor por perna quebrada e deu detalhes da recuperação que Weidman terá pela frente

Quis o destino que uma infeliz coincidência acontecesse: sete anos e meio depois de ver Anderson Silva quebrar a perna ao meio em luta contra ele próprio, Chris Weidman teve a mesma assustador lesão neste final de semana em luta diante de Uriah Hall.

Ex-rival, o brasileiro logo foi às redes sociais desejar uma pronta recuperação e mandar energias positivas.

Afinal, ele sabe muito bem como serão os dias pela frente. E eles serão bem sofridos.

Weidman já passou por cirurgia neste domingo. Segundo a esposa, o ex-campeão está bem e também ciente de que não terá dias fáceis pela frente, mas ao mesmo tempo está contente por todo apoio que recebeu.

Em entrevista exclusiva com a ESPN em 2019, Anderson Silva descreveu como viveu o drama da lesão e recuperação.

* Matéria publicada pela primeira vez em 7 de fevereiro de 2019

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A lesão de Anderson

Quando Anderson Silva subiu ao octógono para enfrentar Chris Weidman naquela noite trágica de dezembro de 2013, seu foco estava em reconquistar o cinturão dos médios no UFC, título que Weidman havia arrancado dele alguns meses atrás naquela que seria sua primeira derrota em sete anos.

Esse foco mudou de direção bruscamente no primeiro minuto do segundo round, quando Weidman defendeu o chute de Silva e a força do impacto imediatamente fraturou a parte inferior da perna do brasileiro, tanto a tíbia quanto a fíbula. Bastou um piscar de olhos para que os impulsos neurais chegassem ao seu cérebro sinalizando que algo havia errado, e qualquer um assistindo à luta conseguia ver o membro distorcido de Silva balançando no ar, dobrando-se de uma forma que as leis da física não permitem quando os ossos estão intactos.

As pessoas que estavam assistindo ficaram em choque. De acordo com o narrador do UFC, Jon Anik, foi um momento ímpar na história do esporte.

“Silva talvez estivesse em seu melhor momento naquela luta, por mais que ele estivesse vindo de uma derrota amplamente divulgada pela mídia”, disse Anik. “Em 2013, muitos o consideravam o maior lutador pound for pound (de todas as categorias) que já foi visto, e, com certeza, o mais bem-sucedido. Seria como se Michael Jordan tivesse quebrado a perna no ponto mais alto de sua carreira.”

Quando tomou ciência de sua lesão, a reação de Silva foi instintiva e rápida. Ele segurou sua perna como se estivesse a protegendo, tentando mantê-la segura enquanto desabava na lona em aflição.

À medida que a equipe médica corria para atendê-lo, o barulho na arena começou a desvanecer em sua mente. Nos minutos seguintes – que foram uma eternidade para Silva – ele se perguntou o que havia feito para merecer esse destino. Enquanto era carregado em uma maca, ele perguntou ao seu treinador:

“Por que isso acontece comigo?” perguntou. “Por que Deus não me ajuda? Por que Deus não me protege?”

Ele se lembra de seu técnico simplesmente dizendo: “Relaxe, não fale nada agora.”

Horas depois, Silva passaria por uma cirurgia para inserir uma haste de titânio em sua perna para estabilizar a fratura. Por mais devastadora que a lesão tenha parecido, poderia ter sido pior. Havia possibilidade de ocorrer uma fratura exposta, o que aumentaria o risco de infecção. Ele poderia ter sofrido danos graves aos vasos sanguíneos ou ao tecido mole da região, o que potencialmente comprometeria a saúde de sua perna no futuro. No fim das contas, Silva teve sorte em ter escapado de danos colaterais sérios.

Mas esse era um lutador conhecido especialmente por sua marca registrada de distribuir chutes. O lado bom da lesão não estava claro para ele, pelo menos não ainda.

O choque inicial por ter sofrido a lesão foi rapidamente substituído por medo e ansiedade. Ele não suportava olhar para a perna nas horas imediatamente posteriores à cirurgia, com medo de ver algo tão irreconhecível que não pudesse aguentar. Ele admitiu ter pensamentos temerosos como o de ainda poder perder sua perna ou de não poder mais caminhar. Era mais fácil não olhar.

“Eu estava com medo”, disse Anderson. “Não olhei para a minha perna. Nem vi minha perna. Eu só tomei os remédios e dormi por dois dias.”

O encorajamento constante de seus médicos e das pessoas próximas a ele finalmente deram ao lutador a coragem para olhar para baixo. Seu rosto se iluminou. Nenhuma deformidade. Nenhum cabo de metal, como sua imaginação havia sugerido. Apenas uma perna. Sua perna. Estava intacta e estranhamente familiar, apesar da sensação de que havia sido separada do resto do corpo apenas alguns dias antes.

Naquele momento, Silva fez uma promessa a si mesmo.

“Agora é hora de ter mais respeito pela minha vida, pelo quanto sou sortudo nesse mundo.”

O medo pelo qual Anderson Silva passou antes foi diminuindo quando ele começou a confiar em sua perna para apoiar o peso, mesmo que só um pouco no começo, e cada vez mais à medida que começava a se sentir mais habituado. Mas essas emoções iniciais foram substituídas por outra sensação: dor. Muita dor.

A dor que o lutador sentiu veio parcialmente em razão de sua decisão de parar de tomar remédios para dor poucos dias após a cirurgia. Ele estava preocupado com o fato de que os remédios o estivessem livrando totalmente da dor, mas que, por mais que fosse ótimo estar livre dela, isso o fizesse ficar instintivamente ansioso. Ele avisou à esposa que dependeria somente de gelo para se recuperar, mas aprendeu bem rápido que pagaria caro por isso.

A dor era tão extrema, especialmente à noite, que ele implorava à sua esposa que o levasse para dar longas e demoradas voltas de carro para que seus filhos não o vissem chorar. Grande lutador peso-médio do UFC, Anderson Silva estava lidando com muito mais que uma perna quebrada. Sua alma fraturada e sua confiança enfraquecida seriam muito mais difíceis de recuperar.

Assim começou o processo de uma lenta e gradual recuperação. Começou com Silva aprendendo a andar novamente -- hesitante no começo, aumentando gradualmente a pressão em seu pé até que conseguisse aguentar todo o peso do corpo -- e eventualmente andando “normalmente”, conforme seu cérebro ia se acostumando com a perna.

Mas Silva descobriu rapidamente que o corpo tem uma capacidade de compensação incrível, inventando alternativas para faltas de força, equilíbrio e coordenação motora que, se não corrigidas, podem levar a um grave enfraquecimento físico com o passar do tempo. A passada muito mais curta com a perna machucada ao caminhar, o uso maior de força pela perna mais forte ao se agachar e a hesitação ao virar para o lado machucado eram reflexos da resistência de seu corpo em confiar no membro em recuperação. Foi a fisioterapeuta de Anderson que chamou a atenção do lutador a essas compensações logo no início, e então trabalhou com ele para ajudar a superá-las.

Ele estava longe de terminar. A próxima batalha seria usar sua perna esquerda para chutar. Obviamente havia o desafio mental de vencer o medo de repetir a lesão. será que aquela perna -- haste e osso -- realmente aguentaria a força do impacto?

Mas também havia um desafio mais sutil, que seria o de se apoiar na perna esquerda para chutar com a direita. Será que ele teria força e equilíbrio suficientes na perna esquerda para desferir um chute poderoso com a perna direita?

Ele começou os testes. Chutes com menor amplitude e com pouca velocidade e força. Então, aumentava a velocidade, a força e a amplitude. Finalmente, o lutador já começava a chutar com confiança novamente.

Depois de terminar todos os elementos do treinamento, só havia mais um teste: voltar ao octógono. E esse teste veio 13 meses depois, em 2015, quando ele enfrentou Nick Diaz no UFC 183. Anderson Silva não só passou no teste como superou as expectativas. Pode não ter sido sua melhor luta, e certamente não foi aquela em que demonstrou mais domínio, mas pode sim ter sido a mais importante. Vencendo por decisão unânime (que mais tarde terminou “sem resultado” após o brasileiro ter sido testado positivo no antidoping), Anderson mostrou ao mundo – e, mais importante, a ele mesmo – que ele com certeza poderia lutar de novo.

O lutador dá o crédito à fisioterapia por trazê-lo de volta depois de sua lesão devastadora.

O Anderson pós-lesão não perdeu a paixão por lutar. Ele acredita que o “por que?” perguntado na noite da lesão já foi respondido.

“Nossa, obrigado Deus, obrigado por me dar a oportunidade de entrar na jaula novamente e fazer algo especial, porque esse é quem eu sou”, disse Silva. “Eu amo lutar. Eu amo.”