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Deiveson Figueiredo foi sushiman, cabeleireiro e mototáxi; agora quer quebrar jejum do Brasil no UFC

"Já passei por quase tudo nessa vida, em matéria de guarida, espero ainda a minha vez".

As palavras de Zeca Pagodinho podiam muito bem contar a história de Deiverson Figueiredo. O lutador brasileiro, que irá enfrentar Joseph Benavidez no próximo sábado (18) pelo cinturão do peso pena do UFC, já passou por tudo na vida.

De origem humilde, o paraense só começou a se dedicar integralmente a luta com mais de 20 anos. Antes disso, foi sushiman, cabeleireiro e mototáxi para tentar sobreviver. Agora, tenta quebrar um jejum que dura 2017: das últimas 10 lutas de cinturão, o Brasil só venceu uma, com o próprio Deiveson, contra Benavidez.

O brasileiro, porém, não havia batido o peso e não conquistou o cinturão que tentará levar novamente neste sábado (18/7).

Em bate-papo exclusivo com o ESPN.com.br, Deiveson contou histórias sobre seu passado, falou do apelido de "Deus da Guerra" e analisou Benavidez, quem ele prometeu nocautear ainda no primeiro round.

As experiências como sushiman, cabeleireiro e mototáxi

A minha vida foi bem complicada. Não nasci em berço de ouro. Eu tive que trabalhar bem cedo. Com 16, 17 anos, meu pai separou da minha mãe. Naquela época, a gente só estudava, praticamente. Depois que ele separou e, mesmo com todas as dificuldades, terminamos o estudo e meu irmão, Figueiredo Jr, decidiu ir embora para Belém do Pará. A gente morava em Soure, interior do Pará. Ele foi para Belém e começou a trabalhar de sushiman. Até demorei um pouquinho para ir para Belém, mas a gente já treinava em Soure com o Yuri Marajó. Aí eu decidi ir embora, fazer companhia para o meu irmão e para trabalhar como sushiman. Fui, aprendi a fazer sushi, fiquei lá por três meses, senti saudade de casa e voltei para o interior.

Logo em seguida surgiu mais um trabalho, para ser segurança de um salão. Eu fui para o salão, mas lembro que meu pai me deu uma máquina de cortar cabelo um dia e eu sempre ruía a cabeça dos caras na rua e foi aí que eu fui para o salão, trabalhar de segurança. Fiquei uma semana de segurança e depois fui para serviços gerais, ficava limpando o salão. Só que eu queria mais, queria trabalhar na área do cabelo. Pedi para o meu patrão para trabalhar na área dele, faria até curso se ele me desse a oportunidade. Ele me deu e fiquei um ano trabalhando como auxiliar dele e me ajudou muito. Mas na época eu já tinha uma paixão pelo MMA, já lutava. E na época o Aldo já lutava, quebrava todo mundo, cara bom demais. Isso me inspirou, me incentivou a sair do meu trabalho e viver só da luta. Decidi sair do meu trabalho e ficar só em casa cortando cabelo.

Mas logo minha irmã separou e eu fui morar com ela em outro bairro. Daí não cortei mais cabelo, mas precisava me manter. Fui para a esquina com os caras que tem lá e pedi para trabalhar com eles, os mototáxis que tenham na esquina de casa. Os caras me receberam super bem e na época eu não tinha carteira, habilitação, nada. Minha irmã tinha uma Bizinha e eu peguei emprestada. Levantava 5h da manhã para fazer uma, duas ou três corridas que desse para defender uma grana para sair com a namorada na época. Já pensou namorar liso? (risos). Tive que me virar de qualquer jeito, aí comecei a trabalhar e são muitas histórias trabalhando no mototáxi.

A melhor 'resenha' no mototáxi

A Bizinha era pequena, né? Fui levar um cliente em outro bairro e fui embora. Esse dia foi insano. Deixei um cliente e quando estava voltando me deparo com uma blitz. Subi com a motinho na calçada porque eu não tinha habilitação, fingi que tinha quebrado a corrente, peguei e voltei com ela empurrando por cima da calçada. Quando eu saí de lá, peguei outro cliente que entrou para outro bairro. Nesse bairro eu peguei um cara de 102kg, um cara grande e eu estava numa Bizinha com problema no disco, sem força. E eu para não perder o dinheiro falei 'vamo, né?'. Ele sentou na moto e, cara, a moto não saía nem do lugar, cara. Eu acelerava e ela só fazia barulho.

Aí eu falei 'vamos fazer o seguinte, vai para aquela descida ali que aí a moto vai funcionar e quando ela pegar o embalo ela não para e a gente vai'. E assim foi, a bichinha foi espremendo e o cara montou lá e, cara, para mim chegar aonde ele queria foi um trabalho danado. Até que eu consegui chegar com o cara para não perder o dinheiro.

O apelido de Deus da Guerra

Foi só pelo personagem mesmo. Um cara super agressivo no jogo. Até comprei um Play para mim, o jogo dele, para tentar aprender a jogar. Eu vi um cara super agressivo e vi que parecia comigo, eu sou muito agressivo na hora de lutar. Então super deu certo e agora a galera me conhece como Deus da Guerra. Por onde eu passo a galera fala 'e aí, Deus da Guerra?' e eu 'e, aí, irmão?'. Então combinou bem.

O que esperar de Benavidez

A gente espera um Benavidez não caindo para a trocação, mas muito estrategista, querendo me colocar para baixo. Fazendo um jogo de 'toca e foge', mas não sei até quando ele vai conseguir fugir. Eu sou um cara que luto todo tempo cercando, enquadrando. Dei uma refinada em todos os golpes que não usei na primeira luta e agora estou indo para nocauteá-lo. E a minha maior vontade é finalizar no primeiro round.

A preparação para o fuso e o calor de Abu Dhabi

Nunca estive em Abu Dhabi, essa vai ser a primeira vez. Creio que não vá ser muito diferente porque eu moro em uma cidade muito quente. Em questão de fuso horário, a gente teve uma semana pra se adaptar isso e vou estar bem preparado. Minha equipe me preparou muito bem e eu estou indo lá para fazer a luta da noite, pode ter certeza, e pegar o que é meu, que é o cinturão.