O evento principal do UFC Fight Night desta quarta-feira em Jacksonville, Flórida, provocou fortes reações por duas razões completamente diferentes.
Por um lado, Glover Teixeira, brasileiro de 40 anos, foi elogiado por sua quarta vitória consecutiva, vencendo Anthony Smith, que há pouco mais de um ano enfrentava Jon Jones pelo título dos meio-pesados.
Por outro lado, o dano que Smith recebeu fez com que vários lutadores nas redes sociais se manifestassem dizendo que a luta deveria ter sido interrompida muito antes. Daniel Cormier, que estava trabalhando na transmissão ao lado do octógono, concordou.
I would have stopped the fight, corner could have saved their guy from getting finished. Some mistakes in that corner tonight. And I love those guys! Too much instruction, no crowd to filter it. Anthony Smith is a savage, but props to @gloverteixeira on big victory.
— Daniel Cormier (@dc_mma) May 14, 2020
Apesar das reações dos que assistiram à luta, Smith não teve nenhum problema com a interrupção da luta, ou com o tempo que ela demorou para ser interrompida.
"Eu estou tranquilo com as decisões do árbitro e do meu corner", disse Smith a Ariel Helwani, da ESPN, logo após a luta. "Quando o juiz deixou claro que ele precisava ver alguma coisa ou iria parar, eu fiz o que tinha que fazer para permanecer na luta. Saio da batalha com o meu escudo ou no meu escudo. Essa é minha regra. Ponto. "
A noite também contou com performances impressionantes de lutadores tentando subir nos rankings, incluindo o companheiro de equipe de Justin Gaethje, Drew Dober, que pode estar prestes a fazer barulho na categoria dos leves.
Nossos Ariel Helwani, Brett Okamoto, Marc Raimondi e Jeff Wagenheim falam de tudo que você precisa saber sobre o segundo dos três eventos em oito dias em Jacksonville.
O evento principal deveria ter sido parado antes?
Helwani: Sim. Sim. Sim. Foi duro de assistir. Eu acho que você poderia argumentar que a luta acabou no terceiro round, definitivamente no quarto, então não consigo entender como chegou ao quinto. O corner de Anthony Smith errou. E estou surpreso, porque a equipe dele é uma das melhores do esporte. O árbitro Jason Herzog falhou com Smith também. E também estou surpreso com isso, porque ele é um dos melhores árbitros do esporte. Isso foi imprudente, desnecessário e flagrante. Smith não estava vencendo essa luta nos rounds finais, então não havia sentido em deixá-lo continuar lutando.
Eu odeio o fato de que os corners são tão relutantes em "jogar a toalha" no MMA, mas os treinadores de boxe fazem isso o tempo todo. Eu acho que é algo ruim para o esporte. Tudo o que sei é que precisa parar. Smith levou uma surra que ele pode sentir os efeitos por anos. Esses lutadores precisam ser salvos de si mesmos às vezes, e as duas entidades criadas para isso - o juiz e o corner – deixaram Smith desamparado.
Okamoto: Poderia ter sido, e provavelmente deveria ter sido, parada no terceiro round. Assistindo ao vivo, eu esperava que o juiz Jason Herzog interrompesse a luta, e fiquei surpreso quando ele não o fez - e depois fiquei mais surpreso ainda quando Smith sobreviveu. Eu acho que o Smith nunca esteve na luta a partir daquele momento. Mas você vê isso no MMA algumas vezes, quando um árbitro chega muito perto de parar uma luta, dá ao lutador todas as chances do mundo e, de alguma forma, o lutador sobrevive - mas é isso. Eles sobrevivem. Eu acho que houve muitas oportunidades para Herzog parar a luta depois, mas elas não eram necessariamente situações "obrigatórias". Smith continuou a se mover e se defender, embora o desempenho de seu trabalho fosse questionável.
Às vezes, é difícil criticar um corner por não jogar a toalha, porque ele sabe coisas que não sabemos. Por exemplo, neste caso, o corner de Smith sabia que ele tinha dentes falsos que já haviam caído antes, então eles interpretaram sua declaração de "meus dentes estão caindo" de uma maneira diferente de nós. Mas, dito isso, acho que o corner de Smith deveria ter parado a luta. Eu assisti muito MMA, e com certeza parecia que Smith já estava acabado, apenas sofrendo mais dano desnecessariamente.
Raimondi: Provavelmente, mas Smith é um dos caras mais durões do UFC. Eu consigo entender por que ele queria se manter na luta, e seus treinadores obviamente sabem o quão duro ele é. Smith, vencendo o primeiro round e lutando bem no começo, certamente poderia ter contribuído para a decisão deles de deixá-lo continuar. No entanto, eu não reclamaria se o árbitro Jason Herzog paralisasse a luta no terceiro round, quando Smith foi derrubado com um gancho de esquerda e Glover começou a atacá-lo.
Herzog é um dos melhores árbitros do mundo e deu a Smith muitas oportunidades para continuar. Outro ponto da luta que eu não reclamaria se fosse paralisada foi no upper de Glover, que congelou Smith no quarto round. Houve inúmeras ocasiões em que a luta poderia ter sido interrompida, mas estamos longe da pior situação que alguém já viu no MMA, que parece ter uma cultura que vai contra um corner parando a luta. Wagenheim: Nós pulamos no pescoço dos árbitros quando eles param as lutas - muito cedo ou muito tarde - e adoramos criticar os juízes por darem 29-28 em lutas em vez de 28-29. Mas e os membros do corner? E os técnicos que conhecem seu lutador melhor do que ninguém? Anthony Smith continuou lutando, e é por isso que o árbitro Jason Herzog não paralisou a luta. Smith não queria sair; ele é conhecido como "Coração de Leão" por uma razão. Mas até o rei da selva precisa de apoio de seu time. Smith acertou um golpe no terceiro round inteiro. Após o fim da parcial, ele sentou no banco esgotado. No entanto, seus treinadores apenas o instruíram a continuar. Tudo bem, dê mais uma chance a ele; mas assim que ele engoliu aquele uppercut com menos de 10 segundos do quarto round, a toalha deveria ter sido jogada.
Glover Teixeira tem 40 anos, mas venceu quatro lutas consecutivas. Ele pode fazer mais uma corrida rumo à disputa do cinturão dos meio-pesados?
Helwani: Eu acho que não, mas esta é definitivamente uma sequência impressionante. Lembre-se, Teixeira está prestes a completar 41 anos, e essa foi sua quarta vitória consecutiva. Nada mal para um cara que agora tem 38 lutas. No entanto, não sei se ele pode vencer caras como Dominbick Reyes ou, eventualmente, Jon Jones. Lembremos que ele foi derrotado por Jones em 2014. A boa notícia para Teixeira é que a categoria dos meio-pesados está muito superficial hoje em dia, então não há muito espaço entre ele e o topo. Coisas mais malucas já aconteceram antes.
Okamoto: Bom, ele está fazendo essa tal corrida. E acho que não haverá outra quando essa acabar. Teixeira reconheceu a importância dessa luta durante toda a semana. Não é todo dia que um cara de 40 anos consegue quatro vitórias consecutivas contra adversários mais jovens. Não é impossível, mas não é o normal. Teixeira ganhou o direito de ter aquela luta que o colocará na disputa pelo título - e para mim, a luta é contra Jan Blachowicz. Ainda precisamos ver o que exatamente o UFC fará com Jon Jones, mas aprece que será uma revanche contra Dominick Reyes (com a qual eu concordo). Se for esse o caso, faça uma disputa entre Glover e Blachowicz para ver quem é o próximo. E esse será o fim da corrida de Glover, independentemente do resultado. Ou ele recebe a disputa pelo título ou não.
Raimondi: Ele pode e está. Smith é um meio-pesado de elite; ele lutou cinco rounds com o campeão no ano passado. Teixeira finalizou a luta contra ele na quarta passada. Agora, Teixeira ainda está atrás de Dominick Reyes e Jan Blachowicz na hierarquia dos meio-pesados. Eu adoraria ver Teixeira enfrentar Thiago Santos quando esse voltar. Vamos ver se Teixeira consegue passar por ele. Se ele conseguir, há uma chance de Teixeira disputar o cinturão pela primeira vez em cinco anos.
Wagenheim: Com Teixeira, não é uma questão de se “ele pode”. Se você é o 5° do ranking, está numa corrida pelo título. No entanto, ele ainda está atrás de Dominick Reyes e Jan Blachowicz. Não está claro qual desses homens será o próximo a enfrentar Jon Jones. Mas, antes que tudo esteja decidido, ambos provavelmente terão chances de título. Então Teixeira tem uma espera pela frente. É aqui que a idade entra em jogo. Ele pode manter seu alto nível por tempo suficiente para continuar disponível quando uma luta pelo cinturão aparecer? Se isso acontecer ou não, espero que ele não desapareça. Ele é muito bom lutador e um ótimo cara.
Ovince Saint Preux deve voltar aos meio-pesados ou continuar nos pesados?
Helwani: Eu não odeio a ideia de Ovince Saint Preux ficar no peso pesado, apesar da derrota. Eu não achava que cortar o peso para bater 93kg era um sacrifício muito grande, mas seu empresário, Oren Hodak, me disse no início desta semana que estava se tornando um problema real. Ben Rothwell é um dos maiores pesos pesados do UFC, então esse foi um primeiro teste bem difícil para OSP. Mas se ele pudesse enfrentar uns pesados menos badalados, ele poderia ter uma vantagem de velocidade significativa. No final, porém, acho que ele tem mais chance de ter sucesso nos meio-pesados.
Okamoto: Respeitosamente, acho que não importa. Ovince Saint Preux está lutando no UFC desde 2013. Ele teve seus altos e baixos e ganhou mais do que perdeu. Por fim, ele nunca foi uma estrela. Atualmente, ele não é um candidato ao título. Ele tem 37 anos. Não estou dizendo que é impossível que ele encontre um caminho para disputar o cinturão, mas se estamos sendo honestos, não é provável também. Ele é um veterano que claramente tem seu lugar no UFC, mas terá dificuldade em entrar no top-5 de qualquer categoria. Então, lute nas duas. Por que não? Ele basicamente disse que esse é o seu plano e acho que é a abordagem correta. Ele viu essa oportunidade surgir contra Ben Rothwell e a aproveitou – resultando em uma luta divertida. Mantenha suas opções em aberto. Se uma luta surgir nos meio-pesados, aceite-a. Se outra mais interessante surgir nos pesados, aceite também.
Raimondi: Volte aos meio-pesados, mas se lutas interessantes surgirem nos pesados - talvez em curto prazo - por que não? Saint Preux é um cara bem durão nos meio-pesados. Ele é capaz de derrotar quase qualquer um, e deu a Jon Jones uma luta dura há três anos. Mas, resumindo, Saint Preux tem sua vaga garantida nos meio-pesados e não colocou fogo no mundo ao lutar nos pesados. Aos 37 anos, OSP já não é mais um garoto. Uma volta aos meio-pesados para enfrentar um jovem promissor deve ser o próximo passo.
Wagenheim: Se Saint Preux continuasse nos pesados, ele nem sempre dividiria o octógono com caras tão grandes quanto Rothwell. Mas mesmo que Saint Preux fosse colocado para lutar com alguém do seu tamanho, esse alguém poderia ser um cara mais nocauteador que Rothwell ou que sufoca mais seu adversário. OSP pesou 108kg, e há muitos pesos pesados mais leves que isso. Ele sempre lutou nos meio-pesados e nunca deixou de bater o peso. A sua casa é a categoria dos 93kg.
O que esperar de Drew Dober na categoria dos leves?
Helwani: Eu vou dizer o seguinte: não esperava isso de Dober. Ele perdeu suas duas primeiras lutas no UFC e começou 1-3 com uma luta sem resultado. Mas, com o tempo, ele se tornou um dos mais intrigantes novatos dos leves. Ele está com três vitórias consecutivas, todas finalizando a luta. Sua equipe, Elevation, também se tornou recentemente uma das melhores do esporte, com Justin Gaethje, Curtis Blaydes, Cory Sandhagen e o próprio Dober treinando lá. Espero que o UFC não force Dober muito rápido - e acho que não, porque a divisão dos leves é uma das mais cheias - mas acho que ele pode ser um cara importante na divisão, sim. Sim, eu sei que ele tem 31 anos, mas ainda parece que ele é um cara novo nos leves, porque parece um cara diferente daquele que estreou no UFC em 2013.
Okamoto: Ainda é difícil dizer, mesmo agora. A categoria dos leves é tão boa. Dober venceu oito de suas últimas dez lutas, o que é bem difícil de fazer nos leves, mas mesmo ele provavelmente admitiria que não lutou com o melhor que a divisão tem a oferecer. Aqui estão duas coisas em que penso quando se trata de Dober. Primeiro, paramos de prestar atenção nele muito cedo. Esse cara não conseguiu um contrato como participante do "The Ultimate Fighter" em 2012 e depois perdeu três de suas primeiras quatro lutas quando chegou ao UFC. E naquele momento, infelizmente, ele precisaria de muito para ganhar atenção como um potencial candidato. Bem, ele fez isso e mais um pouco. E segundo, não descarto o fato de ele ser um dos principais parceiros de treinamento de Justin Gaethje.
Isso não significa que ele é tão bom quanto Gaethje, ou que ele vai conquistar as mesmas coisas, mas ter um estilo semelhante e estar próximo todos os dias de um cara que quase alcançou o topo deste esporte? Eu acho que é uma vantagem que Dober tem, principalmente em termos de confiança. Ainda não consigo dizer que ele vencerá os melhores da categoria, mas não ficaria chocado se ele o fizesse.
Raimondi: Não sei se algum dia veremos Dober na elite dos leves - caras como Khabib Nurmagomedov, Justin Gaethje, Tony Ferguson, Dustin Poirier e Conor McGregor. Mas, novamente, não achei que Dober seria capaz dessa excelente sequência em que ele está agora. Eu posso vê-lo se tornando um dos 10 melhores lutadores dos leves. Ele também é um lutador extremamente empolgante de se ver, com mãos pesadas. A divisão dos leves, no entanto, é um campo minado. Vai ser difícil quebrar esse ar rarefeito.
Wagenheim: O desempenho de Dober foi tão impressionante que eu adoraria voar para Denver em algum momento apenas para assistir ele e Justin Gaethje na academia. Mas não vamos exagerar muito com essa vitória – já que não foi contra um cara do top-10. Dober se beneficia do mesmo treinamento de Gaethje, o que ficou evidente em sua paciente vitória contra Alexander Hernandez. Mas existe um longo caminho entre Dober e Gaethje, e embora Dober possa diminuir essa lacuna, há muitos candidatos na divisão servindo como barreiras. Algo me diz que isso não vai desanimar Dober, e que eu vou gostar de ver sua subida na categoria.
Qual foi a maior surpresa do evento para você?
Helwani: Há três anos, Chase Sherman era considerado um prospecto legítimo na divisão dos pesados do UFC. Além disso, ele também estava arrebentando no Twitter. Ele era o rei dos GIFs do UFC, divertido dentro e fora do octógono. E então ele perdeu três seguidas - duas delas por nocaute - e saiu da organização. Após ser dispensado, Sherman lutou pela Island Fights, com sede na Flórida, onde venceu três seguidas e também pelo Bare Knuckle FC, onde venceu uma, empatou uma e perdeu uma. Quando ele foi parar no BFC, imaginei que ele não voltaria mais ao UFC. Estava errado. Sherman aceitou a luta com uma semana de antecedência e venceu Isaac Villanueva. Foi a melhor performance de Sherman no UFC.
Okamoto: o nocaute de Brian Kelleher contra Hunter Azure. Kelleher agora tem 10 nocautes em sua carreira, então sabemos que ele tem poder, mas ele subiu de peso nessa luta e conseguiu. Ele era o lutador menor nesse combate na categoria dos penas. Ele também claramente perdeu o primeiro round. Azure estava bem. A luta não estava fora de controle, mas Azure estava melhor. E, de repente, Kelleher sua dustância, e o gancho de esquerda que derrubou Azure foi um dos socos mais chocantes de toda a noite. Ver esse peso galo subir uma divisão e nocautear um cara dessa maneira foi um grande momento.
Raimondi: Thiago Moisés finalizando Michael Johnson com uma chave de tornozelo, já que essas finalizações são extremamente raras no MMA de alto nível. Em segundo lugar, o começo de round de Moisés foi maluco. Ele basicamente começou o segundo round correndo em Johnson e mergulhando em suas pernas. Foi tudo ou nada, e funcionou. Johnson, um lutador incrivelmente talentoso, mas inconsistente, estava dominando a luta até aquele momento. Mas Moisés, lutador da American Top Team, conseguiu surpreender Johnson e levou a vitória. Crédito para ele. As vitórias no UFC não são fáceis de encontrar.
Wagenheim: Andrei Arlovski lutando como canhoto? Talvez seja possível ensinar novos truques a um cachorro mais velho, afinal. Ele tem 41 anos e participou de sua 50ª luta profissional, mas esqueça tudo que você já viu desse cara. Não foi apenas o fato de Arlovski mostrar uma nova característica do seu jogo, mas ele voltou a repetir isso durante toda a luta contra Philipe Lins. Eles treinaram juntos no American Top Team, então talvez seja por isso que Arlovski sentiu a necessidade de fazer algo diferente. E funcionou, dando a ele a sua segunda vitória em sete lutas. Também renovou meu interesse em assisti-lo mais vezes, apenas para ver o que ele tem reservado para todos nós da próxima vez.
