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'Me escondia pra galera não ver que eu não tinha o que comer': Diego Lopes faz relato emocionante de perrengues até virar estrela do UFC

Diego Lopes durante pesagem cerimonial do UFC 303 Chris Unger/Zuffa LLC via Getty Images

É fácil de olhar a vida atual de um grande lutador do UFC e ficar até com certa “inveja” do dinheiro que ganham e da vida que conseguem ter. Mas a grande maioria dos atletas tem uma vida incrível de perrengues e superação até chegar ao topo.

É assim com Diego Lopes. Ele saiu de Manaus para tentar a vida de São Paulo, chegou a se esconder para que os colegas de academia não percebessem que ele não tinha nada para comer e arriscou tudo para se mudar para tentar ganha a vida no México, que ele nem sabia onde ficava.

Deu certo!

Neste sábado, ele é uma das estrelas do UFC 303, em Las Vegas. Faz a segunda luta mais importante da noite ao enfrentar Brian Ortega. E uma vitória já pode colocá-lo na beira de uma chance de disputar o cinturão dos pesos pena.

Ao ESPN.com.br, Diego Lopes fez um relato emocionante de seus primeiros dias no MMA e contou como a fome foi marcante para ele.

Veja o relato emocionante de Diego Lopes:

"Comecei no jiu jitsu quando tinha cinco anos. O jiu jitsu já está na minha família há bastante tempo. Meu pai é faixa preta, meu tio é faixa coral, meu irmão é faixa preta... Tenho bastante história no jiu jitsu, comecei a treinar cedo. No MMA já passei a lutar direto no profissional quando tinha 17 anos

Quando fui para São Paulo, já foi por causa do MMA. Eu lembro que eu tinha três lutas ganhas e duas perdidas, então eu queria buscar algo mais. Eu fui para São Paulo, fiquei mais ou menos um ano e fiz umas lutas até receber a oportunidade de ir para o México.

Já sabe, né? É um pouco difícil, ainda mais no Brasil. A gente sabe como funcionam as coisas. É claro que a gente teve que fazer uns bicos. Eu lembro que era a gente morava em uma casa, eu e dois moleques. Então a gente se virava como podia para sobreviver, posso falar assim. A gente trabalhou de tudo, trabalhou de segurança nas boates, trabalhou de pedreiro, trabalhou fazendo um monte de coisa. A gente dava um jeito para seguir em frente.

Com certeza (teve perrengues). Claro que sim. Isso eu já até falei outras vezes. Esses perrengues a gente sempre passa, ainda mais quando está começando. Uma coisa que eu tenho bem me marcado assim é que a gente morava muito longe da academia. A gente fazia mais ou menos uma hora, uma hora e meia, quase duas horas de metrô. Tinha que dar a volta toda na cidade. E eu lembro que, nesse tempo, a gente não tinha dinheiro pra comer, o dinheiro era bastante reduzido.

Tinha em São Paulo, não sei se ainda, um restaurante que é como comunitário, que é o Bom Prato. Então, cara, então a gente acordava cedo e ia lá no Bom Prato, se eu não me engano, a merenda custava cinquenta centavos, um real. Aí era onde a gente comia, onde a gente podia ter uma comida boa para poder ter energia por treino. Então a gente acordava cedo, ia lá, merendava, pegava o metrô e ia para a academia.

O primeiro treino começava 10 horas da manhã. Aí o pessoal descansava de meio-dia até às 14h. Como os moleques ficavam para o próximo treino de tarde, cada uma levava sua marmita. Comiam, treinavam, tomavam um banho e descansavam para o treino. Eu e os moleques que estavam comigo não tínhamos dinheiro para comprar comida e levar marmita. Então, o que a gente fazia? Terminava de treinar, tomar um banho e a gente ia para trás do octógono pra galera não ver que a gente não tinha o que comer.

Então foi uma etapa dura, mas ao mesmo tempo de aprendizagem. Assim foi um pouco da vida em São Paulo antes de receber a oportunidade de ir para o México.

Eu até gosto de lembrar isso também. Com o tempo, o pessoal também foi dando conta que a gente não tinha como comer. Então os moleques começaram a ajudar a gente. O Reginaldo Vieira, que lutou no TUF e treinava na mesma academia, viu isso e ajudava a gente, dava comida. O professor da academia também, o Vinícius. Já fomos pegando essa confiança também com o grupo da academia e até os caras sempre ajudaram bastante a gente aí.

E eu lembro que em 2015, ali pelo final de julho, começo de agosto, o professor Vinicius chegou e perguntou assim para a galera: ‘Tem uma oportunidade para vocês, para alguém ir para o México dar aula de jiu jitsu. Alguém quer?' Ele perguntou primeiro para os moleques que levavam mais tempo com ele. Só que ninguém quis ir. Aí chegou comigo, e eu falei: 'Vamos, é a oportunidade que sempre tenho procurado'.

Eu não fazia ideia de que continente ficava o México, que idioma eles falavam, então foi algo muito louco, mas sempre tenho falado que minha vida sempre foi feita de oportunidades. Então, se eu não tivesse tomado essa oportunidade, talvez não estivesse onde estou agora. Então acho que foi uma decisão muito boa que tomei para ter tudo que tenho hoje"