UFC: Adversário de Glover pelo cinturão, tcheco virou 'monge' após vida de festas, brigas de rua e hooliganismo

Jiri Prochazka irá enfrentar Glover Teixeira pelo cinturão do meio-pesado neste sábado


Jiri Prochazka colocou seus braços de lado e transformou seu esguio corpo de 1,90m em um arco. Em sua frente estava um padre xintoísta, vestindo um roupão branco e um chapéu preto tradicional, chamado de tate-eboshi.

Era outubro de 2019, dias após Prochazka nocautear Fabio Maldonado em um card do Rizin Fighting Federation em Osaka, no Japão. Mb

Ali, em frente a um santuário, o padre ofereceu a Prochazka, um seguidor dos princípios de Musashi, uma bênção. Ele falou apenas em japonês. Jaroslav Hovezak, técnico de Prochazka, chamou a tocante cerimônia de mais um marca no caminho de guerreiro de Jiri.

"O deixou mais forte em seu caminho", disse Hovezak. "Foi uma experiência forte para nossa equipe".

Oito anos atrás, Hovezak deu para Prochazka uma cópia de "O Livro dos Cinco Anéis", de Musashi, um texto sobre artes marciais e um guia para a vida. Desde então, Prochazka tem seguido os ideiais de Musashi quase que religiosamente. Sua evolução o levou de um auto-declarado "cara bastante maluco" que participou de mais de 100 brigas de rua, era hooligan na República Tcheca e uma vez bebeu vodka de um tanque de gasolina de uma moto, para alguém que guia sua vida através do Bushido, um código moral japonês que existe desde os samurais. E essa disciplina o levou a estar perto da glória do UFC.

"Acho que Jiri era mais japonês que muitos de nós aqui no Japão", disse Shingo Kashiwagi, matchmaker do Rizin.

O objetivo de Prochazka é "ser mestre em todos os aspectos da vida", e seu próximo passo para alcançar esse obejtivo nas artes marciais será neste sábado quando ele desafia Glover Teixeira pelo cinturão do meio-pesado no evento principal do UFC 275, em Cingapura.

Apesar ser um objetivo valioso, o título do UFC não é o ponto final de Prochazka, que carrega sua própria e castigada cópia de "O Livro dos Cinco Anéis" onde quer que vá - inclusive no vestiário antes da luta. Jiri (28-3-1), um dos mais empolgantes lutadores no mundo e que tem 10 nocautes consecutivos, considera vencer o cinturão "apenas mais uma parte de seu 'caminho do guerreiro'".


As comemorações pós luta de Prochazka costumavam ser lendárias, de acordo com o grande amigo e parceiro de negócios do lutador, Michal Sauer. No início de sua carreira, Jiri dava festas absurdas após suas lutas, cheias de música alta, danças e doses pesadas de bebida. E Prochazka era o centro das atenções.

"Ele era um maluco nessas festas", disse Sauer. "Não só dançando, mas todo mundo estava de olho nele. Ele era um pouco como Conor McGregor. Todo mundo sabe que ele está no local. Ele era barulhento, gosta da atenção. Não só nas festas, mas ele gosta da atenção aonde quer que vá. Ele era muito engraçado e todo mundo gostava, porque ele era divertido".

Em uma dessas festas, Prochazka, então com 20 e poucos anos, bebeu champanhe de uma mangueira de aspirador de pó usada. Em outra, virou vodka direto do tanque de gasolina de uma moto de um amigo, que estava dando partida.

"Acho que falaram pra ele que ele era imortal", disse Sauer, rindo. "Talvez ele ainda ache isso".

Quando era mais novo, Prochazka vivia a vida da quase da mesma maneira em que ele ataca os oponentes do UFC: despreocupado, quase não ligando para sua saúde e bem-estar. Jiri disse que, quando jovem, buscava lutas de rua quase que semanalmente, se envolvendo em mais de 100 delas na vida. Quando não era o suficiente, Prochazka se juntou ao grupo de hooligans do time de sua cidade, o FC Zbrojovak Brno e se envolvia nas brigas de torcida.

Prochazka diz que, apesar de ter se envolvido até em brigas de grupos de 30 contra 30 hooligans, se arrepende de ter participado desta vida. Quando criança, Jiri cresceu com muita energia - um pesadelo para seus pais e professores - e estava sempre tentando liberá-la. Enquanto lutava nas ruas quando jovem, ele se apaixonou pelo sentimento de virar o melhor lutador e desenvolver técnicas para vencer na base da tentativa e erro.

"Foi o passo seguinte no meu estilo de vida de lutador", disse Prochazka. "Estava apenas olhando por mim, o tempo todo. O tempo todo. Como homem, ainda sigo olhando por mim. É isso".

Quando tinha 17 anos, Prochazka começou a treinar Muay Thai, com um pouco de caratê e judô na combinação. Era a estrutura que ele precisava. Ele não precisava mais lutar na rua para memlhorar suas habilidades e ser o melhor. Essa era sua chance de treinar e competir em um ambiente mais controlado.

Prochazka eventualmente entrou no MMA e fez sua estreia profissional em 2021. Ele estava muito mais disciplinado do que antes, mas faltava algo. Não muito depois da derrota para Abdul-Kerim Edilov, em 2013, Hovezak trouxe sua cópia do "Livro dos Cinco Anéis". Hovezak era técnico na equipe liderada por Martin Karaivanov.

Hovezak disse que um técnico de MMA deu o livro para ele aos 15 anos, e ele achava que poderia abrir a porta para Prochazka da mesma maneira que abriu para ele. O livro é popular entre pessoas de negócio no Japão porque suas filosofias sobre vitória podem ser aplicados para os negóicos e a vida, mesmo que Musashi estivesse escrevendo sobre lutas - não muito diferente da "Arte da Guerra", de Sun Tzu.

"Tem muita verdade no livro e uma ordem clara", disse Hovezak. "Pode ser usado tanto para lutas quanto para o dia a dia da vida".

Depois de ler o livro e digerir as palavras de Musashi, Prochazka disse que começou a mudar sua vida quase que imediatamente. De auto intitulado "muito, muito, muito maluco" a adotar os princípios do Bushido de Mushasi. O texto, escrito nos anos de 1640, contém cinco livros - Terra, Água, Fogo, Vento e Vazio - e Musashi escreve sobre essas ideias nas artes marciais, liderança, princípios de vida e mentalidade.

Prochazka diz que ele não segue uma religião organizada. Ao contrário, adotou "O Livro dos Cinco Anéis" como sua Bíblia, Torah ou Corão.

"Para mim, é algo assim", disse Prochazka. "Mas a religião, eu não acredito na religião, porque o ser humano moderno deve saber que não existe religião. Temos apenas energia - energia da crença. O que você acredita, essa é sua religiãõ. E pode ser o que você quiser. É assim que vejo".

Sauer disse que a primeira mudança que ele viu em Prochazka foi quando o lutador começou a dar sermão para ele e outras pessoas próximas sobre seus estilos de vida.

"Ele começou a falar comigo e outros amigos sobre como deveríamos viver", disse Sauer. "Ele é um cara inteligente e começou a falar como a gente deveria fazer isso e por que isso. Essa foi o grande mudança. Foi tipo de 0 a 100. Mudança de 180 graus. A gente não sabia o que estava acontecendo".

"Ele estava vivendo da maneira do Bushido e tudo que ele queria é que pessoas próximas vivessem igual".

O cara que havia bebido vodka de um tanque de gasolina agora estava pregando uma maneira nova de viver. Prochazka finalmente encontrou o que estava procurando na vida - uma maneira e uma razão para canalizar sua energia em algo construtivo.

"Foi uma mudança gigante porque eu era outra pessoa", disse Prochaska. "Fico feliz por isso. Mantenho aquele caos de quando era mais jovem. Mas quero mostrá-lo apenas no octógono. Somente para vencer".