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UFC: Malhadinho fez teste no Vitória, foi porteiro e busca brilhar no MMA pelo irmão, desaparecido há 10 anos

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Lutador do UFC, Malhadinho relembra irmão desaparecido há 10 anos após envolvimento com o crime organizado: 'Era pra ele estar no meu lugar' (1:28)

Lutador falou com exclusividade ao ESPN.com.br (1:28)

Brasileiro faz sua terceira luta pelo UFC neste sábado, em Las Vegas


Jailton "Malhadinho" Almeida entrará no octógono do UFC pela terceira vez em sua carreira neste sábado, em Las Vegas, para enfrentar o norte-americano Parker Porter, tentando aumentar uma sequência de 10 vitórias no MMA.

O brasileiro de 30 anos, nascido em Salvador, disse quase não acreditar quando coloca em mãos os materiais que o UFC fornece para seus atletas, tendo um sonho realizado de chegar na maior organização de MMA do mundo após passar por perrengues e ter batalhado tanto na vida.

Certamente a maior dificuldade de Malhadinho - que recebeu esse apelido por causa de seu pai, ex-pugilista que já era chamado de Malhado pela força física - é uma ferida que ainda não se fechou. Há 10 anos, seu irmão está desaparecido.

"Eu perdi meu irmão em 2012, uma perda inexplicável pra mim. Foi por causa de influência. Tem dois caminhos, o bom e o ruim, você escolhe pra onde você vai. Eu não queria perder ele dessa forma. Colocaram ele num carro e ele está sumido desde 2012. Ele se envolveu com o crime. Quem era pra estar no meu lugar era meu irmão, eu nunca fui um cara de competição. Meu irmão tem um espírito de guerreiro, de lutador, era um canhoto habilidoso demais. Mas infelizmente a gente colhe o que a gente planta", disse Malhadinho, à ESPN.

Vigia, porteiro e (quase) goleiro do Vitória

Pelo pai ter um histórico local no boxe, Malhadinho treinou jiu-jitsu desde a infância. Mas outro esporte quase o levou para outro caminho: o futebol. Ele chegou até a fazer um teste para ser goleiro do Vitória, seu time do coração.

"O Vitória tinha bons goleiros, Fábio Costa, Dida, Felipe, que foi do Corinthians. Na hora do resultado, me chamaram de canto e perguntaram se eu tinha empresário, falei que não. Eles me ofereceram pra eu conseguir R$ 10 mil pra me segurar no clube treinando até aparecer um outro clube ou o Vitória me contratar. Se desse certo eles iam me empresariar. Só que na época era muito dinheiro. Eu falei com meu pai, meu pai falou: 'A gente não tem condições financeiras nenhuma de te ajudar'. Ele chegou até a falar com um amigo dele do Bahia, mas não estava tendo teste. Aí voltei pro jiu-jitsu e comecei a competir jiu-jitsu. Aí esqueci o futebol", explicou.

Para conseguiu se sustentar, ao mesmo tempo em que treinava MMA já na adolescência e competia, Jailton começou a trabalhar. Primeiro, foi entregador de comida, emprego que lhe rendia cerca de R$ 250 semanais, segundo o próprio.

Quando fez 18 anos, começou a trabalhar de vigia em um condomínio, com o salário já subindo para cerca de R$ 1.200 mensais. Depois, também teve empregos como lavador de carros, porteiro e vigilante.

Aos 21 anos, ele estreou como profissional no MMA, mas uma experiência o traumatizou e o fez dar uma pausa nas competições.

"Teve um evento que eu participei que eles iriam pagar uma bolsa, aí pagaram em cheque sem fundo, era R$ 1.900. Eu fiquei tenso. Falei: 'vou fazer o quê?'. Paguei minha ida, volta, alimentação até o interior da Bahia. Mandei mensagem pro dono do evento e o cara: 'Isso não tem nada a ver, o evento já foi, não posso fazer nada'", relembrou.

Malhadinho ficou mais de dois anos sem competir, até que recebeu um novo incentivo.

"A única ajuda que eu tive foi do meu empresário que está comigo até hoje. Ele falou: 'Vou te dar R$ 1.000 pra pelo menos você pagar suas coisas'. Foi de 2014 a 2015, comecei a treinar sem pretensão nenhuma de lutar, estava tirando do meu bolso. Aí meu treinador hoje (Yuri Moura) ia fazer uma luta, aí me convidou pra treinar junto com ele, fechamos o time, fui de sparring pros caras. Eu sempre gostei de treinar e Yuri falou: 'Por que você não volta a lutar de novo?'. Eu falei: 'Não, quero fazer uma coisa ali que não seja digna pra mim, não vou lutar num evento que o cara fala que vai pagar uma coisa e não paga, vou estar pagando pra levar soco na cara'. Ele falou: 'Isso aqui vai acontecer sempre, não tem jeito. Se você quer uma coisa na vida, tem que buscar, vai passar por aperto, você é um cara muito talentoso, gosta de treinar'. Aí fui e falei pra ele fechar a luta pra mim e aí voltei a ganhar de novo. Eu tirei do meu bolso pra fazer uma coisa que ninguem apoia".

Após ganhar no Contender Series e na estreia oficial no UFC com finalizações, Jailton Malhadinho busca uma nova boa performance para impressionar Dana White e seguir em busca de seu sonho.