Este é o primeiro texto que trago para vocês nesta que será minha coluna semanal no ESPN Esports Brasil para falar sobre bastidores, curiosidades e acontecimentos vivenciados nos esportes eletrônicos. A estreia não poderia acontecer em um momento mais oportuno: a quebra de um recorde negativo e um marco na Overwatch League.
No último sábado (23), foi disputada a partida entre Shangai Dragons contra Boston Uprising, valendo pela segunda semana da Overwatch League, a principal competição de Overwatch do mundo. Foi o confronto que acabou de uma vez por todas com a mácula do time chinês de não ter vencido uma série sequer em 2018, o primeiro ano da liga.
Este interlocutor que vos fala, estava naquela madrugada narrando essa partida ao lado da comentarista Ana "AnaXisde", porém mal sabíamos que seria uma partida histórica, seja para o público presente na Blizzard Arena, seja para o público que assistia ao redor do mundo e, claro, para o mundo do esport.
Naquele dia estávamos escalados para fazer os dois últimos jogos da transmissão. Começamos a noite/madruga de sexta para sábado então com o jogo entre o pior time e o time que possui o único brasileiro atuante na liga (deixo essa história para outra oportunidade).
Fizemos as apresentações e demos as boas-vindas ao público brasileiro durante a transmissão, falamos um pouco sobre o que ambas as equipes representam e o que poderia acontecer no pré-show. Somos brasileiros e ter a oportunidade de narrar Renan "Alemão" Moretto jogando pela Boston Uprising seria uma grande oportunidade e, vê-lo atuando seria ainda mais marcante. A vitória seria um mero detalhe.
Shangai Dragons, o desafiante, o underdog, o cavalo-paraguaio, o pior time de 2018, era o oponente de Uprising e mal sabíamos que era nessa madrugada que tudo iria mudar. A equipe titular do Dragons, com Coma, DDing, Gamsu (renderam boas piadas nas jogadas), Diem e Geguri (primeira e única mulher da liga) foi a primeira a entrar no palco. Sem esboçar muita emoção, frios e calculistas, assumiram seus lugares. Em seguida, Boston Uprising formada inicialmente por Blase, Axxiom, Colourhex, Note, Kellex e AimGod. O brazuca não iniciou a partida, mas quem sabe ele pudesse durante a série?
O tempero era diferenciado para essa partida: era aniversário de Blase (DPS de Boston), a estreia de Colourhex (DPS de Boston, suspenso por 2 jogos vindo da Contenders), além da metade do time da Shangai Dragons ser novata na temporada 2019. "Gamsu" foi trocado sem nem saber (ex-jogador da Boston em 2018), Fearless (um dos titulares da Shangai) não jogou por motivos de saúde e outros “n” motivos. O histórico de partidas da temporada 2018 aponta que Boston venceu 86% de suas partidas, enquanto a Dragons ficava com apenas 11%. Por esse espectro, estava claro quem tinha vantagem.
Os números não mentem, mas às vezes, "coisas" acontecem. O primeiro mapa foi Illios e os Dragões de Shangai começaram se apresentando bem, administrando o controle de grupo, gerindo as supremas durante as lutas e a mira em dia. A empolgação era latente, não apenas na torcida que assistia ao vivo Blizzard Arena, como também ao redor do mundo que assistia nas streams oficiais.
Aquele momento em que você narra a primeira vitória da @ShanghaiDragons na #OWL2019 😱 pic.twitter.com/f1xfxET8nr
— Petar Neto (@petarNetoTV) February 27, 2019
Fim do primeiro mapa: 1x0 para Shangai Dragons. Confesso que me empolguei. Chamei atenção do público que assistia a transmissão brasileira que, se caso continuasse jogando daquela forma, Boston Uprising corria o sério risco de ficar marcada como a primeira equipe a ser derrotada por Shangai.
Relembrando: a equipe de Shangai é detentora do pior recorde na história de um esporte (de qualquer esporte). Foram 42 derrotas seguidas, 409 dias desde que estrearam em na liga. O antigo dono desse recorde negativo era a equipe do Philadelphia 76ers (NBA), que acumulou 28 derrotas seguidas entre 2014 e 2016.
Começa o segundo mapa, Kings Row, Geguri é substituída por YoungJin e eu me pergunto: "porque trocar se funcionou muito bem em Illios?". Sabemos da baixa versatilidade de heróis dela, mas era sábio colocá-la no banco? A equipe da Shangai começou se defendendo e logo na primeira luta saiu derrotada. Desanimei e logo pensei que não seria eu quem teria a oportunidade de narrar a primeira vitória do Dragons.
Minha adrenalina estava altíssima, meu coração estava acelerado, muitos detalhes e sutilezas ainda estavam reservados para aquela série. Nos pequenos intervalos de 30 segundos, discutia com Ana: "O que está acontecendo?", esse time de Boston deu trabalho para a NY Excelsior (um dos melhores da liga).
Entre humor, tensão, atenção e emoção, dava o melhor com meu fôlego, conhecimento e controle vocal para transmitir para a audiência tudo que sentia naquele momento. Eu estava animado, ansioso pelo fim do mapa quando Shangai Dragons entregou a carga com 2:30 no relógio para o “re-ataque”. Boston não tinha nada no seu banco de tempo, ou seja, se os dragões chineses capturassem 1 terço do primeiro ponto de Kings Row, seria 2x0 e apenas um passo para a esperada vitória.
E foi o que aconteceu, com excelente trabalho da Sombra (DDing) e da Zarya (Diem) a equipe de Shangai abriu 2x0 no placar.
Intervalo de dois minutos, respiro fundo várias vezes, tomo vários pequenos goles de água para molhar a garganta. Já me preparando para o inevitável, analisamos o duelo até o momento. Ana e eu discutimos brevemente: “será que é o hoje? Será que vamos presenciar a história sendo feita?” Torcedores de outros times como Los Angeles Valiant, New York Excelsior, Hangzhou Spark, São Francisco Shock torciam a favor da Shangai Dragons e a atmosfera se formava junto com o placar favorável.
Entramos no terceiro mapa, Colônia Lunar Horizon. Mais uma vez Dragons não começou bem e abandonou o segundo ponto. Nos re-ataques, a equipe de Shangai estava mais segura e Boston não capturou o primeiro ponto. Começo a sentir arrepios. A torcida gritava no meu headset durante cada luta vencida pelos chineses e eu ia ficando cada vez mais empolgado. Todos nos bastidores e na audiência estavam animados. Tudo que a equipe de Shangai precisava era capturar pouco mais de dois terços do ponto e eles quebrariam o recorde negativo.
A luta foi tranquila e Boston já estava psicologicamente derrotada. Tratei de narrar em um tom abaixo para não gastar o ar que me restava na série para o grito final, e com poucos segundos a torcida já gritava no fundo. Atrás das câmeras, eu e a Ana pulávamos e gesticulávamos apontando para nossa TV. Sim eles conseguiram: "gg!". Soltei o mais longo, intenso e forte grito que pude.
Por fim, o quarto e último mapa Rialto teve a vitória do Boston Uprising, deixando o placar final em 3x1 e com uma atuação de gala da Sombra do jogador "DDing" (Shangai Dragons). Para Boston, restou uma atuação fraca da equipe de Alemão e a sentida falta do seu tanque principal, "Fusions".
A primeira vitória do Shangai Dragons veio com um 3 a 1 e o pontinho que Boston Uprising arrancou não maculou essa história de superação que passou diante dos nossos olhos. Como deixei bem claro nos parágrafos anteriores, foi fim do maior recorde negativo dos esportes. Esse dia ficará gravado em minha memória para sempre.
Petar Neto é narrador, streamer e, a partir desta semana, colunista do ESPN Esports Brasil.
