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Opinião: Valve precisa rever regra sobre nacionalidade de jogadores no Dota Pro Circuit

Palco do The International 8, o Mundial de Dota 2 realizado pela Valve. Valve

Nesta quarta-feira (28), o jogador Peter “ppd” Dager colocou na mesa uma polêmica que vale a pena ser discutida: é certo que jogadores de uma região disputem qualificatórias de minors e majors em outra?

A comoção aconteceu por conta da equipe test 123 - a ex-paiN X -, que trocou Adriano “4dr” Machado por Kartik "Kitrak" Rathi e agora conta com quatro norte-americanos e apenas um brasileiro, Rodrigo “Lelis” Santos.

Mesmo tendo saído da paiN Gaming e mudado a escalação, a equipe havia sido convidada para disputar as qualificatórias sul-americanas do Major de Xunquim, e assim o fez, seguindo as regras estipuladas pela Valve de que uma equipe precisa ter pelo menos três jogadores presentes na região que está disputando - independentemente da nacionalidade.

A test 123 jogou não com três, mas com os cincos jogadores em solo brasileiro e conseguiu garantir a primeira vaga para o major ao vencer a paiN por 2 a 1, de virada, na noite de terça-feira (27)*.

Foi então que ppd - e muitos outros jogadores e times - se sentiram injustiçadas. Como assim uma equipe com quatro norte-americanos conseguiu uma vaga na qualificatória sul-americana?

Em seu texto, ppd afirma que não é contra promover outras regiões do Dota, mas que o que está acontecendo com as duas vagas obrigatórias para a região da América do Sul (o número mínimo obrigatório para todas as regiões em um major) “é inaceitável”.

“Perguntei à Valve no ano passado se a OpTic poderia jogar as qualificatórias do TI na América do Sul, do Brasil, e ela disse que não. Perguntei novamente se a NiP poderia treinar na Europa e viajar ao Brasil (temos um centro de treinamento por conta da equipe de R6 lá) e jogar as qualificatórias do Dota Pro Circuit. Ela me disse: ‘Se você sente que está trapaceando o sistema, então provavelmente está, e isso é inaceitável’”.

Segundo ppd, é injusto que tanto a test 123 quanto a paiN tenham jogadores estrangeiros em suas equipes que passam um ou duas semanas no Brasil para, depois, voltarem para casa na América do Norte ou Europa.

“Se vamos alocar vagas para regiões que estamos tentando ativamente promover o Dota, isso precisa ser reforçado pela Valve. Se esses jogadores querem morar e competir na América do Sul (passar a maior parte do tempo lá e entrar de cabeça na comunidade), tudo bem. Mas se eles vão apenas chegar de avião, roubar uma vaga e voltar pra casa, é melhor juntar as qualificatórias da América do Norte e América do Sul de novo e dar as vagas regiões mais competitivas”, finalizou.

O texto de ppd pode parecer choro de uma criança que lhe teve o doce negado, mas faz sentido em certos pontos. De fato, jogadores estrangeiros virem disputar no Brasil ou em qualquer lugar da América do Sul por ser uma “porta de entrada mais fácil” para depois voltar para casa não soa nada justo.

Enquanto muitos comentários levantaram que essa questão também acontece com certa frequência no Sudeste Asiático, é possível que o caso da test 123 tenha acontecido apenas porque a equipe - ou, pelo menos, a maioria dos jogadores dela -, já tinha uma vaga nas qualificatórias fechadas e que isso possa mudar no futuro. Ou, até, que os jogadores passem de fato a morar no Brasil.

Entretanto, é necessário entender, também, os motivos por trás da ideia da necessidade que os jogadores sentem de voltar para casa.

Em minhas entrevistas com integrantes da paiN nos últimos meses, ficou bem claro que, apesar da Valve estar se esforçando para fomentar o Dota 2 na região, o cenário competitivo da América do Sul ainda é bem fraco.

Muitas vezes ouvi que “os PUBs daqui são horríveis” e que “não há times para se treinar contra direito, nem peruanos, nem brasileiros, e jogar nos servidores da América do Norte ou Europa é praticamente impossível por conta do ping”. Ambas as explicações são argumentos racionais para os jogadores estrangeiros sentirem a necessidade de voltar para casa.

No entanto, a volta para casa não resolve problema algum. Os jogadores estrangeiros estão apenas “fugindo” do problema, enquanto seus companheiros brasileiros continuam no Brasil, sofrendo com PUBs ruins e falta de treinos, até que se unam novamente para um bootcamp antes do major. Na minha opinião, tudo isso foi motivo para as duas escalações da paiN terem ido tão mal no Major de Kuala Lumpur. Isso sem contar que o competitivo da região continua a mesma caca.

Como resolver essa questão, então? Primeiro, gostaria de falar sobre uma solução que não vai resolver e só vai complicar: unir as qualificatórias das Américas em uma só, novamente. Isso porque já tivemos anos e anos dessa união que só deram errado porque um time norte-americano não quer jogar no servidor do Brasil e vice-versa, que inclusive rendeu uma polêmica que envolveu o próprio ppd na época em que jogava na Evil Geniuses e a paiN em 2015.

Em segundo lugar, essa história de “dar mais vagas para regiões mais competitivas” já existe, e aumentá-la só levaria a um desequilíbrio maior. De acordo com as regras da Valve, todas as regiões devem ter pelo menos duas vagas em cada major, que tem 16 no total. Com seis regiões, temos 12 garantidas - 13 contando a do vencedor do minor precedente. Assim, sobram três lugares que a organização do torneio distribui entre as regiões que considera mais competitiva - normalmente Europa, China e mais um continente à sua escolha.

Se o número de vagas para essas regiões aumentasse, elas e seus times mais fortes dominariam tudo e o competitivo perderia um pouco a graça. Enquanto é lógico pensar que os melhores times devem sempre jogar, o mágico do Dota 2 é que regiões mais fracas conseguem surpreender as mais fortes e que nenhum time conseguiu ser bicampeão de um TI até hoje. Eu, pessoalmente, não gostaria de ver o competitivo do Dota 2 se tornar como o de League of Legends…

Mas, voltando à pergunta, como raios a Valve pode arrumar essa bagunça?

Creio que a solução inicial (e que poderia ser revertida depois) seria o remédio necessário, mas amargo, para os jogadores: fazer a equipe ter pelo menos três jogadores em tempo quase integral de um major ou minor para outro na região em que competiu. Não é fácil ficar longe da família ou jogar PUBs ruins, mas seria uma consequência da escolha do jogador de vir disputar a “porta mais fácil”.

A segunda solução já foi comentada em entrevistas que fiz com Timado e o próprio Lelis: instaurar uma premiação nas qualificatórias. Mesmo que simbólica, uma premiação em qualificatórias de minors e majors deixaria o cenário mais competitivo, pois incentivaria mais organizações a investirem nele. Podendo ganhar dinheiro com qualificatórias, os jogadores da região também levariam mais a sério a história de ser um profissional de Dota 2 e se esforçariam mais não apenas nas qualificatórias, mas também em PUBs e treinos.

Com um cenário mais engrenado e com mais investimento, outras organizações poderiam trazer jogadores estrangeiros para a região (sempre respeitando as regras). Isso, de fato, seria algo a se copiar de League of Legends, já que a contratação de sul-coreanos e chineses em outras regiões ajudou a aumentar a competitividade do cenário.

É triste que seja necessário dinheiro para motivação e investimento, mas esta parece ser a realidade do cenário sul-americano de Dota 2 no momento, e qualquer ajuda para melhorá-lo seria bem-vinda.

Não há uma receita mágica para que a Valve resolva a questão, e minhas ideias são sugestões que podem não funcionar se forem aplicadas. Entretanto, é fato que a empresa precisa intervir na situação, e não deixar “as coisas rolarem”, como é de seu costume.

Enquanto isso não acontece, as qualificatórias regionais para o Major de Xunquim continuam até sexta-feira (30) com as disputas da América do Norte, Europa e China. Enquanto isso, também, a paiN e a test 123 continuam confirmadas neste segundo major do DPC, que será realizado na cidade chinesa de 19 a 27 de janeiro.

* ATUALIZAÇÃO: Horas após a publicação desta opinião, a Valve desclassificou a test 123 do Major de Xunquim. Saiba mais em nossa matéria.