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Influenciado pelos pais, Timado começou a jogar Dota "quando não sabia nem ler"

Enzo “Timado” Gianoli, jogador peruano de Dota 2. Reprodução

Se você acompanha o cenário sul-americano de Dota 2, há grandes chances de você já ter ouvido falar de Enzo “Timado” Gianoli. O jogador peruano é conhecido como um dos maiores nomes da região e já fez história mesmo tendo apenas 18 anos de idade.

Em conversa com o ESPN Esports Brasil na última semana, Timado contou um pouco de sua história e como se tornou um jogador profissional de Dota. Além disso, comentou sobre as etapas de sua carreira e o que espera do competitivo do jogo para esta temporada.

Segundo ele, tudo começou quando era apenas uma criança de 4 ou 5 anos de idade. “Meus pais jogavam videogame, e lembro de assisti-los ambos jogarem títulos como Starcraft e Warcraft”, diz. “Naquela época, a conexão de internet no Peru era muito ruim, então meus pais e amigos se encontravam nos finais de semana para jogar por horas, e foi assim que me interessei por videogames”.

Timado conta que foi a mãe que encontrou o 'mod' de Dota 1 em Warcraft 3, e que ele começou a jogar sem ao menos saber ler. “Lembro de jogar de Antimage. Eu ficava apenas ‘blinkando’ pelo mapa e não tinha ideia do que fazer”, fala com saudosismo. “Lembro de alguns itens que não faziam sentido para mim porque eu não sabia ler, então eu apenas comprava e ficava apertando para ver o que acontecia. Lembro de jogar de Venomancer e gostar muito da ultimate dele porque a animação era muito incrível, então eu chamava meu pai para olhar, mas até ele prestar atenção o ataque já tinha acabado e eu precisava esperar centenas de segundos para fazer de novo”.

A transferência das lan-houses com os pais para o competitivo foi algo espontâneo, mas o jogador conta que não queria participar da cena competitiva do Peru. “Especialmente quando eu tinha uns 14, 15 anos, eu não gostava [da cena] e não queria fazer parte dela”, explica. “Na minha cabeça, eu só daria certo como jogador se treinasse com times Tier 2 e ficasse bom o suficiente para ser chamado para um time Tier 1, então joguei muitos pubs na América do Norte”.

Apesar de uma passagem rápida por um time peruano, o Balrogs, aos 15 anos, Timado logo foi chamado para jogar em uma equipe norte-americana ao lado do veterano Michael "ixmike88" Ghannam. Na Team Freedom, o peruano participou de diversos campeonatos e qualificatórios online, mas a única grande conquista foi o ProDota Cup Americas #8. Então, em março de 2017, o jogador resolveu dar uma chance a suas raízes e entrou na Infamous, a equipe mais conhecida do Peru.

A aposta deu certo, e no mesmo ano a Infamous venceu a qualificatória regional e foi a primeira equipe da América do Sul a ir para o The International, o mundial de Dota 2. Para Timado, que foi ao TI com 16 anos de idade, a conquista ocorreu porque a Infamous era o time mais estável da região na época, mas levou um tempo para que a ficha caísse.

“Quando eu cheguei no TI, lembro que ficou muito confuso porque eu ainda era fã de muitos jogadores. Eu pensava: ‘tenho que jogar a fase de grupos, tenho que focar, tenho que ganhar’, mas ao mesmo tempo o Dendi passava no corredor e o s4 estava sentado do meu lado e eu ficava muito nervoso”, recorda. “Foi um equilíbrio entre ser um fã e um jogador, mas foi bem divertido”.

Quando perguntamos se o TI foi o momento mais marcante de sua carreira, Timado diz que sim. “Subir no palco principal do TI foi muito épico, porque milhares de pessoas estavam te assistindo no estádio, e mais milhares online”, comenta. “Eu não sei descrever, mas lembro que me senti muito bem mesmo tendo perdido. Eu estava apenas feliz por estar ali”.

Apesar de passar da fase de grupos, a Infamous foi eliminada na primeira rodada da fase eliminatória do TI7 e, com isso, Timado decidiu seguir um novo rumo em sua carreira. Pelo restante de 2017, jogou pela equipe MidOrFeed na Europa, e no início deste ano defendeu a VGJ.Storm na América do Norte. No entanto, não conseguiu resultados parecidos com nenhuma das duas. Foi então que, para esta nova temporada do Dota Pro Circuit, voltou ao Peru para defender a Infamous.

“Sinto que melhorei muito durante os anos. Também sinto que estou no pico da minha carreira, mas as coisas não dão certo e não acho que é por minha causa”, desabafa. “Sinto que não sou o problema das equipes, mas que algumas pessoas não se esforçavam o suficiente para conseguir patrocínios e vitórias. Por conta disso, cansei de ficar esperando me chamarem para um time, cansei de ficar viajando pelo mundo e pensei: ‘vou eu mesmo montar uma equipe’”.

CARREIRA E EXPECTATIVAS

A Infamous permitiu que Timado montasse uma escalação para a nova temporada, e o jogador afirma que está usando toda a experiência que adquiriu para “ensiná-los o que sabe e ver o quão longe chegam”. “Se o time for bem, verei o que vou fazer a partir daí. Essa é minha ideia para a temporada”, afirma.

A equipe parece já estar no caminho certo, tendo conquistado a vaga do minor DreamLeague Season 10, mas Timado afirma que o objetivo são os majors. “Vai levar um tempo para nos ajustarmos e aprendermos a jogar juntos, ganhar experiência”, disse. “Tentaremos vaga no maior número de majors possíveis, e depois disso só teremos que ir bem no presencial”.

O jogador, no entanto, sabe que isso não será uma tarefa fácil mesmo com as mudanças aplicadas pela Valve nesta temporada - como o fim dos convites direitos, a distribuição de pontos para todas as equipes participantes de minors e majors e as duas vagas regionais por major.

“Eu acho que a Valve está indo pelo caminho certo, mas sempre que converso com outros jogadores achamos que deviam haver três tipos de torneios para ajudar a base do competitivo”. explica. “Nada é eterno, mas acho que o Dota está morrendo mais rápido porque ninguém se importa com os times Tier 2, que gastam muito dinheiro, mas não conseguem quase nada de retorno se não se classificarem para minors e majors”.

Assim como outros jogadores, Timado acredita que deveria haver algum tipo de incentivo - como, talvez, pequenas premiações em qualificatórias - para fomentar os times menores e recompensar os jogadores que desistiram de tudo para tentarem uma carreira no Dota.

Perguntamos se ele acredita que essa falta de recompensa possa estar ligada ao fato do Peru ser conhecido como uma região com jogadores que ‘cheatam’ e fazem match-fixing, e ele concorda. Entretanto, é categórico ao dizer que “não há defesa para essas coisas”.

“Às vezes, os pais dos jogadores os pressionam porque eles não estão ganhando dinheiro, e se houvesse essa pequena premiação já tiraria bastante dessa pressão”, garante. “Não defendo quem faz coisa errada por estar em uma situação ruim porque é uma questão de mentalidade, mas de fato existe zero suporte para a maioria dos jogadores peruanos. A Infamous é uma das únicas equipes que oferece suporte, então quem fica de fora acabam perdendo partidas, ficam entendiados e pensam: ‘preciso de dinheiro, então vou roubar’. É muito triste como isso acontece”.

Já sobre sua carreira no geral, o peruano disse que nunca pensou em outra coisa além de jogar Dota. “Entrei no meu primeiro time profissional aos 16 anos e tive que escolher entre ir para o TI ou continuar a estudar. Então saí da escola no meu último ano. Nunca pensei em fazer outra coisa além de jogar Dota, e não consigo pensar no que estaria fazendo se não estivesse jogando”, confessa.

Segundo ele, nem mesmo uma posição como treinador seria o suficiente, pois ele gosta muito de jogar. “Para mim, ser um treinador é ser 50% jogador. Você treina, dá entrevistas e tudo mais, mas não joga. E sinto que se eu fosse um treinador, chegaria uma hora que eu diria: ‘ok, quero jogar de novo’”, explica “Talvez, se eu continuar a jogar por mais 10 anos e sentir que não estou tão bom quanto antes por estar velho ou algo do tipo, eu tente ser treinador, mas eu faria outras coisas também”.

BRASIL VS. PERU

Não seria possível fazer uma entrevista com um jogador peruano sem perguntar sobre a conhecida rivalidade entre as regiões. Enquanto Timado acha que a Infamous fez por merecer a conquista da vaga para o TI7, ele também acredita que algo de errado aconteceu no Peru desde então - o que é evidenciado pelos times brasileiros terem vencido praticamente todas as qualificatórias do último DPC e do TI8.

“Sinto que o Brasil está muito à frente do Peru no momento. Acho que a diferença não é muita, mas é o suficiente para nos vencer”, explica. “Acho que o Peru tem um grande problema de comprometimento porque os times e jogadores não treinam. Quando vencemos do Brasil no ano passado a região ficou um pouco ‘metida’, enquanto os brasileiros focaram em melhorar sua mentalidade competitiva para não perder as próximas disputas.

Ele complementa: “No Peru, os jogadores não têm essa força de vontade. Enquanto os times e jogadores brasileiros estavam treinando, os times peruanos estavam aproveitando a fama, se achando por terem ido primeiro ao TI. Sinto que é por isso que o Brasil está à frente agora”.

No entanto, Timado afirma que não aceitaria jogar por uma equipe brasileira. “Sendo honesto, eu quase joguei no Brasil umas três vezes, mas a conexão do país com a América do Norte é muito ruim. Pubs são essenciais para jogadores porque cerca de 50% a 60% de conhecimento são adquiridos deles, então ir para uma região que dificultaria esse aprendizado seria pior para minha carreira. Eu gosto dos jogadores brasileiros e de sua mentalidade, e eles são bons no jogo, mas não seria bom para minha carreira”, crava.