Na tela, Ra Zenyatta, a versão robótica e curadora do faraó em Overwatch, subia e descia lentamente. Depois de uma rajada de apertos de teclas, uma alegre versão chiptune de "Lonely Rolling Star" do jogo Katamari Damacy começou a tocar. A música foi imediatamente interrompida por uma D.Va com cara de sapo correndo pela tela, acompanhada pela mensagem de um novo assinante de oito meses do Twitch.
Uma pequena tela de vídeo apareceu acima da caixa de bate-papo do Twitch, apontada para longe da jogadora no teclado e mouse. Kim "Geguri" Se-yeon agradeceu ao assinante antes de apertar uma pelúcia meio-cebola, meio-polvo chamada de Pachimari e comercializada pela Blizzard. Como sempre, apenas o teclado, mouse e Pachimari eram visíveis.
"You & Me (Flume Remix)" da dupla Disclosure começou a tocar, enquanto Geguri e sua D.Va entravam na área de treinos e iniciavam movimentos rápidos e amplos com o mouse para aquecer.
Vai ser você. Clique, clique, clique, clique.
E eu. Clique, clique, clique, clique.
Vai ser tudo o que você. Clique, clique, clique, clique.
Você já sonhou. Clique, clique, clique, clique.
Os movimentos bruscos, um reflexo da notoriamente alta sensibilidade do mouse de Geguri, avançaram no ritmo dos violinos da música. Com cada inscrição e “cheers”, ela falava o nome de usuário com um rápido "kamsahamnida - obrigada!", combinando coreano e inglês em agradecimento. Ela pontuava isso com alguns apertos e barulhos rápidos de Pachimari enquanto o chat rolava alegremente, também em uma mistura de coreano e inglês.
Este foi o começo da última transmissão de Geguri na Coreia do Sul.
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Um dia depois, Geguri embarcou em um avião em um vôo de 12 horas para Los Angeles. Uma off-tank / flex, ela foi uma das cinco aquisições da pré-temporada do Shanghai Dragons na Overwatch League. Era sua primeira vez em um avião.
"O único pensamento que tive foi que o vôo era muito longo", disse ela.
Acima do palco da Overwatch League, ao lado do camarote com vista para toda a Blizzard Arena, Geguri fez uma reverência rápida para mim enquanto entrava na sala com o diretor de operações da Shanghai Dragons e com o tradutor improvisado de coreano para inglês, Michael Sun. Ecoando seus maneirismos no palco, ela se curvou baixinho. Ela olhava para o chão com mais frequência do que para qualquer outro lugar. Depois de se sentar, ela pegou seu celular, com uma capa verde e brilhante de um sapo. Ela tinha a maioria das minhas perguntas da entrevista digitadas em coreano com antecedência.
Geguri sempre foi breve com suas respostas, mesmo em um ambiente descontraído como seu canal do Twitch ou Discord. Às vezes, isso era devido a cautela. Ela frequentemente tomava cuidado extra no que estava prestes a dizer. Outras vezes, ela era capaz de soltar reações bruscas, quase sarcásticas. Seu canal no Discord é cheio de geguri-ismos como "Sal. Eu só posso te dar sal", onde ela desceu no chat para dizer aos membros da comunidade para serem fãs de alguém que é um jogador melhor. É um escudo autodepreciativo que seus fãs abraçaram. Geguri os amava e se inspirava neles - mas também temia que os desapontasse ou fracassasse.
Antes de me sentar com Geguri, os Shanghai Dragons pediram uma descrição da entrevista ou uma lista de perguntas. Inicialmente, eu pensei que isso era para algum tipo de processo de verificação, para garantir que eu não perguntaria algo questionável - ou a pergunta inevitável que ela já respondera inúmeras vezes: “Como é ser a primeira mulher na Overwatch League?” A última vez que ouvi a resposta dela foi na primeira conferência de imprensa do time na Fase 3 da liga.
Sua resposta foi cansativa e curta: "Eu só quero jogar Overwatch".
Em vez disso, ela começou a entrevista colada na tela do celular, determinada a responder às perguntas com a maior precisão possível. Não tinha sido apenas para examiná-las. Era para que ela se preparasse.
Não havia como ela saber que eu estava nervosa em entrevistá-la. Muito foi escrito sobre Geguri, mas poucos se incomodaram em descrevê-la fora de seu título de “primeira mulher no torneio Overwatch APEX da OGN”, e, agora, de “primeira mulher na Overwatch League”. Também calhou de ser a primeira incursão de Michael como intérprete, e ele também estava um pouco nervoso.
"Somos todos introvertidos aqui", brincou ele. "Você, eu e Geguri."
Embora ele fosse razoavelmente novo em sua posição com o Shanghai Dragons, ele descreveu Geguri como uma pessoa ótima de se conviver, já que ela contava muitas piadas e podia deixar mais leve situações potencialmente tensas. Um pouco do humor seco da jogadora já havia se espalhado nas mídias sociais, especialmente quando ela compartilhava histórias de dificuldades de comunicação por estar em uma escalação mista de sul-coreanos e chineses - e algumas das quais foram compartilhados na transmissão da Overwatch League.
Na metade da entrevista, Geguri começou a erguer os olhos do celular. Ela sorriu um pouco mais e riu timidamente enquanto insistia, através de Michael, que ela comprou rapidamente a edição especial de Overwatch após o lançamento. Ela falou sobre suas primeiras impressões de Los Angeles (muitas árvores, os prédios não eram tão altos quanto ela achava que seriam) e se perguntou sobre a falta de pessoas andando pelas ruas.
Seu amor por videogames veio de seus pais, que a apresentaram ao Crazy Arcade quando ela tinha cinco anos de idade. Era um jogo multiplayer online gratuito na Coreia no qual até oito pessoas lutavam entre si. Ela jogava com a mãe. Esse amor pelos videogames precipitou sua carreira na Overwatch, que ela comprou depois de se apaixonar pelos heróis brilhantes e coloridos do jogo em um trailer de pré-lançamento.
"Eles não gostavam muito de eu jogar bastante videogame como a maioria dos pais, mas viram que eu era realmente apaixonada", disse ela.
"Eu nunca me imaginei como jogadora profissional, mas quando comecei a jogar, as pessoas me encorajaram quando comecei a melhorar. Então comecei a atrair fãs e foi aí que comecei a pensar que talvez tivesse uma chance nisso."
Mesmo quando confortáveis, as respostas de Geguri eram concisas. A única vez que ela fez uma pausa foi quando teve que descrever como foi receber a ligação do Shanghai Dragons para jogar na Overwatch League. Suas palavras foram lentas, avançando sem a rapidez habitual. Para ela, foi uma decisão difícil.
Team Day is over, but our passion will never stop! 🔥🔥
— Shanghai Dragons (@ShanghaiDragons) April 14, 2018
Dragons Fighting! Let's Fire On!🐲🔥🔥 #OWL2018 pic.twitter.com/zASL8sejja
"Eu contemplei um pouco, mas sabia que era uma boa oportunidade", contou ela. "Eu queria experimentar muitas coisas e muitos fãs estavam pressionando por mim. Foi um desafio, então aproveitei essa oportunidade."
Apesar de toda a sua timidez, Geguri aceitou todos os desafios - falsas acusações de aimbotting, a pressão de ser a primeira mulher naOGN APEX -, enfrentando-os de frente e conquistando apoio dos fãs a cada passo à frente.
"Eu sou meio quieta e introvertida, então nunca estive em locais com grandes multidões", afirmou ela, descrevendo sua primeira experiência no palco do e-Stadium da OGN. "Quando eu fui ao palco e vi todas aquelas pessoas, fiquei muito nervosa. Fiquei impressionada com a quantidade de fãs, mas perdemos aquele jogo. Já que não consegui vencer, senti um pouco de tristeza."
A presença de Geguri na Overwatch League atraiu comentários de todos os lados, especialmente porque a história de sua ascensão como profissional é bem documentada. No entanto, a cada passo, e a cada novo desafio, sua base de fãs só cresce, especialmente quando espectadores curiosos da Overwatch experimentaram seu humor seco na stream ou nas redes sociais.
Geguri foi sua crítica mais dura, mas insistiu que seus fãs são uma fonte de inspiração e o catalisador que a levou adiante. No final da entrevista, perguntei se havia algo que ela gostaria de dizer a eles.
"Mianhaeyo". Desculpe .
Ela pediu desculpas sem hesitação, limpando as mãos em um lenço. Quando cutucada por Michael, ela corrigiu sua resposta.
"Eu quero continuar me esforçando e deixar todos os meus fãs orgulhosos".
Dois dias depois, a primeira vitória potencial do Shanghai Dragons escorregou em Junkertown, o mapa que a equipe parecia melhor do que em qualquer outro. Geguri ficou visivelmente desapontada. Os mais altos gritos da torcida eram muitas vezes para ela, o que impulsionou seu espírito. Também acrescentaram pressão, mantendo-a singularmente focada em se tornar a melhor.
"Ela é tão hilária", disse um dos fãs depois de uma partida. "Ela é o tipo de pessoa que você realmente quer ver feliz."
