O São Paulo anunciou nesta quarta-feira a saída de Rogério Ceni. Ex-goleiro e ídolo quase incontestável como jogador do clube, onde passou os 25 anos de carreira, ele encerra sua segunda passagem como técnico 18 meses após ser contratado, em outubro de 2021, quando substituiu o recém-demitido Hernán Crespo.
Nesta segunda passagem de Ceni pelo Morumbi, foram 106 jogos, com 49 vitórias, 28 empates e 29 derrotas, com um aproveitamento pouco acima de 54%. O trabalho terminou com 156 gols marcados e 107 gols sofridos.
Ao longo desses 18 meses, foram mais momentos de instabilidade do que de tranquilidade ao torcedor. Por isso, o ESPN.com.br listou sete desses momentos que acabaram minando o trabalho de Ceni em sua segunda passagem como técnico do clube do qual é ídolo.
Fracasso nas decisões
Multicampeão como atleta, Rogério deixa o São Paulo como técnico sem conseguir títulos, ainda que tenha batido na trave duas vezes na temporada passada. No Campeonato Paulista, contra o Palmeiras, o Tricolor chegou a vencer o primeiro jogo por 3 a 1, mas foi vice após sofrer 4 a 0 no Allianz. Meses depois, na Sul-Americana, uma atuação abaixo do esperado contra o Independiente del Valle custou mais um troféu.
Insistência em nomes desgastados com a torcida
Um dos maiores combustíveis para as críticas a Ceni vindas da torcida foram suas escalações. Igor Gomes, Rodrigo Nestor, Alisson e David foram os principais personagens das insistências de Rogério, sendo muitas vezes esses nomes até "isentos" dos tradicionais rodízios em meio às maratonas de partidas do São Paulo.
"Esse menino (Igor Gomes) é da base do São Paulo, um garoto fisicamente acima da média, que faz o trabalho sujo de um time de futebol, de se matar pra defensivamente se organizar pra que outros possam definir o jogo", disse Ceni, em março de 2022, após o meia ser vaiado no Morumbi.
Falta de oportunidades aos jogadores 'pedidos' pela arquibancada
Por outro lado, alguns nomes pedidos pela arquibancada não ganharam muitas chances, como Luan e Galoppo. O argentino, contratação mais cara da história do clube, só após uma longa sequência de gols que fizeram dele o artilheiro do Paulistão começou a ser constantemente relacionado entre os 11 iniciais. No segundo semestre de 2022, havia jogos em que ele sequer entrava em campo.
'Cornetadas' nas coletivas
Mesmo quando tais jogadores foram bem, no caso de Luan, marcando um gol no clássico deste ano contra o Santos, as palavras do técnico na coletiva não pegaram bem com a torcida.
“Ele entrou no minuto 70, é um 10 contra 8. O Méndez se manteve como primeiro volante e o Luan tem qualidade pra jogar, ele é acostumado como primeiro volante, mas num 10 contra 8, um time que só se defende ele pode jogar mais adiantado, se dá ao luxo de chegar mais e faz um belíssimo gol. O Luan é um jogador bem específico para proteger zaga, mas numa necessidade de ir e voltar e dar combate ao longo de 90 minutos ele não está pronto. Num 10 contra 10, contra um time rápido como o Santos, talvez ele teria um pouco mais de dificuldade".
Direção e treinador tiveram uma conversa nesse sentido depois da coletiva de Ceni após o São Paulo vencer o clássico contra o Santos no Morumbi. Apesar do triunfo, o técnico foi duro nas palavras, mas, depois desse episódio, mudou sensivelmente essa postura.
As inúmeras lesões no elenco
Durante quase todos os 18 meses desta passagem, Ceni teve que conviver com o excesso de lesões de jogadores importantes no elenco. Em coletivas, o técnico sempre defendeu seus métodos de treino, jogo e o departamento médico do São Paulo, que chegou a ser reformulado após o fim do Paulistão.
Houve partidas no ano passado em que os desfalques, juntando-se lesões e suspensões, chegaram a 15. Neste ano, Ceni mal conseguiu colocar em campo o time que gostaria, já que diversos atletas foram para a mesa de cirurgia.
Ele deixa o São Paulo com o DM tendo 8 nomes: David (estiramento no ligamento do joelho), Erison (estiramento em fibrosa na coxa esquerda), Galoppo (cirurgia no joelho esquerdo), Welington (cirurgia no tornozelo esquerdo), Igor Vinícius (cirurgia no púbis), Moreira (cirurgia no joelho esquerdo), Talles Costa (sutura no menisco do joelho direito) e Ferraresi (cirurgia no joelho direito).
As 'tretas' com o elenco
Durante sua mais recente passagem, Ceni teve problemas de relacionamento com atletas. Os mais notáveis foram Patrick, Marcos Paulo e Luan.
Com Patrick, a briga se deu durante o jogo contra o Fluminense no Brasileirão do ano passado. O meia não gostou de ter sido substituído no intervalo novamente e discutiu com o técnico no vestiário.
“Achei que o Patrick estava um pouco desgastado, principalmente defensivamente, não estava conseguindo recompor. O Galoppo entrou para fazer a mesma função do Patrick, mesmo sistema de jogo, mas tomamos o gol com um minuto, dois minutos. Acho que precisamos ser mais fortes psicologicamente, não deixar se abater por um gol, ter mais força psicológica, mental, para continuarmos no jogo mesmo quando sofremos um revés que não era esperado”.
"Nada de eu, ele, vi coisas de outros escritas [falando de briga]. Foi eu, ele, resolvido. Veio para o jogo, entrou. Jogador que não está pronto para sair, não pode fazer parte do grupo. Você faz três, cinco alterações, já vi gente importante ser substituída aqui. Raí, Dodô, Müller, França, Lucas Moura. Isso faz parte do futebol. Ou tem comportamento profissional mais adequado, ou faremos escolhas da nossa vida. Conversamos e segue trabalhando".
No final da temporada, Patrick acabou deixando o clube e foi para o Atlético-MG.
Com Marcos Paulo, a briga se deu após o meia curtir publicações de crítica a Ceni em sua conta no Instagram. O técnico cobrou o atleta duramente na frente do elenco durante um treino.
Já com Luan, Ceni por diversas vezes criticou publicamente o jogador por falta de empenho na recuperação de sua lesão. Com contrato até o fim do ano e as negociações por uma renovação emperradas, o técnico decidiu, sem pedir aval à diretoria, não relacionar mais o volante até que sua situação contratual fosse resolvida.
"Para mim é mais fácil essa decisão porque preserva o São Paulo. Ano passado, nós tivemos caso do Igor Gomes e vocês falaram 'poxa, jogou até o final'. Acho que a gente pode refletir e evoluir. Talvez tenha sido errado. Então vamos esperar, a hora que ele decidir e as coisas se acertarem, quem sabe eles consigam entrar num acordo e ele possa ser utilizado. É uma decisão minha, não é da diretoria".
Problemas na estrutura do clube
Não é segredo para ninguém das dificuldades financeiras e estruturais que o São Paulo passa há anos. E Ceni, quase que como um porta-voz, sempre deixou claro isso nas suas entrevistas coletivas. Desde a água faltando na piscina do CT até a falta de dinheiro para contratações, o técnico deixou claro os problemas que o impediam de montar um elenco mais qualificado.
Próximos jogos do São Paulo
América-MG (C) - 22/04, 18h30 - Brasileirão
Ituano (F) - 25/04, 21h30 - Copa do Brasil
Coritiba (F) - 29/04, 16h30 - Brasileirão
