O Santos apresentou o técnico Kleiton Lima em seu retorno ao comando das Sereias da Vila na última terça-feira (9). Um dos objetivos da entrevista coletiva foi colocar um "ponto final" na história das cartas de jogadoras sobre episódios de assédio moral e sexual por parte do treinador, em setembro de 2023. Para quem escreveu aquelas denúncias, porém, o caso ainda está longe de um desfecho ou esquecimento.
A ESPN ouviu relatos de atletas e membros da comissão técnica que estavam no elenco do ano passado e vivenciaram ou assistiram a situações de assédio na presença do técnico das Sereias. Vale lembrar que foi Kleiton Lima quem pediu desligamento do Santos quando soube das denúncias.
"Uma vez, ele chegou dizendo que estava acabado pois tinha transado com a mulher dele a noite inteira."
Segundo os depoimentos, Kleiton não só fazia comentários sobre sua vida sexual, como também falava com frequência do corpo das jogadoras.
"Teve uma atleta observada dentro do banheiro. Ele nunca tinha entrado lá, viu que ela estava entrando sozinha, foi atrás, abriu a porta e ficou observando. Ela estava de calcinha e top. Ele não fechou a porta e ficou olhando de cima a baixo. Ele rodeou, viu a bunda dela e falou da bunda dela", relatou outra ex-jogadora.
"Eu estava de costas no campo e ele tocou na minha bunda. Ele disse: e essa bunda aí, você não disse que ia emagrecer?"
As atletas afirmam que assim que o assunto começou a circular internamente, todas foram instruídas a não registrar boletim de ocorrência na Polícia e levar as denúncias à ouvidoria do clube.
Durante a apresentação de Kleiton Lima, a coordenadora de futebol feminino Thaís Picarte disse que apurou não apenas com as pessoas que estão no clube, mas com atletas que também já saíram e que nada teria sido provado. Como consequência, 9 das 14 atletas que deixaram o Santos do ano passado para cá, se manifestaram nas redes sociais dizendo que não foram procuradas.
À reportagem, jogadoras e ex-funcionárias disseram entender o motivo do desligamento de outras atletas e também de mulheres que trabalhavam na comissão técnica do Santos mesmo antes da divulgação das cartas.
"Nossas denúncias foram abafadas. Fomos silenciadas, taxadas de louca e depois mandadas embora. Tudo foi acobertado, fomos caladas lá dentro, fomos proibidas de falar sobre qualquer assunto lá dentro. Uma comissão inteira foi mandada embora por não concordar com o Kleiton."
Uma ex-funcionária do clube relatou ter testemunhado uma situação envolvendo outra jogadora e sua questão mental. Isso teria acontecido durante uma viagem para a disputa da Ladies Cup.
"A gente tinha uma atleta que tinha ansiedade e, em um dos jogos, ela teve uma crise muito forte. O Kleiton achou que ela apenas estava ansiosa pelo jogo. Após essa crise, em que ela precisou ser medicada, teve uma reunião com a comissão em que ele questionou a equipe médica e falou coisas absurdas sobre saúde mental. Ele disse que não sabia que tinha uma atleta doente na equipe e que, se soubesse que era doente, não teria renovado o contrato dela. Disse ainda que ela não jogaria mais."
"Ele levou uma menina numa sala e falou que ela não era ninguém para ele. Que ele poderia acabar com a carreira dela", também contou uma ex-atleta.
Uma outra ex-funcionária contou outros casos de assédio moral com jogadoras que ela vivenciou no período em que trabalhava no Santos. "Ele falou para uma atleta que ela estava velha demais, que ela já era aposentada, que ela era uma atleta aposentada."
"A forma de cobrança para as atletas que ele gostava e eram pupilas deles, a forma de corrigir, a forma de cobrar, era uma. Para as outras, era completamente diferente. Era gritando, era corrigindo de forma brusca, era dizendo para a atleta que tem que fazer o que ele manda, se não ela nunca mais iria entrar no jogo."
A questão religiosa também foi levantada por algumas jogadoras em suas denúncias. Kleiton é evangélico e, segundo relatos, teria beneficiado atletas por seguirem a mesma religião e frequentarem a mesma igreja que ele.
Quando questionado sobre o assunto na coletiva de apresentação, o técnico apenas negou que isso teria acontecido. "Não, não vejo nenhuma perseguição e não há nenhum fundamento nisso", disse.
De acordo com os relatos, um outro fator causava desconforto das jogadoras: a não utilização de roupas íntimas por parte de Kleiton. A ausência da peça trazia incômodo, uma vez que evidenciava o órgão genital do treinador.
"Ele não usava cueca, ele ficava com o órgão sexual completamente evidente, porque o shorts é muito fino. Ele sentava de qualquer jeito e era superdesconfortável. E não era porque o short era fino. Todos os homens da comissão usavam shorts e aquilo não acontecia. Se todos os homens do clube usavam o short e não ficava daquele jeito, por que só o dele ficava?"
As jogadoras também disseram que sempre relatavam as situações vividas com o treinador a Aline Xavier, então coordenadora de futebol feminino do time – cargo ocupado, hoje, por Thaís Picarte. Segundo os depoimentos ouvidos pela reportagem, “Xavi” (como era chamada a ex-dirigente) minimizava as denúncias, alegando que "era o jeito" de Kleiton.
"Com a Aline era assim, toda a situação que era constrangedora, que era chata, quando a gente comentava alguma coisa, ela sempre minimizava. Ela dizia 'ah, mas é o jeito dele. Ele não faz por mal, às vezes ele passa um pouquinho, mas o futebol é assim mesmo'", relatou uma ex-funcionária. "Ela (Xavi) permitiu que muitas dessas coisas acontecessem e tudo que era falado, ela descredibilizava".
"A Xavier teve inúmeros relatos, não foi um, dois, foram vários, e ela protegia ele o tempo todo. Ela contava tudo para ele e iam em cima da menina cobrá-la, intimidá-la. Nós estávamos numa instituição que teve Pelé, Marta... A gente imagina estar protegida, e o clube abafa tudo", desabafou uma ex-jogadora.
Na apresentação de terça, o coordenador de futebol Alexandre Gallo justificou o retorno de Kleiton Lima citando uma investigação realizada em parceria com a Polícia Civil. Segundo ele, não foram comprovadas as denúncias contra o treinador.
A reportagem também procurou Thaís Picarte e Kleiton Lima através da assessoria oficial do Santos. O técnico não se manifestou até a publicação desta reportagem, mas o espaço segue aberto. A dirigente sim e citou, assim como na terça, a investigação interna realizada pelo clube.
"Na última gestão, o clube realizou sua apuração ouvindo todo o elenco e nada de concreto foi levantado, impossibilitando um julgamento negativo do profissional dentro da instituição. Hoje, esse é um assunto que corre na Justiça, com denúncia feita por parte do Kleiton, portanto não cabe a mim nem às redes sociais julgar a inocência dele. Não se trata da minha opinião, mas de um assunto muito sério, que deve ser tratado desta forma, no âmbito judicial."
"Nesta e na gestão passada, tivemos sim conversas com atletas que participaram da movimentação e tudo foi levado em consideração antes do anúncio da contratação. Esclareço que neste novo momento nem todas as atletas que optaram por deixar o clube foram contatadas, em nenhum momento afirmei isso", seguiu.
"Garanto que sob minha gestão teremos controle sobre todas essas questões, monitorando o comportamento de todos os profissionais envolvidos em nossa comissão técnica. O Santos não compactua com nada do que foi apontado nas denúncias anônimas e preza por um bom ambiente de trabalho."
Aline Xavier também foi consultada, mas optou por não falar.
