'O Atlético-MG propõe o jogo, coisa que o Palmeiras geralmente não faz', disparou Cuca, em coletiva no último domingo (14)
Em sua coletiva do último domingo (14), após a vitória sobre o Coritiba, o técnico do Atlético-MG, Cuca, voltou a falar da eliminação na Conmebol Libertadores para o Palmeiras e classificou a equipe de Abel Ferreira como "reativa".
"O Palmeiras é um time reativo, então é mais fácil para o Abel pôr Dudu e Rony para marcar. O meu time não conseguiria fazer isso, porque não é reativo, mas proativo: propõe o jogo, coisa que o Palmeiras geralmente não faz. Ele tem a bola longa, a marcação individualizada e joga no seu erro após a roubada de bola", disse o comandante, em trecho da entrevista.
Os números, porém, dão uma visão um pouco diferente...
Dono do melhor ataque do Campeonato Brasileiro, com 37 tentos, e 111 gols marcados em 56 partidas no ano (média de quase 2 por jogo), o Verdão apresenta estatísticas ofensivas muito positivas na Série A.
O time de Abel tem as melhores médias de finalizações/jogo (16,8) e finalizações certas/jogo (6,6).
Em posse de bola, o Alviverde é o 4º com maior média: 53,34%, atrás só de Fluminense, Atlético-MG e Flamengo.
A equipe ainda é a 3ª que mais cruza (24,2 por jogo, atrás de Red Bull Bragantino e Juventude), sendo ainda a líder em escanteios (4,7 por jogo), viradas de bola (5,1 por jogo) e viradas certas (4,7 por jogo).
Para soluciona de vez essa questão, o ESPN.com.br ouviu também os comentaristas da ESPN, que opinaram sobre a fala e Cuca e estilo de jogo de Abel Ferreira no Alviverde.
Confira abaixo as opiniões:
Paulo Cobos
Blogueiro do ESPN.com.br
Cuca só acerta uma pequena parte do seu diagnóstico sobre o Palmeiras de Abel. O Alviverde do português sabe, sim, "ser reativo". Mas reduzir o Palmeiras atual a isso é um exemplo de como os treinadores brasileiros não conseguem avançar.
O time de Abel sabe propor o jogo. Tem um leque grande de variedades táticas. Altera o modo de jogar de acordo com o adversário, a competição e a situação do jogo.
O próprio Cuca, aliás, deveria saber isso depois de ser eliminado com o Atlético-MG em um jogo que o Palmeiras chegou a ter dois jogadores a menos, e ainda assim finalizou mais!
O Palmeiras de Abel nunca será um time como o Manchester City de Guardiola, que impõe sua forma de jogar sempre (ou quase: armou um retranca contra o Atlético de Madrid na última Champions).
Não sobra ousadia para Abel Ferreira no Palmeiras. Mas a fartura de inteligência impressiona. Reativo ou atacando.
Paulo Andrade
Narrador e apresentador da ESPN
Não considero o Palmeiras um time reativo.
O Palmeiras até foi mais reativo no início da 'era Abel', quando o treinador ainda não tinha definido sua equipe titular. Hoje, vejo o Palmeiras competitivo e muito capaz de entender cada circunstância que os adversários oferecem. Está com méritos na liderança do Brasileiro, mereceu todos os títulos conquistados e está de forma justa na semifinal da Libertadores.
O Palmeiras tem algumas maneiras diferentes de se comportar com os mesmos jogadores em campo, o que é um mérito também. O Abel demorou um pouco para definir sua equipe titular, mas hoje ele tem um time capaz de se adequar às circunstâncias e necessidades que o jogo pede.
Não concordo com o Cuca. O Palmeiras já foi mais reativo, um time de esperar mais, mas, hoje, considero essa afirmação como um erro.
Leonardo Bertozzi
Comentarista da ESPN e blogueiro do ESPN.com.br
"Reativo" é uma maneira de descrever o Palmeiras que hoje não se encaixa em todos os contextos.
Talvez no início de trabalho do Abel, sim, o Palmeiras foi reativo. Mas isso foi uma maneira dele se estabelecer rapidamente no futebol brasileiro e dar estabilidade à sua equipe.
Mas o Palmeiras 2022 tem muitas variantes táticas, estratégias, se adapta aos adversários e ao que pedem os jogos.
É uma euipe que, hoje, é capaz de jogar com posse, ocupando o campo do adversário. Portanto, é incompleto descrever o Palmeiras como time apenas "reativo", embora a equipe se sinta confortável nesse formato, e isso é inegável.
Usar esse rótulo, porém, é incompleto, porque um time não chega a uma liderança de Brasileirão com tanta folga, como fez o Palmeiras, se não for capaz de executar bem as diferentes fases do jogo.
Bruno Vicari
Apresentador da ESPN
Renato Rodrigues
Comentarista da ESPN
Para mim, hoje essa visão do Cuca é equivocada.
Por algum tempo, o Palmeiras do Abel foi predominantemente reativo, principalmente no 1º ano do trabalho. Mas o grande salto que o Palmeiras deu na qualidade de seu jogo nesta temporada foi se tornar um time com capacidade maior de propôr jogo.
Desde a preparação para o Mundial de Clubes, contra o Chelsea, a gente consegue enxergar no trabalho do Abel alguns padrões de construção, de um jogo até mais posicional em alguns momentos para abrir espaços, de variações, de saída com três usando o lateral enquanto 'espeta' o outro, da alternância de lados do Dudu, que uma hora abre o campo, outra hora vem por dentro...
Hoje, vejo o Palmeiras como um time equilibrado, que, para mim, é o que todo treinador deveria almejar. É um time que, quando precisa, também consegue baixar os blocos e esperar. Mas o Palmeiras hoje, quando enfrenta equipes mais fechadas, o que era um problema antes, agora consegue gerar espaços e consturir situações.
Isso se dá pelo tempo de trabalho do Abel, que, num primeiro momento, optou por ter um time competitivo, que conseguia tomar poucos gols, e aí, aos poucos, foi equilibrando seu trabalho. Hoje, o Palmeiras para mim é isso: equilibrado.
Paulo Calçade
Comentarista da ESPN
Se o objetivo de Cuca era chamar o Palmeiras de 'reativo' como forma de diminuir a maneira de jogar, de colocar em um 2º plano ou num patamar inferior, acho uma grande bobagem.
No conceito de "reativo", no futebol brasileiro, você "reage" à ação do adversário. Ou seja: você joga sem a bola e reage quando a recupera. Só que, todos, invariavelmente, fazem isso em algum momento.
Times que ficam com a posse o tempo todo, como se fossem o City ou o Barcelona do Guardiola, não existem no futebol brasileiro, por vários motivos: a descaracterização das equipes durante a temporada, o calendário insano, etc.
Mas o Atlético-MG é um time de posse de bola, propositivo 100% do tempo? Também não é. Então, vejo a fala do Cuca como uma forma de diminuir o Palmeiras do Abel.
Quando o Palmeiras precisa, ele tem a posse de bola, mas a usa de uma forma diferente. Faz um jogo mais direto, menos apoiado ou focado na posse de bola o tempo todo.
Acho que o Cuca foi muito mal nessas últimas conversas e nessas análises.
A análise que o Abel fez após os jogos entre Palmeiras e Atlético-MG, aliás, foi extraordinária, excelente. Ele mostrou os defeitos do time do Atlético de forma muito clara. No dia seguinte, todos os analistas apontaram que o Abel estava certo.
Reclamar e falar que o Palmeiras do Abel usa de retranca é uma grande bobagem. Entendo que o Cuca, nesse debate, foi muito mal, porque o Abel não só explicou, como desenhou as coisas para ele...
