'Vocês não sabem jogar bola' e 'ele dá o mapa, basta seguir': brasileiros contam bastidores de como é Guardiola no dia a dia

Multicampeão por onde passou, Pep Guardiola espera encerrar neste sábado (10) uma espera de 12 anos por um novo título da Champions League na decisão entre Manchester City e Inter de Milão, com bola rolando às 16h (de Brasília) e cobertura em Tempo Real do ESPN.com.br.

A longa seca na Europa, porém, não é reflexo da falta de trabalho. E isso a imensa maioria de seus comandados podem relatar mais do que ninguém – inclusive os brasileiros, que ajudam a explicar o que o técnico, para muitos o maior de todos os tempos, tem de diferente.

É o caso de Rafinha, lateral-direito que trabalhou com Pep durante toda sua passagem pelo Bayern de Munique, entre 2013 e 2016. Segundo contou o hoje lateral do São Paulo em entrevista ao Flow, o comandante chegou "soltando os cachorros" na Alemanha e depois demonstrou por que era diferenciado.

"Foram três anos com ele no Bayern, as temporadas em que eu mais joguei. Não vou falar que foi fácil, porque no começo eu balancei... ele só chegou e falou na primeira reunião que a gente teve, depois de ganhar a Champions League, a Bundesliga e a Copa da Alemanha: ‘vocês não sabem jogar bola’. Chegou falando em alemão já", relatou.

"Aí todo mundo assim, acabamos de ganhar a Tríplice Coroa. ‘Se eu jogasse contra, vocês iriam sofrer‘, ele disse. Aquela resenha toda, aí beleza. Nós sul-americanos entendemos, era brincadeira, mas os alemães ficaram naquela: 'como que esse cara chega, acabamos de ganhar a Tríplice Coroa, e fala uma coisa dessas?’. Rapaz, quando ele começou a dar os treinos...".

E não parece ter demorado muito para Pep provar seu ponto. Segundo o próprio Rafinha, nos primeiros treinamentos, os próprios jogadores foram obrigados a concordar com a fala de seu comandante.

"Todo ano tem um treino para a torcida, ali no Allianz. Ele colocou os cones no chão, fez três quadradinhos de rondo e depois vamos treinar. Aí treinamos ali, apresentamos para a torcida. Quando acabou, ele falou: ‘a partir de amanhã a gente começa a treinar para chegar onde quer chegar, buscar o título, vai ser campeão se fizer isso e aquilo’. Fomos para o CT e ele começou a dar os treinamentos. Ele tinha razão: a gente não sabia jogar. Que isso, ele mudou nosso time de uma forma. Deu um sacode na gente que todo mundo ficou bom, até quem tinha pé duro (risos). Nós brilhamos, sem sacanagem", relatou.

O esforço do time foi recompensado. Naquele mesmo ano, em partida contra o City que seria seu futuro clube, uma amostra de seu sucesso seria vista.

"Quando ele viu que começou a ganhar fácil de todo mundo... Primeiro ano do Guardiola foi sacanagem. Nós pegamos um jogo com o Manchester City, lá em Manchester, na Liga dos Campeões, e demos mais de mil passes. Acabou o primeiro tempo, e lembro do Fernandinho falar para mim: nossa, o jogo tem que acabar agora! Voltava para o Campeonato Alemão e atropelamos todo mundo”, relembrou o lateral.

Memórias de Barcelona

Mas seu estilo de trabalho já impressiona desde os tempos de Barcelona, primeiro clube que Guardiola comandou. Em entrevista ao ESPN.com.br, o ex-lateral Adriano falou como o técnico consegue alinhar as partes teórica e prática.

"Eu acho que tem a parte teórica e a prática. Muitos são muito bons na parte teórica, mas não conseguem desenvolver na prática. E ele tem um teórico muito bom, uma vivência, até pelo fato de ter sido um grande jogador, e a prática dele é onde faz a diferença. Ele é um cara que vive o futebol intensamente, 24 horas, ele vê coisas, detalhes, que eu acho que isso que faz a diferença dele".

"E a simplicidade dele, não tem nada extraordinário, que a turma fala 'o que ele faz de diferente dos outros?’, mas a maneira dele lidar no dia a dia, a parte de gestão dele, da maneira dele realmente ser como treinador, ele simplifica muito o trabalho para o jogador e consegue tirar o melhor de casa jogador", avaliou.

Adriano ainda falou da forma como o catalão sabe trabalhar com elencos curtos, sabendo extrair o melhor de seus jogadores. “Ele vê realmente o que falta em cada posição. Se você ver os clubes aonde ele trabalhou, as contratações são pontuais. E dele poder fazer parte disso, é uma diferença muito grande, junto com o presidente, com o diretor, mas ele também conseguir montar a sua equipe da maneira que ele entende futebol. Eu acho que isso que é uma das grandes diferenças do Guardiola".

Um dos pontos que mais impressionou o brasileiro, porém, foi a forma como ele consegue conversar com seus comandados individualmente para conseguir corrigir qualquer tipo de falha, sempre em busca da perfeição.

"Eu lembro que na minha chegada tivemos algumas conversas em alguns jogos, e eu fiz alguns jogos na pré-temporada, começo de temporada, e até então ele não tinha me falado nada. Ele esperou eu ter essa minha adaptação, a gente conversou muito poucas vezes depois da minha chegada, mas depois de alguns jogos ele me chamou e mostrou: 'Adri, aqui você continua fazendo isso, que isso é uma qualidade que você tem. Só que aqui a gente vai ter que melhorar em alguns aspectos".

"Ele foi me mostrando e aquilo foi muito importante para mim naquele momento. Ele te mostra aquilo que você está fazendo de bom, aquilo que você é bom, que você tem como característica, mas também depois ele te mostra pontos para você melhorar. E no dia a dia, se você faz alguma coisa que ele está vendo que você pode melhorar, ele te tira no meio do treinamento, ele te explica, te ensina", completou.

Histórias no Manchester City

A influência de Guardiola consegue ser vista, inclusive, em jogadores mais experientes, também. Foi o que Fernandinho relatou ao ESPN.com.br, colocando Pep, que o comandou no City entre 2016 e 2022, como alguém capaz de reativar sua paixão pelo jogo.

"Quando eu começo a trabalhar com ele, eu tinha 30 anos de idade. Foi uma experiência única para mim, em que eu pude aprender muitas coisas dentro do futebol, que até então eu nunca tinha ouvido falar, questões principalmente táticas, em relação a treinamento, a forma como você faz a preparação para enfrentar os adversários".

"A forma como eu passei a ver o jogo passou a ser diferente. Meu entendimento do jogo ficou diferente. Até então, eu nunca tinha tido um treinador como ele, que se preocupa tanto com os detalhes como ele se preocupa. Creio que não é à toa que ele é considerado um dos melhores treinadores da história do futebol", disse.

Fernandinho ainda conversava sobre o trabalho de Guardiola com outros jogadores no vestiário. Com Danilo, inclusive, chegou a falar que suas preleções pareciam "uma aula de faculdade". "Danilo e eu conversávamos muito. Muitas das vezes, a gente saía de uma reunião e parecia que a gente estava em uma universidade",

Mas outro fator chamou ainda mais as atenção do volante: a forma como o catalão consegue mudar o posicionamento de seus comandados, citando seu exemplo e o do próprio Danilo, que atualmente está na Juventus.

“É muito curioso, porque hoje você pega o Danilo jogando na Juventus como um zagueiro central, podendo jogar em posições diferentes. Eu tive a oportunidade de jogar como defensor central também no City com o Guardiola".

"Esse tipo de coisa é o legado que acaba ficando para nós, como jogadores, ter a oportunidade de entender o futebol de uma forma mais ampla, mais detalhada, conseguindo exercer outras funções, que teoricamente seria mais difícil. Mas a forma como ele enxerga o futebol acaba facilitando muito aos seus comandados", avaliou.

E quem estará em campo neste sábado defendendo a meta de Guardiola também pode dizer que evoluiu muito sob a batuta do catalão: Ederson, que, em entrevista à TNT Sports, falou sobre como passou a usar os pés (e dar assistências) no City.

"Do elenco atual, o que chegou com mais holofote é o Haaland. Nenhum outro chegou e você falou que era craque de bola. E todos que passaram na mão dele tiveram uma evolução incrível. Então, acho que é um dos principais fatores que temos que extrair dele, o poder e a evolução de trabalhar com ele. É uma coisa absurda".

"Ele é um cara que estuda muito o adversário, lembro que minha assistência para o Agüero foi treinada. Ele disse: a equipe adversária vai pressionar dessa maneira e a gente vai fazer isso num tiro de meta. Treinamos isso e no jogo, na primeira bola, aconteceu o que a gente treinou. Ele nos dá o mapa, basta só você seguir. Chega a ser uma coisa bizarra, de coisas que a gente treinou e aconteceram no jogo", revelou.

Mas isso não é nenhuma surpresa para o goleiro brasileiro. Afinal, Guardiola "vive e respira o futebol". "Em todos os jogos ele vive aquilo. Cada bola que você erra, ele grita com você. Se acerta, ele grita e bate palma. É um cara muito exigente. Por viver isso tudo, a cabeça dele fica em burburinho. Às vezes passa do ponto, mas é normal, a gente sabe como é. É aquele treinador bom que fala o que tiver que falar para você na sua cara".

Mas quem melhor definiu Sampaoli foi mesmo Danilo: gênio - mas não necessariamente um gênio comum.

"Sempre digo que os gênios são loucos e ele vai por essa linha! É um cara que muitas vezes você passa por ele e ele nem te diz ‘olá’ porque está com a cabeça longe pensando no próximo jogo, numa mínima modificação que possa fazer para atacar, para defender. Muitas vezes vejo ele numa mesa com várias pessoas e ele com olhar fixo numa direção onde não há nada (risos). Sem dúvida está sempre pensando em novidades para sua equipe", finalizou.

Pep Guardiola possui 2 títulos de Champions League, os dois conquistados pelo Barcelona, em 2008/09 e 2010/11, e foi vice com o City em 2020/21. Com o Bayern, chegou no máximo na semifinal em suas três temporadas na Baviera. Chegou a hora de outra taça para a coleção?