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Santos x Grêmio: Kaio Jorge viu família 'vender tudo' pelo sonho; hoje, é esperança na Libertadores

Para virar destaque do Santos, Kaio Jorge contou uma aposta arriscada dos pais em seu talento. O garoto de 18 anos estará em campo contra o Grêmio pela segunda partida das quartas de final da Conmebol Libertadores na Vila Belmiro, nesta quarta-feira. No duelo de ida, as equipes empataram em 1 a 1 em Porto Alegre.

O jogo, que será realizado às 19h15 (de Brasília), terá transmissão ao vivo do FOX Sports e acompanhamento em tempo real, com vídeos de lances e gols, do ESPN.com.br.

O pai de Kaio, o ex-atacante Jorge Ramos, que defendeu Porto-PE, Gama-DF, Sport, Petrolina-PE, Cabofriense-RJ e Chaves-POR, via desde cedo que o filho tinha um talento diferenciado e passou a treiná-lo com apenas quatro anos no meio de meninos mais velhos.

Depois de começar em escolinhas em Recife, ele passou pelo futsal de Náutico e Sport antes de ser levado para o campo.

“O Kaio tinha uma coordenação motora incrível para fazer os exercícios que algumas pessoas achavam que era gato. Lembro que me falavam: 'Ou ele é gato ou será um fenômeno'”, confessou Atenas Karina, mãe de atacante, ao ESPN.com.br.

Destaque todos os torneios de futsal, o menino precoce pedia para o pai para levá-lo para fazer testes nos grandes do Sudeste. O desejo foi atendido em 2012, quando o garoto veio fazer uma avaliação no São Paulo.

"Fui com R$ 30 no bolso e o Kaio estava com fome, mas a comida de aeroporto é cara. Ele arrebentou nos treinos e achei que ia ficar porque tinha dado chapéu e feito gol de bicicleta. Depois de 15 dias, o Geraldo [Oliveira, ex-coordenador da base do São Paulo, falecido em 2017] disse que Kaio não iria ficar porque eles fizeram um estudo e que ele não se desenvolver depois dos 13 anos", contou Jorge, ao ESPN.com.br.

Após a frustração, o pai resolveu treinar ainda mais o filho no campo. Ele fez um vídeo com os lances do garoto e agendou uma avaliação no Santos. O problema é que eles teriam que bancar todos os custos das passagens de avião e hospedagem em uma pousada para o período na Baixada Santista.

“Não queríamos pedir dinheiro para ninguém porque cada um tinha seus problemas. Eu vendi tudo que tinha: anéis, perfumes, bolsas... O Jorge vendeu mais algumas coisas, juntamos o dinheiro e deu para fazer o teste. Arriscamos tudo o que a gente tinha porque acreditávamos muito no potencial dele. Ele era realmente diferente porque era sempre o melhor em todos os torneios. Temos muitas caixas de medalhas aqui”, afirmou Atenas Karina.

Os pais tentaram poupar Kaio do sacrifício que fizeram para que o nervosismo e a ansiedade não o atrapalhassem no teste.

"A gente tentava apoiar, mas sem colocar pressão. Como fui jogador, sabia que não poderia jogar essa responsabilidade para cima do garoto. Eu faria tudo de novo e me emociono em falar sobre isso. Com pouco tempo no Santos, ele foi aprovado mesmo jogando no meio de meninos de 14 anos. Jogou de lateral, ponta e meia para testar. Era para ficar uma semana, mas depois de dois dias ele foi aprovado no fim de 2012", contou Jorge.

Mesmo já estando separados há algum tempo, Jorge e Atenas mudaram-se para Santos e foram morar juntos com Kaio em uma casa bancada por um investidor. Eles queriam dar suporte afetivo ao filho de apenas 10 anos.

“A gente sempre teve uma boa amizade e uma parceria. A gente não tinha como manter duas casas. Ficamos quatro anos dessa forma, cada um no seu quarto. Nós vivíamos normalmente, cada um respeitando o espaço do outro. Quando as coisas melhoraram, o Jorge alugou um apartamento em Santos”, disse Atenas, que mora com Kaio até hoje.

'Ele sabe o que quer'

Em pouco tempo, Kaio virou um dos jovens mais promissores da base e foi com apenas 15 anos ao sub-20.

"A chance não avisa quando chega e você precisa estar preparado. Eu lembro que ele estava com a clavícula trincada antes da Copa Nike e sabíamos que era crucial para ir ao Sub-20. Eu disse: 'É o último tiro, vai assim mesmo'. E ele se destacou".

Em 2018, foi chamado para completar os treinos dos profissionais, encantou Cuca e permaneceu no elenco principal. Em setembro, estreou contra o Atlético Paranaense e tornou-se o sexto jogador mais jovem a jogar pelo Santos.

No ano passado, o jovem assinou um novo contrato até 2022 com uma multa rescisória de 50 milhões de euros (R$ 310 milhões) após alguns meses de impasse.

Sob o comando de Jorge Sampaoli, Kaio fez apenas sete jogos, mas foi campeão do Mundial sub-17 e chuteira de bronze - com cinco gols marcados - pela seleção brasileira.

"Achava até bom que ele ia jogando aos poucos e saindo para pegar confiança. Às vezes, coloca o menino de uma vez, queima e não volta mais", disse o pai.

"As coisas foram acontecendo e nos deram confiança. O Mundial foi um marco na vida ele e tudo mudou. Ficamos muito felizes porque o avô dele, que faleceu pouco tempo depois, viu a realização de um sonho do Kaio", disse Jorge.

Em 2020, o jovem recebeu mais oportunidades. Em março, marcou o primeiro gol na vitória de virada sobre o Defensa y Justicia, válida pela primeira rodada da Libertadores. Já são 36 jogos e cinco gols marcados, o últimos deles contra o Grêmio, no jogo de ida da quartas da Libertadores.

“O Kaio é muito focado e sabe o que quer. Ele fala pouco, mas é muito observador. Ele procura seguir os exemplos dos grandes jogadores. Quanto mais difícil o jogo, parece que ele joga melhor. Ele absorve a energia da torcida”, garantiu Atenas.